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Psicóloga explica porque muitas vezes nossa memória do passado é mais positiva que a realidade

E se a tecnologia atual de "memória total" estiver criando um sistema de memória que não precisamos nem tiramos proveito?

30 jul 2026 - 11h04
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Algumas das distorções comumente consideradas falhas nas recordações podem ser sinais de um sistema de memória saudável e adaptativo, uma forma de autoproteção que remodela experiências para reforçar a autoimagem positiva atual. 365daysStudios/Shutterstock
Algumas das distorções comumente consideradas falhas nas recordações podem ser sinais de um sistema de memória saudável e adaptativo, uma forma de autoproteção que remodela experiências para reforçar a autoimagem positiva atual. 365daysStudios/Shutterstock
Foto: The Conversation

Pense na época em que você estava na escola. Você era estudioso, popular, ansioso? E quais notas tirou nas provas? Agora, imagine que alguém pegue seus boletins escolares daquela época. Até que ponto eles corresponderiam aos resultados que você acabou de lembrar?

Se suas lembranças coincidirem exatamente, você pode se parabenizar por ter uma excelente memória. Mas, como psicóloga que passou anos pesquisando o que as pessoas lembram - e lembram erroneamente -, meu trabalho frequentemente desafia a ideia de que a "melhor" memória é sempre a mais precisa.

Na verdade, algumas das distorções comumente consideradas falhas nas recordações podem ser sinais de um sistema de memória saudável e adaptativo. Em muitos aspectos da vida, pesquisas sugerem que as pessoas se lembram erroneamente do passado de maneiras previsíveis e como uma forma de autoproteção, remodelando experiências para reforçar sua autoimagem positiva atual.

Por exemplo, um estudo norte-americano de 1996 investigou como ex-alunos se lembravam de 3.220 notas do ensino médio. O estudo constatou que eles se lembravam com precisão das notas A em 89% das vezes, mas das notas D em apenas 29%. A maioria dos erros consistia em lembrar-se de notas como sendo mais altas do que realmente eram, sugerindo que muitas pessoas carregavam consigo uma ilusão de melhor desempenho acadêmico.

Da mesma forma, os participantes de um estudo de 2006 passaram por exames de colesterol e, meses depois, foram reconvocados para verificar com que precisão se lembravam dos resultados. A maioria se lembrava de ter um nível de colesterol mais baixo do que o real, especialmente aqueles com os valores mais altos.

Vieses de memória positivos como esses geralmente se tornam mais comuns à medida que envelhecemos. Acredita-se que isso contribua para a relação positiva bem documentada entre idade e bem-estar. Mas esse tipo de distorção da memória é frequentemente considerado uma falha.

Em tribunais, hospitais e outros ambientes de alto risco, tais erros, claro, podem ter consequências graves. Por exemplo, depoimentos imprecisos de testemunhas oculares são o principal fator que contribui para condenações injustas anuladas pelo Innocence Project (Projeto Inocência).

Mas, na vida cotidiana, a flexibilidade da memória — e sua falibilidade — são fundamentais para nos ajudar a sobreviver e prosperar. A memória não é um dispositivo de gravação. Ela é seletiva, reconstrutiva e moldada pelo que é importante para nós no momento.

Então, e se a "tecnologia de memória total" de hoje estiver criando um sistema de memória do qual não precisamos nem nos beneficiamos?

Os benefícios de uma memória imperfeita

De acordo com o sistema de memória do eu do falecido psicólogo britânico Martin Conway, a memória autobiográfica não é simplesmente um repositório de eventos passados. É um sistema que mantém um senso de identidade coerente, estável e, em geral, positivo.

Assim, quando conhecimentos ou sentimentos mudam com o tempo, as pessoas frequentemente reconstroem memórias para que sejam mais consistentes com seu eu atual.

