Setembro em flor: perspectivas para o tratamento do câncer de endométrio
No mês da conscientização dos tumores ginecológicos no Brasil, pesquisadores do INCA alertam que estima-se 9.650 novos casos por ano no país até 2028
Pesquisadores do INCA revelaram que a expressão anormal da proteína p53 está ligada a maior risco de recorrência no câncer de endométrio, mesmo em tumores restritos e sem invasão do miométrio. Analisando 15 anos de dados pelo SUS, o estudo inédito no Brasil mostrou que todas as recidivas ocorreram em pacientes com alteração nessa proteína. O teste imuno-histoquímico surge como ferramenta acessível para guiar tratamentos individualizados, prevenindo condutas insuficientes ou excessivas na rede pública.
Há 30 anos, poucas mulheres sabiam pronunciar a palavra endometriose. Dores menstruais incapacitantes eram tratadas como parte natural da vida, e muitas pacientes percorriam uma longa jornada até receber um diagnóstico. Nas últimas décadas, campanhas de conscientização e relatos públicos ajudaram a transformar esse cenário.
Hoje, entretanto, outra doença relacionada à saúde uterina continua distante do conhecimento de grande parte da população: o câncer de endométrio. Seu principal sinal de alerta — o sangramento uterino anormal, especialmente após a menopausa — ainda é frequentemente minimizado ou interpretado como uma alteração natural do corpo.
A história da endometriose ensina que o silêncio em torno de uma doença não significa que ela seja rara. Significa, muitas vezes, que seus sintomas ainda não foram reconhecidos como informação de saúde. E comunicar é sempre o melhor caminho.
Conscientização dos tumores ginecológicos
Setembro em flor é o mês da conscientização dos tumores ginecológicos no Brasil e para marcar a data, nós, pesquisadores do Instituto Nacional de Câncer (INCA) resolvemos divulgar um artigo recém publicado por nosso grupo sobre o câncer de endométrio no periódico internacional Pathology and Oncology Research.
O câncer de endométrio é um tumor que se origina no revestimento interno do útero e representa o tipo mais comum de câncer do corpo uterino.
De acordo com o INCA, a doença registra milhares de novos casos anualmente no Brasil, sendo mais frequente em mulheres após a menopausa. Estimativa de câncer de endometrio no Brasil para 2026 a 2028 apontam 9.650 novos casos para cada ano do triênio.
Em nosso estudo, fizemos uma retrospectiva que avaliou 15 anos de atendimentos de pacientes tratadas contra o câncer de endométrio na instituição. Revisamos prontuários e amostras tumorais de pacientes já tratadas, entre 2010 e 2025.
Selecionamos dados de 59 pacientes com tumores de alto grau. Foram avaliados casos de carcinoma endometrioide grau 3, carcinoma seroso, carcinoma de células claras, carcinosarcoma e tumores mistos ou indiferenciados.
Todos os tumores estavam restritos ao endométrio ou a um pólipo, sem invasão do miométrio. Fizemos um cruzamento com a expressão da proteína p53, considerada a guardiã do nosso DNA. Este trabalho inclui técnica de imuno-histoquímica, disponível em muitos laboratórios de patologia. Posteriormente, os resultados da p53 foram relacionados com recorrência e sobrevida.
Entre os principais resultados do nosso estudo, identificamos que 78% dos tumores apresentavam expressão anormal de p53. Entre as 56 pacientes com doença classificada como estágio mais agressivo, nove apresentaram recorrência.
Todas as nove recorrências ocorreram em pacientes com p53 anormal. Nos tumores com p53 anormal, a taxa estimada de recorrência em cinco anos foi de aproximadamente 23%. Mais da metade das recorrências ocorreu fora da pelve, no abdome ou em órgãos distantes.
Nenhuma paciente com p53 do tipo selvagem, ou seja, sem expressão anormal, apresentou recorrência em cinco anos. Esses resultados sugerem que a ausência de invasão do músculo uterino não significa, necessariamente, que o tumor terá um comportamento favorável.
Tratamento individualizado
Acreditamos que nosso estudo pode contribuir para tornar o tratamento mais individualizado. Atualmente, pacientes com tumores aparentemente semelhantes podem receber tratamentos muito diferentes.
