Crise no Líbano deixa 82% das famílias sem condições de suprir necessidades básicas
Desde o início da crise econômica e financeira, em 2019, uma das mais graves do mundo em um século e meio, segundo o Banco Mundial, o Líbano não teve trégua. O país acumula tragédias, como a explosão do porto de Beirute, em agosto de 2020, instabilidade política, conflitos sociais e guerras. Dados coletados e analisados nos últimos meses por três agências das Nações Unidas mostram que a situação das famílias se deteriorou em todos os níveis, sobretudo desde a última guerra, iniciada em 2 de março.
Impulsionada pela inflação, a crise no Líbano impede 82% das famílias de suprirem suas necessidades básicas, segundo a Unicef. A extrema vulnerabilidade levou à venda de bens de trabalho e deixou 800 mil pessoas carentes de auxílio alimentar. As crianças são as mais afetadas, sofrendo com fome, abandono escolar e avanço do trabalho infantil. Enquanto isso, as ações do governo, como o programa de transferência de renda Aman, mostram-se insuficientes diante da contínua disparada dos preços.
Paul Khalifeh, correspondente da RFI em Beirute
Os dados são preocupantes. Eles mostram que a pobreza no Líbano se espalhou amplamente para novas categorias sociais devido à queda do poder de compra e ao aumento dos preços da energia, levando a uma inflação que atingiu mais de 16% em agosto, na comparação anual. Segundo um relatório do Unicef intitulado Um pesadelo sem fim, publicado em setembro, 82% dos chefes de família entrevistados disseram que estava mais difícil atender às necessidades básicas do que três meses antes.
Um quarto delas afirma ter vendido bens domésticos para enfrentar essa situação, e um quinto, se desfez de outros bens para produzir ou gerar renda. Quando uma família começa a financiar sua sobrevivência vendendo parte das ferramentas que utiliza para ganhar dinheiro, isso é um sinal revelador da profundidade da crise.
Os dados de 2026 indicam que 800 mil libaneses, ou 14% da população do país, precisam atualmente de apoio para cobrir suas necessidades alimentares, de acordo com os critérios da Organização Mundial da Saúde. As crianças são as mais vulneráveis. Algumas passam fome e não têm acesso a serviços de saúde nem à educação. Vinte e dois por cento das famílias entrevistadas afirmaram que seus filhos foram dormir com fome nas duas semanas anteriores à pesquisa do Unicef, realizada em julho de 2026.
Crianças obrigadas a trabalhar
Um terço das famílias afirmou que seus filhos não puderam receber os cuidados de saúde de que precisavam porque não tinham condições de pagar. Quatorze por cento dos lares disseram que pelo menos uma de suas crianças estava trabalhando, mais que o dobro da proporção registrada no início de 2025.
Na área da educação, 17% das famílias entrevistadas afirmaram ter sido obrigadas a interromper a escolarização dos filhos.
Programa Aman é superado pela inflação
A resposta do governo e das organizações internacionais está muito aquém das necessidades, devido à falta de recursos e à ausência de novas iniciativas. O atual governo herdou o programa de proteção social chamado Aman, administrado pelo Ministério dos Assuntos Sociais, com apoio técnico do Banco Mundial e do Programa Mundial de Alimentos.
O núcleo do programa, criado após o colapso econômico de 2019, é formado por transferências mensais de dinheiro destinadas às famílias libanesas pobres e vulneráveis.
A transferência média é de cerca de US$ 105 por família, por mês. Mais de 100 mil famílias já foram beneficiadas. O governo espera elevar para 200 mil o número de famílias atendidas pelo programa em 2027. Mas, com a disparada dos preços da gasolina, do óleo combustível e dos alimentos, o valor concedido é agora amplamente insuficiente para cobrir as necessidades mais básicas de uma família.
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