A psicóloga Linda Levine e seus colegas constataram isso em um estudo de 2010 sobre as memórias das pessoas em relação às suas reações ao julgamento de O.J. Simpson. À medida que as opiniões sobre o assassinato mudaram com o tempo, as pessoas tenderam a lembrar-se de suas reações iniciais como sendo mais próximas de suas crenças atuais do que realmente eram.

Muitos relacionamentos de longo prazo se beneficiam do fato de os parceiros terem memórias imperfeitas e em constante evolução. Em um estudo longitudinal de 20 anos, cônjuges satisfeitos frequentemente se lembravam das fases iniciais de seu casamento como menos felizes do que haviam relatado na época, criando uma ilusão de melhora que previa a satisfação futura no relacionamento. Certamente, o amor duradouro seria difícil se os casais retivessem cada ofensa e cada frase mal formulada com perfeitos detalhes.

A depressão oferece um contraste revelador. Em comparação com indivíduos não deprimidos, pessoas com depressão frequentemente apresentam menos do viés positivo que caracteriza a lembrança cotidiana.

Um sistema de memória menos inclinado a amenizar fracassos, reinterpretar contratempos ou destacar experiências positivas pode ser mais fiel ao passado. Mas também pode tornar mais difícil manter o bem-estar e a esperança no futuro.

Uma forma de memória que talvez não queiramos

É por isso que a tecnologia moderna levanta questões difíceis. Grande parte do nosso mundo digital se baseia na suposição de que mais memória é melhor memória. Os celulares armazenam milhares de imagens. Os relógios de fitness registram passos, sono, frequência cardíaca e calorias.

A chegada dos assistentes de IA pode acelerar ainda mais essa mudança, já que sistemas capazes de pesquisar, resumir e reapresentar instantaneamente anos de mensagens e fotografias influenciam a forma como nos lembramos.

Vídeo: Tecnologia da IBM.

Há evidências de que lembrar mais nem sempre é melhor. Pessoas com a condição muito rara de memória autobiográfica altamente superior podem relembrar detalhes extraordinários de décadas de suas vidas. No entanto, muitos descrevem a experiência como exaustiva, com memórias ressurgindo de forma vívida e involuntária — o que torna muito mais difícil superar eventos negativos da vida.

Estamos começando a ver exemplos de como a lembrança apoiada pela tecnologia pode produzir consequências semelhantes, particularmente no contexto do luto, onde plataformas trazem de volta inesperadamente fotografias, aniversários ou postagens de pessoas que já faleceram.

Sistemas de IA podem criar formas íntimas de memória digital. Imagine perguntar a um assistente de IA como era seu relacionamento há três anos e receber um resumo gerado a partir de milhares de mensagens, fotografias e anotações na agenda.

Os seres humanos sempre usaram ferramentas para lembrar, desde diários e monumentos até fotografias, músicas e histórias. O problema com as ferramentas digitais atuais é que elas são projetadas com base em uma filosofia restrita de memória: preservar tudo, quantificar tudo, trazer tudo à tona. Mas a memória humana não evoluiu para preservar tudo, nem para lembrar tudo exatamente como aconteceu.

Isso não quer dizer que a tecnologia deva distorcer ou reescrever o passado. A maioria de nós não baixaria um aplicativo de saúde que inventasse dados lisonjeiros por conveniência emocional. Mas acredito que todos precisamos dar mais atenção às chamadas imperfeições da memória humana - sua seletividade, maleabilidade e capacidade de suavizar, reorganizar e reinterpretar o passado.

Durante séculos, as pessoas criaram tecnologias para compensar as fraquezas da memória. Agora, talvez estejamos desenvolvendo tecnologias que eliminam alguns de seus pontos fortes.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

A pesquisa de Gillian Murphy é atualmente financiada pelo European Research Council, pelo Lero (Centro Irlandês de Pesquisa em Software) e pela Rinn AI. Gillian é coautora do livro "Memory Lane: The Perfectly Imperfect Ways We Remember" (Princeton University Press, 2025).

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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