A análise da p53 pode ajudar na separação dois grupos para indicações terapêuticas.
Um deles direcionado para as mulheres com p53 anormal. Estas parecem apresentar maior risco de recorrência e podem necessitar de cirurgias mais extensas, acompanhamento mais cuidadoso e eventual tratamento adicional
E outro grupo que é de mulheres com p53 do tipo selvagem. Estas apresentaram excelente evolução. E, talvez, possam ser poupadas de tratamentos desnecessários.
É importante reconhecer que já existiam estudos sobre tumores serosos, de células claras e carcinosarcomas sem invasão do miométrio. Alguns mostraram comportamento agressivo, enquanto outros encontraram resultados favoráveis.
Ou seja, nosso estudo não é o primeiro no mundo, associando a p53 com câncer do endométrio, mas é o primeiro em uma população brasileira que recebeu assistência pública em um período de 15 anos. E isso é importante para a literatura internacional. Além disso, outro dado relevante que descrevemos foi o uso de uma técnica relativamente simples e acessível, como a imuno-histoquímica para pesquisa da p53. A inclusão de diferentes tipos de câncer de endométrio de alto grau, e não apenas do carcinoma seroso também pode ser considerado um diferencial.
Riscos e como preveni-los
O risco de desenvolvimento de câncer do corpo do útero aumenta em mulheres com mais de 50 anos. Entre outros fatores também podemos citar, a predisposição genética, sobrepeso e obesidade, falta de atividade física, diabetes mellitus, dietas com elevada carga glicêmica, incluindo a quantidade e a qualidade dos carboidratos.
Vale destacar que, uma alimentação rica em produtos processados e ultraprocessados, também aumenta o risco para esse câncer.
Outros fatores são crescimento endometrial. Além da falta de ovulação crônica, uso de radiação anterior para tratamento de tumores de ovário, uso de estrogênio para reposição hormonal na menopausa, entre outros.
E entre as dicas para prevenção estão: a prática de atividades físicas, a manutenção do peso corporal adequado e a gravidez, como principais fatores de proteção.
Diagnóstico e tratamento
Quanto mais cedo, melhor. Para diagnosticar o câncer de endométrio, são realizados exames que permitem visualizar o útero e seu interior, como ultrassonografia transvaginal, histeroscopia e biópsia do endométrio com amostra retirada para análise microscópica, feita por curetagem uterina ou videohisteroscopia. Além é claro de história clínica e exame físico.
Como em outros casos de câncer, os tratamentos envolvem cirurgia, radioterapia e quimioterapia.
A maioria das pacientes diagnosticada em estágio inicial é submetida à retirada do útero, trompas e ovários. Dependendo do caso, ainda poderá ser necessária a avaliação dos linfonodos próximos ao útero.
O tratamento com radioterapia poderá ser externo ou interno, conhecido por braquiterapia, e indicado em alguns casos após a cirurgia. E a quimioterapia normalmente é indicada para os casos mais avançados.
E depois de todas as etapas vencidas, a paciente ainda deverá ter acompanhamento com consultas periódicas.
Potencial para mulheres
O principal benefício do nosso estudo para as mulheres é poder oferecer, daqui para frente, um tratamento mais preciso. Evitar tanto uma abordagem terapêutica insuficiente quanto o excesso de tratamento.
Uma paciente com tumor restrito a um pólipo, mas com p53 anormal, pode não ser considerada automaticamente de baixo risco. Ela poderá receber uma avaliação cirúrgica mais completa e acompanhamento mais rigoroso.
Além disso, como algumas recidivas ocorrem no abdome ou em órgãos distantes, pacientes de maior risco podem precisar de estratégias de acompanhamento que não se limitem à região pélvica.
Acreditamos que os resultados deste estudo podem contribuir em uma seleção mais precisa de pacientes e, com isso, permitir que os recursos públicos sejam direcionados para aquelas com maior probabilidade de benefício.
Esta pesquisa é realizada pela Divisão de Pesquisa Clínica e Desenvolvimento Tecnológico do Instituto Nacional de Câncer e apoiada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Genômica do Câncer e Medicina de Precisão para o SUS.
Andreia Cristina de Melo recebe financiamento da FAPERJ e do CNPq
Eduardo Paulino não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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