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Redes ligadas ao narcotráfico mexicano levam técnica e produção de drogas para a África

8 out 2026 - 08h01
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Resumo
Cartéis e operadores mexicanos estão transformando a África em um polo de fabricação de drogas sintéticas, transferindo tecnologia e ampliando a produção de metanfetamina em países como Nigéria e África do Sul. A expansão busca novos mercados e menor fiscalização química, ocorrendo por terceirização, especialistas autônomos e alianças locais, sem instalar filiais formais. A rota coexiste com o tráfico de cocaína mantido por redes sul-americanas e desafia a cooperação policial global.

Cartéis mexicanos e redes sul-americanas estão expandindo operações em países como África do Sul, Nigéria, Quênia, Moçambique e Guiné Equatorial, com produção local de drogas sintéticas e cooperação com grupos africanos.Durante anos, a África foi vista sobretudo como escala numa das grandes rotas mundiais da cocaína: carregamentos vindos da América Latina cruzavam o Atlântico e seguiam rumo à Europa. Essa rota continua ativa, mas outra dinâmica está se consolidando: redes criminosas mexicanas estão levando para a África conhecimento técnico, operadores e, em alguns casos, a produção de drogas sintéticas.

A África está ganhando terreno na produção e distribuição de metanfetamina
A África está ganhando terreno na produção e distribuição de metanfetamina
Foto: DW / Deutsche Welle

O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês) constatou uma rápida expansão do tráfico de metanfetamina na África. Dados do órgão mostram que, entre 2021 e 2024, Nigéria e África do Sul destacaram-se como os principais pontos africanos de saída de carregamentos dessa droga detectados pelas autoridades.

Lucía Bird, diretora do Observatório de Economias Ilícitas da África Ocidental da Global Initiative Against Transnational Organized Crime, ressalva que o papel crescente de operadores mexicanos não é o único fator por trás da evolução dos mercados de drogas na África. "As redes mexicanas são um dos vários atores criminosos estrangeiros que atualmente operam nos mercados de drogas da África Ocidental. Mas as redes brasileiras e colombianas também são atores-chave no fornecimento de cocaína", afirma.

De país de trânsito a local de produção

A mudança é particularmente visível no mercado de metanfetamina. Segundo Bird, a Nigéria tornou-se um centro de fabricação no início da década de 2010, e mexicanos participam há anos da transferência de técnicas de produção.

A metanfetamina já era produzida na África desde os anos 1990, mas os primeiros laboratórios clandestinos eram pequenos e atendiam principalmente à demanda local. "Nos últimos dez anos, a síntese de metanfetamina na África tornou-se mais industrializada e eficiente, com maiores volumes de produção e qualidade muito superior", afirma Bird.

Atualmente, há registro de produção em várias partes da África Subsaariana, destinada tanto a mercados africanos quanto ao sul da Ásia, à Austrália e à Nova Zelândia.

Mas a presença de mexicanos num laboratório africano não significa necessariamente que o Cartel de Sinaloa ou o Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG) tenham se instalado no continente.

"Cozinheiros" que exportam conhecimento

A pesquisadora Victoria Dittmar, da InSight Crime e baseada no México, distingue entre dois modelos.

No primeiro, produtores independentes, conhecidos como "cozinheiros", vendem seus conhecimentos para fabricar metanfetamina ou outras drogas. Eles podem trabalhar para diferentes organizações, inclusive rivais. "Funciona muito pela lógica de quem paga melhor: eles vão trabalhar para quem oferecer as melhores condições."

Por isso, Dittmar recomenda cautela diante de algumas atribuições feitas por autoridades. "Se for apenas uma pessoa oriunda de Sinaloa, ela não necessariamente faz parte do Cartel de Sinaloa. Pode ser alguém independente." Segundo ela, as autoridades às vezes divulgam poucas informações sobre como estabeleceram essa ligação.

No entanto, investigações recentes da InSight Crime também apontam para pessoas mais próximas de organizações mexicanas, especialmente da facção dos Mayos, do Cartel de Sinaloa, que estariam estabelecendo diretamente operações de produção na Europa e na África por meio de alianças com grupos locais. "Eles não podem simplesmente chegar sozinhos e se instalar", ressalta Dittmar.

Além de África do Sul, Nigéria, Quênia e Moçambique, Dittmar menciona a Guiné Equatorial. Os países africanos podem servir para a produção voltada aos mercados locais, mas também como "trampolim para o mercado europeu e para o mercado da Oceania".

Alianças em vez de filiais

Frédéric Massé, codiretor da Rede de Monitoramento e Análise do Crime Organizado na América Latina (Coral), considera que "o modelo dominante não é tanto a implementação de estruturas próprias, mas a aliança e a terceirização". Fora da América, os grupos mexicanos recorrem principalmente a intermediários, facilitadores logísticos e organizações locais, afirma Massé.

Por isso, essa "expansão" tem nuances. "A presença confirmada costuma limitar-se a operadores isolados, cidadãos mexicanos que fazem escala em países africanos e grupos locais 'franqueados'; não se trata de cartéis que operam como organizações corporativas com controle territorial no exterior", afirma Massé.

Dittmar concorda quanto à importância dos parceiros locais. Os contatos podem ser estabelecidos tanto por emissários enviados por organizações mexicanas quanto por intermediários independentes. Ainda existem poucos processos judiciais capazes de reconstruir em detalhes como essas relações funcionam.

Por que produzir na África?

A expansão também obedece a uma lógica econômica. Segundo Dittmar, o mercado americano de metanfetamina está saturado há anos, e os preços caíram. Ao mesmo tempo, a pressão sobre a produção no México e sobre as cadeias de insumos químicos vindos da Ásia aumenta os incentivos para buscar outros locais.

"O fluxo para, por exemplo, a África não está sujeito ao mesmo nível de escrutínio que as cadeias de fornecimento da China para o México", explica.

Isso não significa que a rota tradicional da cocaína tenha sido substituída. Para Dittmar, trata-se de dois negócios distintos. A especialista explica que as redes de cocaína entre América Latina, África e Europa são dominadas principalmente por grupos sul-americanos, entre eles colombianos e brasileiros, enquanto o papel mexicano é mais limitado. A expansão das drogas sintéticas responde a outra cadeia de suprimentos e envolve outros operadores.

Criminosos são mais rápidos

O que ainda não está claro é até onde o fenômeno chegará. Dittmar afirma que essas conexões existem há cerca de uma década, mas observa uma evolução de intercâmbios pontuais de conhecimento para tentativas de estabelecer operações mais estáveis.

"Parece haver uma tendência de maior estabilidade. Mas ainda é muito cedo para dizer isso com certeza."

O desafio para as autoridades dos países envolvidos é acompanhar redes criminosas capazes de movimentar dinheiro, insumos químicos e drogas entre países que têm condições muito diferentes de combater o crime organizado. O negócio avança mais rápido do que a cooperação formal entre as autoridades: enquanto os mecanismos estatais dependem de acordos e procedimentos entre países, as organizações criminosas "se reorganizam com fluidez e sem fronteiras".

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