ONU: Uma a cada quatro pessoas no mundo não tem alimentos suficientes
Mais de dois bilhões de indivíduos enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave, aponta Nações Unidas. Mundo está a caminho de falhar metas de desenvolvimento sustentável para 2030, após década de avanços lentos.Embora o mundo tenha há mais de uma década se comprometido a erradicá-la, a pobreza extrema ainda é a realidade de uma a cada dez pessoas, segundo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) publicado nesta terça-feira (07/07). Mais de dois bilhões de indivíduos - isto é, cerca de um quarto da população global - enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave, ou seja, não têm acesso regular a alimentos suficientes ao longo do ano.
A vulnerabilidade das camadas mais pobres vem sendo ainda exacerbada pelos desastres relacionados ao clima. Desde 2015, o número de afetados mais do que dobrou ao redor do planeta.
Enfrentar as mudanças climáticas e combater desigualdades são outros dois dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) acordados no âmbito da chamada Agenda 2030 da ONU.
Mas os resultados permanecem aquém do esperado: de 169 metas pensadas como passos para alcançar os 17 ODS, quase metade avança de forma muito lenta. Outros 15% das metas regrediram em relação a 2015, quando a agenda foi oficialmente adotada.
Retrocessos na proteção do planeta
Nos objetivos ligados ao meio ambiente e ao clima, o retrocesso é grave. O risco de extinção aumenta em todos os grupos de espécies, e a temperatura global subiu em 2025 para 1,43 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais.
O objetivo do Acordo de Paris, também de 2015, é limitar o aquecimento a 1,5 grau Celsius. Enquanto isso, a concentração de CO2 na atmosfera atingiu o nível mais alto em dois milhões de anos.
Já a pobreza extrema deve atingir 10% globalmente até 2026, apenas três pontos percentuais abaixo de 2015. Nas cidades, cerca de um em cada quatro moradores vive em favelas ou assentamentos informais.
Os avanços, na contramão, incluem a expansão do acesso seguro à água potável para mais um bilhão de pessoas na última década; a redução das novas infecções por HIV e mortes relacionadas à Aids; e o fato de que agora 92% da população global tem acesso à eletricidade.
Muitas guerras e pouco financiamento
A escalada de conflitos violentos contribui para o ritmo fraco ou inerte da concretização da Agenda 2030. Em poucos meses, as guerras são capazes de reverter anos de avanços nos países que assolam.
O conflito no Oriente Médio, por exemplo, interrompeu neste ano rotas marítimas e cadeias de energia, fertilizantes e alimentos. Poderão ser duradouras as consequências para a segurança alimentar global, especialmente na África e partes da Ásia.
Além disso, os gastos militares globais batem recordes, enquanto o déficit anual de financiamento para alcançar os ODS nos países em desenvolvimento gira em torno de 4 trilhões de dólares (R$ 20,6 trilhões). O secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu que os países intensifiquem esforços em favor da agenda.
Os recursos canalizados para a sua concretização, na forma de ajuda oficial ao desenvolvimento, caíram 23% em 2025. Foi o maior recuo já registrado.
Milhões têm fome e sede
Embora a fome global tenha diminuído ligeiramente em 2024, ela continua acima dos níveis de 2015. Mais de 8% da população mundial sofre de fome crônica.
A melhora foi impulsionada por recuperações econômicas pós-pandemia no sul da Ásia e na América Latina, enquanto a fome continua a crescer no oeste da Ásia e na África.
Mesmo com a expansão do acesso à água potável, a pressão sobre os recursos permanece elevada: 10% da população mundial vive em países com estresse hídrico alto ou crítico.
Enquanto isso, quase metade dos países relata redução no fluxo de rios, com impactos mais fortes na América Latina, no Caribe e em partes da Ásia Central e do Sul.
Mudanças climáticas ampliam vulnerabilidades
O período entre 2015 e 2025 foi o mais quente já registrado, e as emissões de gases de efeito estufa continuam em alta, com um novo recorde atingido em 2024.
Também os oceanos, que absorvem cerca de 90% do excesso de calor da atmosfera, bateram níveis recordes pelo nono ano consecutivo.
O aquecimento das águas acelera o derretimento das calotas polares, eleva o nível do mar, intensifica tempestades tropicais e degrada ecossistemas marinhos.
Desastres naturais agravados pelas mudanças climáticas continuam a provocar mortes, destruir infraestrutura, reduzir renda e aumentar o endividamento e a dependência de ajuda humanitária.
Eletricidade: desigualdade persistente
Mais de 650 milhões de pessoas ainda vivem sem serviço de eletricidade, apesar da melhora na última década. Até 2030, a previsão é de avanço mínimo.
A Ásia liderou os progressos, enquanto a África Subsaariana concentra 86% da população mundial sem acesso à energia elétrica.
A participação de energias renováveis também cresceu, mas ainda em ritmo insuficiente para atingir metas climáticas e de desenvolvimento.
Crise habitacional se agrava
Embora a proporção de pessoas vivendo em favelas tenha caído em algumas regiões, o número absoluto superou um bilhão no mundo.
"Precisamos agir e acelerar", afirmou a diretora-executiva do ONU-Habitat, Anaclaudia Rossbach, à DW. Segundo ela, o mundo enfrenta uma crise global de habitação: cerca de 3 bilhões de pessoas vivem em condições inadequadas.
Uma em cada quatro pessoas não tem acesso a água potável segura, saneamento e moradia adequada.
"Se não tratarmos corretamente a questão da moradia e dos assentamentos informais, todos os ODS estarão em risco", disse. Segundo Rossbach, a habitação é a base para avanços em outras áreas, como educação e saúde.
África e Sudeste Asiático estão entre as regiões mais vulneráveis, com crescimento urbano acelerado previsto para as próximas décadas.
Segundo a ONU, as decisões tomadas nos próximos quatro anos serão determinantes para o cumprimento - ou fracasso - da agenda para 2030.
Tim Schauenberg contribuiu para esta reportagem.
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