O que está por trás do aumento de gastos militares no governo Lula
Com aumento de 13% em 2025, investimentos em Defesa ganham tração no governo Lula, num raro consenso entre Planalto e Congresso. Especialistas alertam que definição de prioridades estratégicas avança em ritmo mais lento.Sancionada ao final de 2025 e aprovada sem gerar ruídos orçamentários, a lei que retirou do arcabouço fiscal R$ 30 bilhões a serem destinados às Forças Armadas até 2030 consolidou um ano atípico para os gastos de defesa no Brasil.
O período ficou marcado por um avanço nesse tipo de despesa, enquanto ecoa no país a pressão global por maiores investimentos militares. Com raro e quase unânime apoio, governo e oposição passaram a defender aportes adicionais no setor, embora o debate sobre seu desenho estratégico avance mais devagar que a liberação de recursos.
Dados do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri) mostram que, em 2025, o Brasil ampliou em 13% seus gastos militares, com mais de R$ 130 bilhões aplicados.
O avanço, que não se repetia desde 2001, supera o crescimento global, de 2,9%. O movimento foi suficiente para colocar o país na 21ª posição do ranking mundial e na liderança da América Latina, ultrapassando com folga países como México e Irã. No mundo, o investimento em defesa cresceu pelo 11º ano consecutivo.
O cálculo do Sipri, que inclui aportes em defesa feitos por outros órgãos, indica que o aumento de gastos em 2025 reflete desdobramentos de programas anteriores de tecnologia naval e gastos históricos com pessoal.
O interesse na área também se reflete na Câmara dos Deputados. Antes mesmo do fim do mandato, a Casa acumula ao menos 260 projetos com foco nas Forças Armadas, quase se igualando aos quatro anos da gestão anterior. Em breve, ainda chegará aos deputados a chamada PEC dos gastos militares, desengavetada pelo Senado em 2025 e agora em tramitação. Ela importa modelos estrangeiros e projeta um investimento em Defesa de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), o chamado ônus militar.
Tanto a PEC, ainda em discussão, quanto a lei que desvincula da meta fiscal R$ 5 bilhões por ano ao Ministério da Defesa são projetos liderados pelo PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, e relatados pelo PT, do sucessor Luiz Inácio Lula da Silva.
Defesa ganha tração no governo Lula
O investimento em Defesa é comum nos governos petistas, mas ganha maior tração no atual mandato de Lula, em que setores do governo buscam superar os atritos entre o Planalto e o oficialato após a tentativa de golpe de Estado em janeiro de 2023.
A justificativa repetida pelo chefe da pasta, José Múcio, é a de que o país precisa se preparar para ameaças híbridas modernas e a nova realidade de conflitos distribuídos pelo globo. Ele argumenta que os valores não são extremos diante de um efetivo de 339,7 mil militares ativos e demandas territoriais de defesa fronteiriças na casa dos milhões de quilômetros quadrados.
Para especialistas, contudo, revela a histórica imprevisibilidade do investimento militar brasileiro, irregular ao menos desde 1985 e disperso em diferentes prioridades.
Segundo o cientista político David Borges, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), todos os governos brasileiros desde a redemocratização utilizaram-se do potencial de desenvolvimento da indústria nacional como justificativas para a implementação de projetos militares. "Apesar disso, também fica claro o constante adiamento de metas e o grande número de projetos não concluídos ou abandonados", afirma em artigo sobre o tema.
"Essa instabilidade se manifesta como descontinuidade. Os projetos ficam parados, ou atrasam", complementa à DW.
As principais retrações ocorreram nos períodos de Fernando Henrique Cardoso e Jair Bolsonaro. O antecessor de Lula, que possuía apoio de grande parte dos militares, distribuiu benefícios previdenciários às patentes mais altas, enquanto enxugou o montante de investimentos, destaca Ana Penido, professora no Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ).
"Investir em defesa não significa necessariamente investir em militares. Há uma confusão recorrente, em parte porque o pensamento sobre defesa no Brasil sempre esteve muito restrito ao ambiente da caserna. Isso acaba produzindo a ideia de que investir em defesa significa simplesmente ampliar o número de militares armados com equipamentos de última geração", afirma.
Pressão sobre a folha e aparato militar
Para especialistas, mesmo que o ano de 2025 se consolide como um ponto fora da curva da série histórica brasileira, o caminho adotado revela, para além do interesse político, a expectativa da gestão em apostar em um aparato militar tradicional. Sozinha, a carteira de projetos no Novo PAC contempla R$ 202,7 bilhões às Forças Armadas e o Estado-Maior.
