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Crise no STF pode ampliar abstenção e beneficiar candidato fora da polarização, avaliam especialistas

Para especialistas, desgaste do Supremo tende a atingir os dois polos da disputa e pode beneficiar nomes que se apresentam como terceira via

4 set 2026 - 18h12
(atualizado às 18h23)
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Os ministros do STF André Mendonça e Alexandre de Moraes
Os ministros do STF André Mendonça e Alexandre de Moraes
Foto: Antonio Augusto/STF

A crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) tende a produzir mais desgaste para as instituições e para os candidatos identificados com a polarização política do que ganhos eleitorais diretos para um dos lados, segundo cientistas políticos ouvidos pelo Terra. Para os especialistas, o principal efeito do episódio pode ser o aumento da rejeição ao sistema político, da abstenção e a abertura de espaço para candidatos que tentam se apresentar como uma alternativa à disputa entre lulismo e bolsonarismo.

A avaliação ocorre em meio ao agravamento da crise no STF nesta semana. Relator do caso Banco Master na Corte, o ministro André Mendonça tornou público um relatório da Polícia Federal (PF) que reúne mensagens trocadas entre o também ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro. Em reação, Moraes pediu a abertura de uma investigação sobre a atuação de Mendonça na condução de procedimentos relacionados ao caso. O episódio colocou o STF no centro do debate político às vésperas da eleição de 2026.

Para Lucas Massimo, doutor em Ciência Política e professor da Uninter, o desgaste institucional tende a atingir especialmente o eleitor indeciso, que não se identifica nem com Lula nem com o bolsonarismo. “O eleitor, sobretudo o indeciso, deve encontrar nessa crise um aumento da disposição para ser antigoverno e antissistema. Isso pode aumentar a probabilidade da abstenção.”

Na avaliação de Massimo, o efeito eleitoral mais importante não necessariamente será a transferência de votos de um candidato para outro. O eleitor pode simplesmente se afastar da disputa diante da percepção de que as instituições estão envolvidas em uma crise generalizada.

O professor recorre à expressão histórica “mar de lama” para explicar esse fenômeno. O termo foi utilizado durante a crise política que antecedeu o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954. “Esse sentimento de ‘mar de lama’ induz o eleitor a não votar, notadamente aquele que não é politizado.”

José Paulo Martins Júnior, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), vê esse mesmo cenário. Para ele, o eleitor brasileiro já convive com sucessivos episódios de irregularidades envolvendo diferentes setores da política, o que pode reduzir o impacto eleitoral de um escândalo específico.

“O eleitor acaba ficando meio anestesiado. Então, sim, provavelmente haverá impacto eleitoral, mas talvez seja uma situação em que uma coisa anule a outra. No final, o resultado pode ser um jogo de soma zero, com maior desgaste das instituições.”

Segundo Martins Júnior, esse ambiente pode favorecer o surgimento de uma figura política sem vínculo direto com os grupos tradicionais. A possibilidade, diz ele, seria especialmente relevante para candidatos que consigam se apresentar como “outsiders”, ou seja, como alternativas à política tradicional.

Augusto Cury pode ser considerado como alternativa ao eleitor

É nesse espaço que os dois especialistas identificam uma oportunidade para candidatos que tentam escapar da polarização. Massimo cita nominalmente Augusto Cury, candidato do Avante à Presidência, como o nome com maior possibilidade de capturar esse sentimento neste momento.

“Pode ser que o candidato que tenta se apresentar como uma alternativa, uma terceira via, se beneficie do sentimento antissistema. Nesse momento, penso que quem teria mais condições de ocupar esse espaço é o Augusto Cury.”

Martins Júnior também vê Cury como um possível beneficiário do cenário. Para ele, o escritor reúne uma característica importante para um eleitor insatisfeito: a percepção de que está chegando à disputa de fora da política tradicional.

“É uma pessoa que o eleitorado não conhece e está começando a conhecer. Provavelmente está sendo visto como uma alternativa para furar essa polarização, alguém que não tem envolvimento com os esquemas tradicionais, que está vindo de fora. É um outsider", analisa José Paulo Martins Júnior.

