Pesquisas apontam cenário incerto na eleição, e cientistas políticos veem impacto de novos ‘escândalos’
Apesar da liderança de Lula e Flávio nos levantamentos, cientistas políticos veem eleitorado ainda indefinido e espaço para mudanças
Apesar de três pesquisas divulgadas nesta semana apontarem Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) à frente na corrida presidencial, o cenário para a eleição de 2026 ainda é incerto e pode sofrer mudanças nas próximas semanas. A avaliação é do cientista político Marco Antônio Teixeira, coordenador do Mestrado e Doutorado em Gestão e Políticas Públicas da FGV EAESP, e da cientista política Adriane Buarque, coordenadora do Esfera Lab, Laboratório de Comunicação Política da ESPM.
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Para os especialistas, a intensificação da campanha, com debates, sabatinas, redes sociais e o início do horário eleitoral gratuito, começa a provocar oscilações nas intenções de voto, mas ainda é cedo para estabelecer relações de causa e efeito ou prever como esses movimentos vão se consolidar.
“Na realidade, as pesquisas já refletem o movimento desde as convenções, ou seja, a campanha eleitoral começou antes do horário eleitoral de rádio e TV, do horário eleitoral gratuito, mas foi impulsionada a partir de agora. Então, essas oscilações já representam esse momento”, afirmou Teixeira.
Os três levantamentos divulgados nesta semana mostram Lula numericamente à frente de Flávio no primeiro turno. A vantagem, porém, diminui quando os dois aparecem em uma eventual segunda etapa da disputa, registrando empate técnico. Ao mesmo tempo, Augusto Cury (Avante) vem registrando crescimento e se consolidando em terceiro lugar na disputa presidencial.
Lula lidera, mas disputa pelo segundo turno é apertada
Para Teixeira, embora Lula apareça na frente no primeiro turno, a proximidade entre os dois principais candidatos em uma eventual segunda etapa mostra que a disputa permanece aberta. “Lula está à frente no primeiro turno e em alguns institutos aparece numericamente empatado com o Flávio. E por que isso? Porque a rejeição ao petismo ainda é grande, apesar da rejeição ao Flávio também ser do mesmo tamanho”, afirmou.
Nesse cenário, os eleitores que ainda não definiram o voto podem ter papel decisivo. “O que vai decidir aí são os chamados independentes. Então, qualquer 1% vai fazer com que a balança penda para um lado ou penda por outro”, disse.
Adriane também considera que a diferença estreita entre Lula e Flávio no segundo turno revela uma disputa que ainda pode mudar conforme os candidatos avancem na campanha. “A última pesquisa da Quaest mostrou basicamente um empate técnico. A gente vê que está bem apertado para os dois no segundo turno. Isso revela um quase empate no segundo turno, vai ser uma disputa bem acirrada.”
Cury cresce e abre espaço para terceira via
Um dos principais movimentos dos levantamentos recentes é o crescimento de Augusto Cury. O candidato do Avante passou de índices próximos de 1% ou 2% para a faixa de 10% a 11%, dependendo do instituto. Para Teixeira, a alta está relacionada à maior exposição do candidato nas redes sociais e à participação em sabatinas. “A subida de Cury é fruto da intensificação de trabalho nas redes sociais e também do aparecimento dele, sobretudo nas sabatinas”, disse.
Além da exposição, Teixeira avalia que Cury encontrou um espaço específico no eleitorado ao tentar se apresentar como uma alternativa à polarização entre petistas e bolsonaristas.
“Não podemos esquecer que o Cury tem um discurso muito estratégico para ocupar exatamente essa faixa do conflito entre o bolsonarismo e o petismo. Então, ele diz que não quer eliminar ninguém, ele quer incorporar. Ele diz que é uma liderança que tem a cabeça de direita e o coração de esquerda”, afirmou. “Então, ele se coloca para os eleitores como alguém que quer superar esse tipo de disputa política que hoje já está fatigando a sociedade brasileira”, acrescentou.