Já a nova Política de Transformação do Exército Brasileiro, publicada no início de maio, por exemplo, prevê que ao menos 20% do efetivo mantenha "o mais elevado grau de prontidão e resiliência".
A proposta pressiona o já inchado gasto com pessoal. Herança de políticas da ditadura militar, cerca de 85% das despesas militares brasileiras são destinadas anualmente à folha de pagamento e encargos sociais, enquanto apenas 7,3% seguiram para investimentos. A título de comparação, países da Otan aplicam pouco mais de 31% com gastos de pessoal.
"Diferentes pesquisadores, utilizando métodos distintos de econometria, chegam à mesma conclusão: todo recurso adicional que entra no orçamento, da forma como ele está estruturado hoje, acaba sendo quase automaticamente absorvido pelo pagamento de pessoal", destaca Ana Penido.
Em 2025, essa proporção teve leve avanço em favor da aceleração de programas tomados como prioridades para Múcio: o desenvolvimento doméstico de submarinos convencionais, o submarino de propulsão nuclear, e as Fragatas Tamandaré, que juntos à compra de caças F-39 Gripen consumiram R$ 4,9 bilhões em 2025, mostra o relatório de Gestão de 2025.
A maior parte destes programas não são novos. Desde 2014 o Exército empenha uma média anual de R$ 391 milhões para o desenvolvimento do submarino nuclear, por exemplo. Mas sua entrega, antes prevista para 2025, foi adiada para 2037. "O projeto é bastante antigo, tem passado por sucessivos atrasos e mudanças de prazo. O ideal seria que as forças tivessem previsibilidade orçamentária, para poder tocar os projetos necessários", diz David Borges.
Modelo importado gera riscos
No Senado, o debate avança na tramitação da PEC que estipula um percentual do PIB para as Forças Armadas. Se por um lado o projeto é defendido por dar maior previsibilidade aos gastos, por outro é visto como arriscado diante da realidade brasileira.
"Eu vim atrás de ajuda. Somos o maior país da América Latina, temos 52% do PIB da região, mas as Forças Armadas não sei nem se estão entre as três primeiras. Temos bastante equipamento comprado, mas não temos dinheiro para comprar peças", disse em setembro à Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado.
Naquele mesmo mês, os chefes do Estado-Maior da Marinha, do Exército e da Aeronáutica defenderam que o Brasil adote o percentual recomendado pela Otan, de 2% do PIB destinados ao ônus militar. Hoje, o país aplica cerca de 1%.
Em seu relatório de gestão, o governo diz que seu orçamento atual é baixo se comparado a países similares em critérios como população, território e PIB. Para isso, lista como "semelhantes" Estados Unidos, China e Índia, sem considerar especificidades regionais e ameaças concretas sofridas por cada um.
"Existe uma diferença grande entre o gasto militar e como isso se traduz numa capacidade militar. Duas economias similares que gastam o mesmo podem ter resultados extremamente distintos. É muito mais do ponto de vista sobre como essas tecnologias são utilizadas do que necessariamente se elas são extremamente caras ou uma lista de equipamentos para comprar", diz Diego Lopes da Silva, pesquisador sênior do Programa de Gastos Militares e Produção de Armas do Sipri.
"Existem lições nos conflitos contemporâneos que mostram que não necessariamente um aumento substantivo no investimento de armamentos de capital intensivo extremamente caros, ele se traduz numa capacidade de defesa", completa.
O debate, portanto, vai além do teor orçamentário e recai sobre o próprio modelo de defesa que se pretende para as Forças Armadas.
Críticos alertam para o risco de descompasso entre esse tipo de investimento e as necessidades reais do país no contexto regional. No caso brasileiro, o planejamento das Forças ainda é tomado como individualizado e focado em equipamentos.
A Política Nacional de Defesa, por exemplo, estabelece três áreas consideradas essenciais — cibernética, nuclear e espacial —, mas não define uma ordem de prioridade entre elas, o que faz com que áreas como inteligência artificial e defesa cibernética sejam apontadas como frágeis e altamente dependentes de tecnologia externa.
"A questão não é simplesmente avaliar quanto tempo o Brasil resistiria a um confronto armado. Existe um problema anterior: o que exatamente queremos defender e de que forma pretendemos fazê-lo", diz Ana Penido, da UFRJ.
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