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Quem conduz a infância?

Limites, tempo e a "puberdade do dente mole"

8 set 2026 - 17h28
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Resumo
Entre os 5 e 7 anos, a criança passa por uma fase de busca por autonomia e testes de limites. O texto ressalta que educar com respeito não significa evitar frustrações nem sobrecarregar os pequenos com decisões precoces. A verdadeira autonomia é construída com paciência e tempo: cabe aos adultos acolher os sentimentos, mas sustentar com firmeza e afeto os contornos necessários, preparando a criança para assumir o controle da própria vida gradualmente.

Há muitos anos, observando crianças por volta dos seis anos, comecei a dizer que essa fase era uma espécie de "adolescência da primeira infância". Quem convive de perto com essa idade sabe do que estou falando. A criança começa a questionar mais, argumentar, negociar. Quer decidir, experimentar, fazer do seu jeito. Muitas vezes conhece perfeitamente o combinado e, ainda assim, faz justamente o contrário.

Quem conduz a infância?
Quem conduz a infância?
Foto: Canva / Perfil Brasil

E então vem o dente mole.

Gosto da expressão "puberdade do dente mole" porque ela traduz de um jeito simples algo que vejo há muitos anos no chão da escola: entre os 5 e 7 anos há uma mudança importante acontecendo. O pensamento se amplia, as relações ganham outra dimensão, a criança começa a se perceber de uma maneira diferente e a autonomia passa a ser uma questão importante para ela. Ela já sabe muita coisa. Sabe o que pode e o que não pode, reconhece regras, entende boa parte do que esperamos dela. O que ainda não consegue é sustentar tudo isso o tempo todo. E essa diferença é enorme.

Saber o combinado não significa ainda ter maturidade para cumpri-lo sempre. Daniel J. Siegel nos ajuda a compreender como emoção, pensamento e autorregulação vão se integrando ao longo do desenvolvimento. Daniel Becker também fala muito sobre a importância de olharmos para o comportamento da criança considerando a etapa que ela está vivendo, antes de simplesmente classificá-lo como um problema.

Muito antes disso, a pedagogia dos setênios, inspirada por Rudolf Steiner, já apontava para uma importante transformação por volta dos sete anos. São olhares diferentes, de lugares diferentes. Mas, para quem está todos os dias com crianças, algumas coisas fazem muito sentido.

Infância

Há uma travessia acontecendo. Até onde eu dou conta de ir?

Acho que essa é uma pergunta muito presente nessa idade, mesmo que a criança nunca a faça em voz alta. Até onde eu consigo ir? O que acontece se eu disser não? E se eu insistir? E se eu fizer mesmo sabendo que não deveria?

Não vejo esse movimento como algo em que seja necessário encontrar culpados. Nem a família, nem a escola, muito menos a criança.

Vejo uma criança experimentando seus próprios recursos e tentando descobrir até onde pode ir. E é justamente aí que entra o adulto. A criança precisa ser escutada, respeitada, acolhida. Precisa poder dizer que está brava, que não gostou, que queria outra coisa. Mas isso não significa que o adulto precise mudar uma decisão porque a criança se frustrou com ela. Essa talvez seja uma das questões que mais me inquietam hoje.

Em nome de uma infância mais respeitosa — avanço que considero fundamental — às vezes temos medo de ocupar o lugar de adulto. E criança precisa de adulto. De alguém que escute e considere o que ela sente, mas que também tenha segurança para dizer: "Eu entendo que você não gostou, mas isso precisa ser assim."

Sem gritar. Sem humilhar. Sem ameaçar.

E sem culpa.

Autonomia não é soltar o leme

Talvez, por conviver também com a vela, eu pense muito na educação a partir dela. No barco, aprendemos rapidamente que não controlamos o vento. Podemos sentir de onde ele vem, observar sua intensidade, ajustar a vela, mudar nossa posição e tomar decisões. O vento, não. Ele não nos pertence. Com criança é parecido.

Não controlamos seus desejos, sua raiva, sua frustração, seus impulsos. Nem deveríamos querer controlar. Nosso trabalho é ajudá-la a entender o que fazer com tudo isso. E ensinar alguém a velejar é muito diferente de simplesmente colocar o leme em sua mão. Antes de assumir um barco, é preciso conhecê-lo. Aprender a perceber o vento, entender o movimento da água, descobrir o que acontece quando mexemos na vela ou mudamos nosso peso de lugar.

