Se o Brasil é o país do futebol, a África é o continente da bola
Não é de hoje que futebol e outros esportes brilham graças ao talento de atletas imigrantes e descendentes africanos. Nesta Copa, essa presença se consolida na performance histórica de seus países
A constatação não é nova — já foi feita de várias formas, por muita gente. Mas se há algo que esta Copa do Mundo de 2026 ajudou a evidenciar, entre tantas outras coisas boas e más, é que, se o Brasil é o país do futebol, a África é o continente. Bastou ver, no último dia 3 de julho, uma minúscula Cabo Verde levar a Argentina de Lionel Messi à prorrogação e à beira da eliminação para pressentir o que está em jogo.
A presença de jogadores africanos ou de origem africana neste Mundial é massiva e substantiva. Retire-se a herança africana do futebol atual e vai-se embora boa parte do estado da arte desse esporte.
No caso brasileiro, o dado é eloquente: desde a Copa de 1994, jogadores negros são maioria entre os convocados da seleção. O elenco de 2010 — com 16 dos 23 atletas negros, quase 70% do time — foi o mais africano da história da Canarinho. Sem essa ancestralidade, o próprio futebol brasileiro seria irreconhecível.
O mesmo vale para as potências europeias. Sem seus jogadores de origem africana, algumas favoritas virariam anãs futebolísticas. A França provavelmente não seria bicampeã do mundo. A Inglaterra talvez tivesse muito menos chances de chegar sempre ao torneio. Seleções como Alemanha, Suíça e Áustria são hoje irreconhecíveis se comparadas ao padrão de cinquenta anos atrás.
Participação direta cresce Copa a Copa
Quem imaginaria que a Suíça, apoiada em talento de origem africana, eliminaria a Argélia por 2 a 0? Os dois gols suíços saíram justamente dos pés de Breel Embolo, nascido em Yaoundé, nos Camarões, e de Dan Ndoye, filho de senegalês.
Copa a Copa, a participação africana direta só tem crescido. Para esta edição, ampliada para 48 seleções, o continente teve direito a um número recorde de representantes na fase eliminatória. No transcorrer do torneio, Marrocos e Egito confirmam-se como times de elite. Argélia e Gana passaram da fase de grupos. Senegal fez uma campanha excelente e dominou a Bélgica por 85 minutos no jogo que fizeram pela segunda fase. Venciam por 2 a 0, levaram o empate em três minutos avassaladores do time europeu, e acabaram eliminados nos acréscimos da prorrogação.
Mas a própria Bélgica, note-se, também se ampara em talento de raízes africanas: a estrela Romelu Lukaku é filho de imigrantes do Congo - ex-colônia belga e mesmo país de onde o meio-campo Dodi Lukebakio também tem raízes. E ainda, o lateral Jérémy Doku é de origem ganense.
A Costa do Marfim, outra boa campanha, caiu diante da Noruega, num 2 a 1 decidido por Haaland — mas não sem antes mostrar futebol de sobra.
E há, por fim, o fenômeno de Cabo Verde: um arquipélago de pouco mais de meio milhão de habitantes, o menor país em território a estrear numa Copa, que passou invicto pela fase de grupos, segurando Espanha e Uruguai, e na noite do dia 3 de julho protagonizou contra a Argentina, atual campeã do mundo, o capítulo mais heroico dessa história africana na Copa. Os Tubarões Azuis do Atlântico levaram o jogo à prorrogação, com direito a gol antológico e definição nos minutos finais.
Davi não bateu Golias, mas se no século 20 a Copa do Mundo era uma disputa majoritariamente entre América Latina e Europa, hoje a África se interpõe no caminho das melhores seleções do planeta, como rivais à altura. O mesmo sangue e a mesma fibra que revigoraram o futebol europeu e que alimentam o futebol latino-americano agora têm sede própria, não são resultado da diáspora, e chegaram para ficar.
Diversidade genética
O talento africano brilha ainda na luta pela artilharia da Copa. Entre os principais goleadores do torneio estão Kylian Mbappé, filho de pai camaronês, e Ousmane Dembélé, de ascendência oeste-africana — sem falar em todos os afro-brasileiros que sustentam a seleção pentacampeã.
Recentemente, num episódio de podcast, o astrofísico Neil deGrasse Tyson lembrou que a África, berço da humanidade, é o continente de maior diversidade genética do planeta — algo cientificamente bem estabelecido, já que é onde a espécie humana viveu por mais tempo. Segundo ele, é ali que se encontram os extremos da variação humana: o mais baixo e o mais alto, o mais lento e o mais veloz, e assim por diante. O Rei do Futebol tinha origem africana. O próximo, muito provavelmente, também terá.
Foram os movimentos migratórios, muitos deles herança de séculos de colonização, que levaram equipes ocidentais aonde estão hoje. O que seriam da França e da Espanha sem suas ex-colônias? Teriam sido campeãs mundiais?
Tudo isso me faz pensar na partilha da África e em sua herança nefasta. O futebol — e outros esportes — só brilham com tamanha intensidade graças ao talento africano. E tudo leva a crer que, não tivesse a África sido vitimada pela violência ocidental, pelos saques, sequestros e pilhagens, talvez já houvesse uma ou mais seleções africanas campeãs do mundo. Mas de um mundo muito diferente deste.
Esta Copa parece lembrar que, enquanto enquanto a África seguir vítima da fome, das epidemias, das guerras e das usurpações, dificilmente evoluiremos como espécie. Talvez só quando a África retomar seus rumos soberanos a humanidade será capaz de exercer seu pleno potencial.
Se o futebol torna esse fenômeno visível, é por conta de seu apelo popular. Mas não é difícil supor que o mesmo talento que ilumina os gramados é o que alimenta laboratórios, conservatórios, escolas e categorias inteiras de trabalhadores e artistas mundo afora.
O paradoxo é cruel: a exuberância africana nos campos é contemporânea da ascensão da extrema-direita no Ocidente e alhures — e, com ela, do recrudescimento do racismo, da xenofobia e do ódio aos trabalhadores de pele escura em boa parte do planeta. Que esta Copa sirva também para abrir os olhos do mundo para o talento da África. O berço da humanidade e, agora também, o continente do futebol.
Alfredo Suppia não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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