O que esperar do reencontro de Lula com Trump em Washington
Petista visita o presidente americano sem pompa e em meio a tensões eleitorais. Brasil busca normalizar relações com os EUA, enquanto Casa Branca quer discutir terras raras e facções criminosas.Ao se reunir com o presidente americano, Donald Trump, em encontro previsto para ocorrer na próxima quinta-feira (07/05), Luiz Inácio Lula da Silva encontrará uma Casa Branca distante do cenário que presenciou três anos atrás, quando foi recebido pelo então presidente Joe Biden.
Quando o petista esteve com o antecessor de Trump em fevereiro de 2023, o gesto foi celebrado como a volta do Brasil ao cenário internacional e rendeu declarações alinhadas sobre democracia e proteção do meio ambiente.
A cúpula desta semana, porém, tem ambições mais modestas: a normalização das relações bilaterais. A expectativa é que a conversa ocorra sem cerimônias, nos moldes de como o republicano vem recebendo outros líderes internacionais.
Nos últimos meses, o presidente americano tem sinalizado disposição para encerrar a animosidade com Lula — estimulada por aliados da família Bolsonaro —, mas o terreno de negociação entre os dois governos continua pouco alinhado.
Na agenda dos líderes devem entrar temas que não foram pacificados em conversas anteriores, como barreiras tarifárias, acesso a terras raras e investigações comerciais, além de discussões sobre segurança pública, incluindo a possibilidade de classificar facções brasileiras como organizações terroristas.
Em entrevista à Globonews nesta terça-feira (05/05), o vice-presidente Geraldo Alckmin confirmou que Lula discutirá o combate ao crime organizado e também as disputas sobre o modelo digital de pagamentos, o Pix. "Lula tem colocado que não tem tema proibido. Vamos conversar. Big techs, terras raras, data centers, política tarifária", afirmou. Segundo ele, o objetivo é mostrar que o Brasil não e uma ameaça aos EUA.
Encontro em clima eleitoral
O governo brasileiro parece empenhado em evitar um clima de tensão às vésperas da eleição presidencial. Apesar de amplamente noticiada, a viagem demorou a ser oficializada, um gesto incomum e que analistas leem como receio de um possível cancelamento de última hora. No início do ano, Lula chegou a anunciar que iria aos Estados Unidos em março, o que acabou não ocorrendo devido à guerra no Irã.
O contato mais recente entre Lula e Trump — um encontro rápido durante um evento na Malásia, seguido de uma curta ligação em janeiro — rendeu ao brasileiro avanços pontuais, como a derrubada de sanções contra autoridades e alívio em tarifas comerciais.
Agora, porém, o cenário é mais sensível para o petista: em meio a um ambiente pré‑eleitoral acirrado, a pauta americana ganhou peso no debate doméstico. Há um receio em Brasília de que Trump queira se envolver mais ativamente na disputa eleitoral brasileira. Lula tem reforçado o discurso de soberania nacional diante do ímpeto intervencionista de Trump, ao mesmo tempo em que tenta sinalizar abertura ao diálogo.
No campo oposicionista, o senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro trabalha para aproximar o bolsonarismo do universo político de Trump. O parlamentar também esteve nos EUA nesta semana. Seu irmão, Eduardo Bolsonaro, criticou a visita do petista. "E a narrativa de Lula defender a soberania nacional? A verdade é que Lula, malandro que é, fez um discurso para a militância e outro para as elites. Entre um e outro existe um abismo!", escreveu no X.
Já Geraldo Alckmin, disse esperar "boa química" entre os líderes. "Eu torço para que essa boa química que ocorreu entre o presidente Lula e o presidente Trump possa fortalecer ainda mais a relação em benefício dos dois grandes países, duas grandes democracias do Ocidente", disse a jornalistas.
Além disso, Lula chega ao encontro após duas derrotas políticas signficativas: a reprovação de Jorge Messias ao cargo de ministro no Supremo Tribunal Federal e a derrubada do veto ao projeto de lei que diminui as penas dos condenados pelo 8 de janeiro.
"A visita do presidente Lula a Washington vai tirar certamente o foco destas derrotas políticas que vão influenciar o cenário eleitoral aqui no Brasil", afirma Roberto Uebel, professor de Relações Internacionais da ESPM e de Geografia da UniCesumar.
Para Uebel, Lula chega ao encontro com o objetivo de mostrar que há sinergia entre os dois governos e afastar o bolsonarismo de Trump. "Pelo menos no âmbito de política externa, desvia o foco das derrotas políticas da semana passada e seria um certo respaldo do governo Trump para o processo eleitoral aqui no Brasil", avalia.