Há uma coisa muito concreta na vela: para o barco não virar, alguns limites precisam ser respeitados. Não é uma questão de autoritarismo. É uma questão de conhecer as forças que estão atuando ali e saber lidar com elas. Com a infância não é tão diferente. Queremos crianças autônomas, claro. Eu quero profundamente que uma criança aprenda a fazer escolhas, defender ideias, dizer não, questionar e confiar na própria capacidade. Mas autonomia precisa ser construída.

Não entregamos todas as decisões de uma vez para uma criança simplesmente porque desejamos que ela seja autônoma. Vamos dando espaço conforme ela consegue ocupá-lo. Em algumas situações, ela decide. Em outras, decidimos juntos. E há momentos em que a decisão ainda precisa ser nossa. Isso também é cuidado.

Limite e respeito não são opostos

Gosto muito da ideia de Jane Nelsen, na Disciplina Positiva, de gentileza e firmeza caminharem juntas.

Tenho pensado bastante nisso porque talvez tenhamos confundido, em algum momento, educação respeitosa com ausência de frustração.

Criança pode se frustrar.

Pode ouvir não.

Pode não gostar de uma decisão nossa.

Pode ficar brava conosco.

Nada disso significa que o vínculo foi rompido.

Respeitar uma criança não é satisfazer todos os seus desejos. Ouvi-la também não significa colocar sobre ela decisões para as quais ainda não tem recursos. Às vezes, inclusive, decidir pela criança é uma forma de protegê-la do peso de uma escolha que ainda não deveria ser dela. Autonomia não começa quando entregamos o leme. Começa muito antes, quando permitimos que a criança participe da navegação.

O que o chão da escola me ensinou

Depois de tantos anos convivendo diariamente com crianças, famílias e educadores, algumas coisas deixaram de ser apenas teoria para mim. Vieram da experiência. De observar. Tentar. Errar. Voltar. Conversar com famílias. Acompanhar crianças crescendo e, muitas vezes, reencontrá-las anos depois. Por isso vou fazer uma afirmação que pode parecer difícil, mas que traduz aquilo em que acredito: Só é emocionalmente saudável quem teve limites bem construídos por adultos presentes e dispostos a sustentá-los.

Não estou falando de rigidez. Muito menos de medo. Estou falando de contorno. E contorno leva tempo para ser construído. Um dia é tijolinho. Outro dia é argamassa. Tem dia em que achamos que avançamos muito. No seguinte, precisamos repetir pela décima vez aquilo que tínhamos certeza de que a criança já havia entendido. Faz parte. No chão da escola aprendi que educar é repetir sem desistir.

A criança não incorpora um limite porque conversamos uma vez sobre ele. Ela vai construindo isso nas pequenas experiências de todos os dias.

Primeiro, alguém sustenta por ela. Depois, sustenta com ela. Até que um dia ela consegue sustentar sozinha. E isso demora. Talvez uma das maiores dificuldades dos adultos seja justamente aceitar esse tempo.

Crescer leva tempo

Vivemos com muita pressa. Queremos que a criança compreenda rápido, amadureça rápido, aprenda a se regular rápido. Explicamos alguma coisa e esperamos que, porque ela entendeu, consiga imediatamente agir de acordo com aquilo. Mas infância não funciona assim. Quando ensinamos uma criança a velejar, também não colocamos o leme em suas mãos no primeiro dia e dizemos: "Agora escolha seu caminho."

Ela começa junto.

Observa.

Experimenta um pouco.

Erra uma manobra.

Tenta outra vez.

Em algum momento segura o leme com nossas mãos por perto. Depois já não precisa delas. Até que chega o dia em que toma uma decisão sozinha. Para mim, educar tem muito disso. Não podemos escolher os ventos que nossos filhos e alunos encontrarão pela vida. E ainda bem. Mas, enquanto somos os adultos no barco, podemos ajudá-los a aprender a ler esses ventos, entender seus próprios limites e perceber que toda escolha produz algum movimento.

E podemos, sobretudo, não entregar o leme antes da hora. Não porque duvidamos da capacidade da criança. Justamente porque acreditamos nela o suficiente para respeitar o tempo necessário para que essa capacidade seja construída. Um dia é tijolinho. Outro, argamassa. Um dia nossas mãos ainda estão sobre o leme.

Até que, quase sem percebermos, já não precisam estar. E a criança segue. Com vento próprio, escolhas próprias e recursos para não se perder de si mesma.

* Beatriz Martins Perpetuo é educadora, coordenadora pedagógica e orientadora parental, com mais de 30 anos de experiência na área e sólida trajetória no ensino bilíngue. Apaixonada pela infância, pela formação de educadores e pelo diálogo com as famílias, acredita em práticas que ampliam horizontes e transformam experiências em aprendizagem.

Perfil Brasil
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