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Quando confiar vira risco: como amigos e familiares ajudam a espalhar notícias falsas nas redes sociais

Experimento feito com usuários de redes sociais mostra que mensagens falsas, quando compartilhadas por amigos e parentes próximos, têm altas chances de serem passadas adiante

21 mai 2026 - 10h27
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Você confiaria mais em uma informação porque foi enviada por alguém próximo? Se a resposta for "sim", isso pode ser parte de um problema. A desinformação não se espalha apenas porque parece convincente, mas porque chega até nós por meio de pessoas em quem confiamos.

Um estudo publicado em abril na Online Information Review investigou por que pessoas comuns compartilham desinformação em aplicativos de mensagens.

O artigo, intitulado "My friend sent it, I fell for it: investigating misinformation and sender credibility" (Meu amigo mandou, e eu caí na armadilha: investigando a desinformação e a credibilidade do remetente), foi conduzido por Eduardo Mesquita, Evandro Luiz Lopes, Júlio Araújo Carneiro da Cunha e por mim.

Essa é a principal conclusão do estudo, que analisa como mensagens falsas circulam em ambientes digitais, especialmente em espaços privados como WhatsApp.

Diferentemente das redes sociais abertas, esses ambientes são marcados por relações próximas, amigos, familiares, colegas, o que muda a forma como avaliamos o que recebemos.

O papel da confiança

No dia a dia, ninguém tem tempo (ou disposição) para verificar tudo o que chega no celular. Diante do excesso de informação, o cérebro busca atalhos. Um dos mais comuns é confiar na fonte: "se foi essa pessoa que enviou, deve ser verdade". O estudo mostra que esse atalho tem consequências importantes.

Em três experimentos com mais de 900 participantes, os pesquisadores apresentaram mensagens falsas variando apenas um elemento: quem teria enviado a informação. O resultado foi direto. Quando a mensagem vinha de alguém considerado confiável, a intenção de compartilhamento aumentava significativamente, mesmo sendo falsa. Ou seja, não é só o conteúdo que importa. Quem envia pode ser ainda mais decisivo.

Quando algo "parece" verdadeiro

Por que isso acontece? Segundo o estudo, a credibilidade do emissor faz com que a mensagem pareça mais verdadeira. Em situações de atenção limitada, como ao rolar rapidamente o celular, as pessoas não analisam os detalhes da informação. Em vez disso, usam sinais rápidos para julgar o que é confiável. A identidade de quem envia a mensagem é um desses sinais.

Isso explica por que conteúdos duvidosos continuam circulando mesmo quando há dúvidas sobre sua veracidade. A confiança no remetente acaba "substituindo" a verificação dos fatos.

O fator social: compartilhar para ajudar

Mas acreditar não é tudo. O estudo identificou um segundo fator que aumenta ainda mais o compartilhamento: a relevância social. Em termos simples, trata-se da sensação de que aquela informação pode ser útil para outras pessoas. Pode ser um alerta de saúde, uma mudança em regras públicas ou qualquer conteúdo que pareça importante para amigos e familiares.

Quando uma mensagem é percebida como relevante para os outros, a chance de compartilhamento cresce, especialmente se ela vier de alguém confiável. Isso ajuda a entender um comportamento comum: compartilhar algo "por precaução", mesmo sem ter certeza se é verdade. Nesse caso, a motivação não é enganar, mas ajudar.

O efeito dos grupos privados

O ambiente onde a mensagem circula também faz diferença. Em aplicativos como WhatsApp, as interações acontecem em grupos fechados, com pessoas conhecidas. Isso aumenta a confiança entre os participantes e reduz o nível de questionamento. Ao mesmo tempo, há menos exposição pública, o que diminui o risco de ser corrigido ou criticado por compartilhar algo errado. Resultado: decisões são tomadas mais rapidamente e com menos verificação.

Por que isso importa

Essas conclusões mudam a forma como pensamos a desinformação. O problema não está apenas em conteúdos falsos ou em quem os cria, mas também em como pessoas comuns os distribuem. Muitas vezes, o compartilhamento acontece de boa-fé. A pessoa acredita na mensagem e acha que está fazendo algo útil ao repassá-la. Isso torna o fenômeno mais difícil de combater.

O que pode ser feito?

Nós sugerimos que estratégias contra desinformação precisam ir além da checagem de fatos. É importante alertar as pessoas sobre o papel da confiança nas decisões de compartilhamento. Confiar em quem envia não garante que a informação seja verdadeira.

Outro ponto importante é a relevância social. Quanto mais uma mensagem parece urgente ou importante para os outros, maior deveria ser o cuidado antes de compartilhá-la e não o contrário. Esse é um dos aspectos mais contraintuitivos do estudo.

No fim das contas, o estudo traz uma conclusão desconfortável: qualquer pessoa pode contribuir para a disseminação de desinformação. Não é preciso intenção de enganar. Basta confiar demais, verificar de menos e querer ajudar.

Em um ambiente digital baseado em conexões pessoais, a confiança é um dos principais motores da circulação de informação. E, como mostra a pesquisa, pode ser também um dos principais caminhos para que conteúdos falsos se espalhem.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Giuliana Isabella não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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