Lula quer contornar crise; Trump pressiona na segurança pública
Apesar do tom mais amistoso, ruídos diplomáticos persistem. Em abril, os Estados Unidos expulsaram um delegado brasileiro da Polícia Federal (PF) envolvido na prisão do deputado federal Alexandre Ramagem, acusando-o de contornar pedidos formais de extradição. Em resposta, um agente americano que atuava no Brasil teve suas credenciais cassadas.
Nas últimas semanas, Lula também adotou críticas mais incisivas à atuação americana na guerra do Irã, além de reiterar sua oposição ao protecionismo praticado por países desenvolvidos. O governo brasileiro tampouco considera encerrado o tema do tarifaço sobre produtos nacionais, ainda que parte das medidas tenha sido diluída por uma tarifa global anunciada pelos EUA em fevereiro.
"Precisamos deixar claro para os americanos que os EUA têm conosco superávit. Dos dez produtos que eles mais exportam para nós, oito a tarifa é zero",afirmou Alckmin à Globonews.
Esses assuntos devem permear a agenda brasileira em Washington. Segundo Alckmin, um dos focos será explicar o funcionamento do Pix, que entrou na mira de uma investigação comercial dos EUA. Washington vê o modelo como prejudicial à concorrência de outros sistemas de pagamento eletrônicos. "O Pix é um sucesso. Traz segurança e é um avanço do ponto de vista tecnológico", disse o vice-presidente.
O principal interesse público de Trump, porém, tem sido a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas, medida que ampliaria o alcance das investigações transnacionais dos EUA sobre o Brasil e mudaria a forma como o país lida com operações desses grupos em seu território.
O Brasil rejeita a proposta por entender quehá instrumentos mais adequados para o combate ao crime organizado. Há ainda um temor de que os EUA usem o enquadramento para justificar ações em território brasileiro.
Em março, Washington excluiu Brasil e México de uma iniciativa de segurança para a América Latina, a Escudo para as Américas, e Trump não tem arrefecido a pressão sobre o tema.
Para Alckmin, a divergência pode ser superada. "Em relação ao crime organizado, o presidente vai levar novamente ao presidente Trump um acordo para o combate a organizações criminosas transnacionais. Nós podemos fazer muita parceria nessa área, controle de fluxo financeiro, investigação", afirmou.
Terras raras seguem na pauta
Paralelamente, desde os primeiros atritos com o governo petista, Trump demonstra interesse no acesso às vastas reservas brasileiras de cobre, níquel, nióbio e lítio - as chamadas terras raras.
O assunto é tratado como questão de segurança nacional e dificilmente ficará fora de qualquer negociação para normalizar as relações bilaterais. Anteriormente, chegou a ser aventado como condição para aliviar o tarifaço.
Caso o republicano proponha acordos semelhantes aos firmados com outros países, o Palácio do Planalto pode dificultar o aceite dos termos. Em abril, uma empresa americana fechou um acordo bilionário para comprar uma mina de minerais críticos em Goiás, o que foi visto como uma tentativa de contornar o diálogo com o governo federal.
Além disso, em visita à Alemanha no mesmo mês, Lula assinou acordos relacionados à exploração de minerais em território brasileiro e afirmou que o país não vetará parceiros estrangeiros nem estabelecerá preferências na exportação dos produtos, algo que desagrada Washington. Trump tem indicado de forma explícita que busca acesso prioritário na tentativa de contornar a concorrência chinesa.
Uebel avalia que a visita sinaliza para os EUA que o governo brasileiro está aberto para o diálogo e tem nos minerais críticos seu principal elemento de negociação. "Eu vejo este como talvez o único elemento de barganha possível que o Brasil pode apresentar à mesa, até porque o Brasil não quer depender única e exclusivamente da China", diz.
"Se oferece essa possibilidade de os Estados Unidos explorarem terras raras e minerais críticos aqui com mão de obra brasileira, com transferência de tecnologia e em troca os Estados Unidos tirariam tarifas e criariam uma uma relação estratégica com o governo brasileiro."
Temas secundários perdem fôlego
Outros temas que já ocuparam posição central nas conversas entre Lula e Trump perderam espaço nos últimos meses, mas seguem sem solução. Entre eles estão a pressão dos EUA contra a regulação de big techs no Brasil e a abertura do mercado brasileiro de etanol.
Já questões como a intervenção americana na Venezuela, antes centrais no diálogo bilateral, estão mais pacificadas e são consideradas sensíveis demais para serem levantadas às vésperas da eleição.
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