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Política e eleições: por que a extrema direita recorre ao populismo para se apresentar como força de ruptura

O que se observa hoje não é propriamente a retomada do tradicional populismo que é comum principalmente na América Latina, mas a apropriação seletiva de sua lógica pela extrema direita em todo o mundo

21 set 2026 - 10h27
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Resumo
A extrema direita global e brasileira tem se apropriado da lógica populista para converter ressentimentos e crises em votos. Ao opor moralmente o "povo" a uma "elite", líderes conservadores se vendem como forças antissistema, mesmo integrando o centro do poder. Essa estratégia canaliza insatisfações reais contra instituições democráticas, como o Judiciário e a imprensa, normalizando projetos autoritários sob a retórica de ruptura e a falsa condição de vítimas do sistema.

O cientista político Steven Levitsky, coautor de "Como as Democracias Morrem", afirmou recentemente que vivemos uma "era populista permanente". Um mundo em que as elites estão enfraquecidas pelas redes sociais e no qual qualquer pessoa poderia chegar à Presidência com a estratégia adequada.

Nos dias atuais, o diagnóstico de uma onda populista global tornou-se corrente. A ascensão de Donald Trump nos EUA, Javier Milei na Argentina, Viktor Orbán na Hungria, e Recep Tayyip Erdoğan na Turquia, além do crescimento de Marine Le Pen na França, deu corpo a essa interpretação.

São lideranças diferentes, mas que compartilham um traço identificado com o populismo: apresentam-se como representantes do povo contra elites políticas, econômicas ou culturais que teriam abandonado a população. Esse antagonismo permite que apareçam como forças de ruptura, mesmo quando ocupam o centro do sistema político.

Mas como situar o Brasil nesse cenário? Estamos diante de uma apropriação, em escala global, de uma tradição populista ou de uma transformação no uso de seu repertório político? O que se observa não é propriamente a retomada do populismo latino-americano, mas a apropriação seletiva de sua lógica pela extrema direita.

A oposição entre povo e elite, a comunicação direta com os eleitores, a contestação das instituições e a apresentação do líder como alguém capaz de romper com o sistema que caracterizam o populismo são preservadas, mas passam a servir a outros projetos políticos. É por meio desse repertório que a extrema direita procura converter insatisfação, ressentimento e desejo de mudança em apoio eleitoral.

Populismo como lógica política

O termo populismo possui longa tradição na política latino-americana. No século XX, caracterizou lideranças que buscavam falar em nome do povo e incorporá-lo a processos marcados pelo domínio oligárquico. De caráter plebeu e plebiscitário, construíam vínculos diretos entre as massas e o líder. Getúlio Vargas (Brasil), Juan Domingo Perón (Argentina) e Jorge Eliécer Gaitán (Colômbia) são exemplos.

Essa interpretação buscava compreender a integração das massas à política durante a industrialização. Mas foi questionada por tratar os trabalhadores como disponíveis à manipulação, sem reconhecer sua organização e pressão. Também reuniu experiências associadas à ampliação de direitos sociais.

Depois, o termo caracterizou tanto outsiders que prometiam reformas de mercado , nos anos 1990, como lideranças da chamada onda rosa, nos anos 2000. O termo populismo, portanto, foi utilizado para descrever experiências muito diferentes.

Uma maneira mais precisa de abordar o populismo contemporâneo é entendê-lo como lógica política, e não como ideologia. Seu elemento constitutivo é o antagonismo entre um povo e uma elite moralmente opostos. A elite pode ser formada pelos políticos tradicionais, pela "casta" de Milei, pelos banqueiros ou pela mídia.

É essa lógica que a extrema direita incorporou. Assim, o populismo explica sua forma de mobilização, mas não caracteriza o conteúdo do projeto político. E essa forma de mobilização, para não alargarmos demais o conceito, deve possuir como elemento central o antagonismo moral entre povo e elite. Ou seja, um político pode ser antissistema, radical ou outsider sem ser populista. Não é o que vemos na maioria das lideranças de extrema-direita.

A força de parecer estar à margem

No Brasil, em 2018, Jair Bolsonaro apresentou-se como alguém de fora do sistema, contrário a "tudo isso que está aí". Na verdade, hoje, os Bolsonaros formam um grupo consolidado, ligado a um dos maiores partidos da Câmara, com bancadas, recursos e conexões com a extrema direita global.

Essa posição deveria dificultar a narrativa de um candidato que se opõe ao sistema, mas não é o que se vê. Apesar de estar institucionalizado e defender bandeiras bastante conservadoras, o bolsonarismo mantém a capacidade de se apresentar como um movimento à margem. Aí reside parte de seu encanto eleitoral: ocupar o sistema e apresentar-se como vítima dele.

Há um componente conjuntural e outro estrutural nessa atitude. Como oposição, a extrema direita catalisa o desejo de mudança contra o governo estabelecido e o custo de vida. O mal-estar cotidiano pode prevalecer sobre os indicadores e ser convertido em rejeição às instituições.

Em um plano mais estrutural, a extrema direita contesta a democracia liberal e apresenta seus mecanismos de controle como obstáculos à vontade popular. Transforma a transgressão das regras em sinal de autenticidade e dirige a insatisfação não apenas contra quem governa, mas também contra juízes, jornalistas, intelectuais e instituições que limitam o exercício do poder.

Notem que essa estratégia não é dominante entre as candidaturas hoje no Brasil. Lula organiza sua candidatura em torno da experiência administrativa e da entrega de políticas públicas. Ronaldo Caiado enfatiza a segurança pública; Romeu Zema, a eficiência administrativa e a orientação ultraliberal. Já Augusto Cury se coloca como um outsider.

Renan Santos seria o caso mais próximo do imaginário de ruptura. Mas o populismo não basta para explicá-lo. A defesa da suspensão de garantias do Estado Democrático de Direito, sintetizada em seu slogan "prendeu, matou", acentua muito mais o viés autoritário do que a sua retórica antissistema.

Projetos de poder

A apropriação da lógica populista permite à extrema direita produzir uma inversão. Lideranças apoiadas por partidos, bancadas e recursos econômicos apresentam-se como vítimas do sistema e representantes daqueles que se sentem excluídos por ele.

Essa construção parte de insatisfações reais. A perda do poder de compra, a precarização do trabalho e a desconfiança nas instituições, notadamente fenômenos globais, são reorganizadas em uma narrativa que atribui os problemas ao governo, ao Judiciário, à imprensa, às universidades ou à esquerda. Ficam fora do campo de visão as relações políticas e econômicas que sustentam essas lideranças.

Os eleitores não são simplesmente enganados. Experiências de insegurança e perda são interpretadas por um discurso que oferece inimigos, explicações simples e a promessa de ruptura. A crítica ao sistema é deslocada: em vez de alcançar as estruturas econômicas, dirige-se contra as instituições encarregadas de limitar o poder.

Mais do que a expansão do populismo, o fenômeno central é a normalização da extrema direita e de seu projeto de poder. O populismo explica parte da arquitetura do apoio a esses políticos. O projeto autoritário explica para onde ele pode ser conduzido.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Felipe Calabrez presta consultoria a partidos políticos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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