O professor ressalta, porém, que a eventual ascensão de Cury ainda enfrenta o peso da polarização entre PT e bolsonarismo. Segundo ele, Lula e Flávio Bolsonaro continuam concentrando a maior parte das intenções de voto, o que dificulta a entrada de um terceiro nome na disputa. “O que a gente observa é uma situação bastante cristalizada entre o PT, de um lado, e o bolsonarismo, do outro. Então, o que temos é uma estabilidade enorme dos índices de intenção de voto.”

Ainda assim, Martins Júnior considera possível que Cury desempenhe um papel relevante caso consiga avançar nas pesquisas. “Pode ser que ele se torne, em um eventual segundo turno, um fiel da balança. Para onde ele pender pode definir a eleição.”

Oposição ganha discurso, mas Flávio também enfrenta desgaste

A crise também deve ser explorada pela oposição durante a campanha eleitoral. Martins Júnior afirma que o discurso contra o STF, que já vinha sendo utilizado por setores oposicionistas, tende a ganhar força com os novos episódios.

“Esses episódios vão ser altamente explorados no horário eleitoral. A oposição já vinha planejando eleger senadores para formar uma maioria no Senado que possibilitasse a abertura de processos de impeachment contra alguns ministros do Supremo. Esse discurso provavelmente vai ganhar ainda mais força.”

O efeito, porém, não é necessariamente positivo para Flávio Bolsonaro. Embora o desgaste do STF possa reforçar uma das principais bandeiras da oposição, o candidato também aparece politicamente associado ao caso Banco Master, o que, na avaliação dos especialistas, limita os ganhos que poderia obter com a crise.

Massimo diferencia os efeitos sobre Flávio e Lula. Para o professor, o desgaste do candidato do PL é mais diretamente relacionado à sua imagem pessoal, enquanto o impacto sobre o presidente está ligado à confiança nas instituições.

“No caso do Flávio Bolsonaro, o prejuízo está relacionado ao áudio [em que pede dinheiro a Vorcaro]. A possibilidade de desgaste é mais pessoal. No caso do presidente Lula, o prejuízo está mais relacionado à retirada de confiança nas instituições. Isso afeta o sistema e, com isso, a disposição do eleitor de ir até a urna", diz Lucas Massimo. 

Martins Júnior também considera que a crise pode limitar a capacidade da oposição de transformar o episódio em uma vantagem eleitoral clara. Na avaliação dele, quando diferentes grupos políticos aparecem associados a controvérsias, fica mais difícil estabelecer uma divisão nítida entre quem representa o combate à corrupção e quem representa o problema. “Um tema importante só ganha força eleitoral quando os eleitores olham para o leque de opções que têm e veem diferenças: ‘esse vai combater e esse não vai’. Se o eleitor olha e não vê diferença, o jogo se anula.”

Polarização ainda segura disputa

Apesar do desgaste institucional, os especialistas não projetam, neste momento, uma ruptura da polarização capaz de alterar completamente o cenário eleitoral. Martins Júnior avalia que Lula e Flávio ainda devem concentrar a maior parcela dos votos. “Por mais que se percam 10% de cada lado, isso provavelmente não será suficiente para outro candidato furar essa bolha.”

Para Massimo, porém, o ponto decisivo da crise está justamente no eleitor que não se encontra em nenhum dos polos. Esse grupo, que pode decidir a eleição, tende a enfrentar um custo maior para escolher um candidato em meio ao aumento da desconfiança institucional. “Esse eleitor fica muito mais caro para ele assumir uma postura diante desse cenário.”

Por isso, na avaliação do cientista político, a consequência mais concreta da crise pode não aparecer necessariamente na distribuição dos votos, mas na quantidade de pessoas que decidirão não votar. “Seguramente, isso não vai se transformar diretamente em voto. O que seria necessário para isso influenciar de fato a eleição? A abstenção.”

Fonte: Portal Terra
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