Para Adriane, o crescimento de Cury também pode estar relacionado à busca por uma alternativa entre os eleitores que ainda não escolheram um candidato. Ela ressalta, porém, que os números não permitem confirmar a origem dos votos.
A cientista política também chama atenção para o comportamento do eleitor jovem, que, na avaliação dela, estaria menos vinculado à polarização tradicional. “Eu vejo que o eleitorado jovem está tentando sair da bolha e buscar outras informações também."
Segundo Adriane, o aumento da procura por Cury nas redes sociais e no Google indica que há interesse crescente por um candidato ainda pouco conhecido de parte do eleitorado. Para ela, esse movimento precisa ser acompanhado pelas próximas rodadas de pesquisas para verificar se o crescimento se consolida.
Avanço de Cury pode afetar Flávio no 1º turno, avaliam
O avanço do candidato do Avante pode representar um problema especialmente para Flávio Bolsonaro, segundo Teixeira. Embora as pesquisas não permitam afirmar de onde vieram os votos conquistados por Cury, o cientista político observa que o candidato do PL é quem mais tem perdido espaço conforme o adversário cresce.
“Muitos podem ser tido como independentes, mas a pesquisa mostra que quem tem perdido mais com isso é o Flávio Bolsonaro”, afirmou. Na avaliação dele, o movimento pode alterar rapidamente a distância entre os dois principais candidatos. "Cada crescimento do Cury de cinco pode ser uma perda de dois, três ou quatro por cento de Flávio Bolsonaro, o que significa que a diferença pode diminuir numa velocidade ainda maior.”
Adriane concorda que Cury pode representar uma ameaça a Flávio no primeiro turno, mas acrescenta uma possibilidade para uma eventual segunda etapa: parte desse eleitorado poderia migrar para o candidato do PL caso ele chegasse ao segundo turno.
“Eu acho mais preocupante para a campanha de Lula. Você pode ter uma retirada da campanha de Flávio, mas quando Flávio vai para segundo turno, esse candidato do Augusto Cury pode migrar para Flávio”, afirmou.
Para a cientista política, Lula e Flávio também enfrentam desgastes provocados por episódios recentes envolvendo o Banco Master e o Supremo Tribunal Federal (STF), o que pode influenciar a parcela ainda indecisa do eleitorado. “Eu acho que os dois têm muitos escândalos políticos envolvidos. Então são questões que podem fazer aquele eleitorado indeciso não migrar e ir para outro, para essa terceira via”, disse.
Campanha e novos fatos podem mudar cenário
Para os especialistas, a disputa deve se intensificar nas próximas semanas. Debates, sabatinas, redes sociais e horário eleitoral gratuito aumentarão a exposição dos candidatos, mas os efeitos ainda são difíceis de mensurar.
“Eles deixarão até o momento final para poder tomar as suas decisões. E aí cada candidato vai ter uma estratégia diferente”, afirmou Teixeira sobre os eleitores indecisos.
Adriane também vê vulnerabilidade nas campanhas de Lula e Flávio diante da possibilidade de novos acontecimentos durante a corrida eleitoral. “Eu acho que não está confortável nem para Lula, nem para Flávio”, disse. Para ela, novos episódios podem alterar o comportamento dos eleitores e abrir espaço para candidaturas alternativas. “A gente está vivendo aí um momento de fragilidade das campanhas. Outros escândalos podem ser gerados durante a campanha. E sabemos que esses escândalos acabam impactando.”
Teixeira também cita a crise envolvendo o STF como exemplo de como acontecimentos recentes podem modificar rapidamente o cenário eleitoral. “Temos agora às voltas com o problema do Moraes. Quem tirasse o retrato do problema de Moraes no primeiro dia poderia imaginar que Lula seria atingido. Mas o problema chegou no André Mendonça e até mesmo no Jair Bolsonaro e no Tarcísio, com as supostas doações.”
Para o cientista político, a capacidade de cada candidato de reagir aos acontecimentos será determinante para a disputa. “A habilidade e a forma como vai lidar com os fatos que surgem daqui para frente talvez sejam o principal instrumento para promover a conquista de votos e tentar diminuir a rejeição.”
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