Símbolo da Reunificação alemã, Estação Central de Berlim completa 20 anos
Inaugurada em maio de 2006, a moderna estrutura de vidro e aço, por onde circulam diariamente 300 mil pessoas, foi projetada para reconectar a capital alemã física e simbolicamente."Este é um dia simbólico, pois este também é um local simbólico. Bem ao lado do antigo Muro [de Berlim], uma nova ponte está sendo construída entre diferentes direções, conectando as partes antes separadas de Berlim de uma maneira completamente nova", disse a então chanceler federal alemã, Angela Merkel, em seu discurso de inauguração da Estação Central de Berlim, em 26 de maio de 2006.
Merkel teceu elogios ao prédio como "uma estrutura moderna, aberta e cosmopolita" que incorporava o espírito pós-Reunificação de Berlim e da Alemanha.
A localização era particularmente simbólica, já que a moderna estação foi construída num local que passou anos negligenciado, ao longo de uma terra de ninguém que dividia Berlim durante o período da Guerra Fria.
Localização reflete história tumultuada de Berlim
Após a Segunda Guerra Mundial, quando Berlim foi dividida entre o Oeste capitalista e o Leste comunista, a rede ferroviária da cidade também foi repartida em duas.
Na Berlim Oriental havia a Ostbahnhof [Estação Leste], e na Berlim Ocidental os trens de longa distância partiam da infame Bahnhof Zoo.
Após a Reunificação, em 1990, os planejadores urbanos queriam uma estação central completamente nova que reconectasse a cidade física e simbolicamente. O local escolhido foi onde ficava uma antiga estação do século 19, a Lehrter Bahnhof.
Quando foi inaugurada em 1871, a Lehrter Bahnhof rapidamente se tornou o ponto de chegada da linha ferroviária oeste-leste mais importante da Alemanha. Durante a Segunda Guerra Mundial, a estação foi severamente danificada. Alguns anos depois, entre 1957 e 1959, os restos do prédio foram demolidos.
No entanto, a estação dos trens metropolitanos S-Bahn com o mesmo nome foi preservada. Ela era a última parada da rede dos trens suburbanos no lado ocidental de Berlim, antes de cruzar a fronteira para o leste.
Reunificação da rede ferroviária
Quando, em 1990, Berlim teve repentinamente de funcionar de novo como uma única cidade, seu sistema ferroviário, há muito dividido, também precisou ser redefinido e modernizado.
A nova estação central foi projetada como o nó principal dessa rede unificada, com múltiplos níveis de tráfego ferroviário se cruzando em diferentes alturas, atravessando o centro da cidade como um "X" de aço gigantesco.
O concurso do projeto arquitetônico foi vencido pelo arquiteto alemão Meinhard von Gerkan (falecido em 2022) e seu escritório Gerkan, Marg and Partners, ou GMP Architects.
O alinhamento dos trilhos e plataformas havia sido predeterminado pela Deutsche Bahn, a companhia ferroviária nacional da Alemanha, explica o arquiteto Stephan Schütz, sócio-diretor da GMP Architects. "A tarefa era, portanto, criar, com base nisso, uma estrutura que se abrisse para a cidade, proporcionando simultaneamente orientação e clareza", diz Schütz.
Von Gerkan, cuja reputação no mundo da arquitetura foi consolidada pelo projeto do Aeroporto de Tegel, em Berlim, na década de 1970, idealizou a estação como uma "catedral dos transportes".
"A luz natural desempenha um papel especial nesse contexto, e é por isso que o aço e o vidro definem a aparência da estação", destaca Schütz. O projeto oferece uma sensação de luminosidade, modernidade e amplitude.
Outro destaque, observa Schütz, é o alinhamento preciso da estação com a cúpula do Reichstag (sede do Bundestag, o Parlamento alemão), servindo como um ponto focal visual. A cúpula do edifício histórico também foi reconstruída após a reunificação da Alemanha, e também em vidro, como um símbolo da transparência na política.
Pronta para a Copa do Mundo de 2006
A construção da estação ferroviária começou oficialmente em 1995 e prosseguiu por 11 anos.
Construir diretamente ao lado do rio Spree foi um dos principais desafios, já que os níveis de água subterrânea na área são extremamente altos. Túneis tiveram de ser construídos embaixo da água.
Em Berlim também há milhares de bombas não detonadas da Segunda Guerra, o que significa que delicadas intervenções para desativação de explosivos fizeram parte do processo de escavação.
A estação foi inaugurada pouco antes de a Alemanha sediar a Copa do Mundo da FIFA em 2006. Mas, para cumprir esse prazo e, ao mesmo tempo, reduzir custos, a Deutsche Bahn decidiu modificar o conceito original dos arquitetos.
O icônico telhado de vidro no nível superior foi encurtado, o que significa que as partes externas dessas plataformas não são cobertas. E, nas plataformas subterrâneas, foram instalados painéis planos simples no lugar dos tetos abobadados planejados por Von Gerkan.
O arquiteto processou a Deutsche Bahn pelas alterações no seu projeto. O tribunal decidiu a favor de Von Gerkan, determinando que a alteração dos tetos era uma distorção de seu conceito e, portanto, constituía uma violação direta de seus direitos autorais.
Mesmo obrigada a remover os tetos planos e a reconstruir o edifício exatamente de acordo com os planos originais do arquiteto, a Deutsche Bahn acabou chegando a um acordo extrajudicial com Von Gerkan em 2008, evitando uma reconstrução dispendiosa e longos fechamentos de plataformas.
"Mas isso tudo é passado", diz Schütz, já que todas as partes envolvidas na disputa voltaram a se entender. Ele observa que o processo judicial serviu, essencialmente, para demonstrar a profunda identificação pessoal de Von Gerkan e seu escritório com o edifício que haviam projetado.
Ainda assim, o caso estabeleceu um precedente importante no direito arquitetônico alemão ao determinar que edifícios não são meros projetos de construção, mas obras de arte protegidas por lei.
Um monumento às margens do Spree
A Estação Central de Berlim entrou oficialmente em operação em 28 de maio de 2006, dois dias após a inauguração e a cerimônia de abertura com o discurso de Merkel e os fogos de artifício às margens do rio Spree.
Hoje, aproximadamente 1.800 trens e mais de 300 mil passageiros circulam diariamente pela estação, o que a torna um dos centros de transporte mais movimentados da Alemanha.
A estação abriga mais de 300 lojas e restaurantes, o que leva alguns críticos a argumentarem que seu design se assemelha mais a um shopping center de vários andares.
Mas quem se interessar pela história do gigante de vidro e aço às margens do rio Spree logo perceberá que ele também é um monumento à Reunificação, e ainda mais impressionante à noite. com as suas superfícies iluminadas, a obra é um dos marcos modernos mais icônicos de Berlim.
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