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O que é um "macho alfa"?

Alcançar um status de "alto valor" não é visto apenas como a chave para o sucesso na vida, mas também para atrair mulheres de "alto valor".

23 mar 2026 - 09h12
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Expressão pseudocientífica é usada para promover uma retórica misógina, preconceituosa e violenta baseada em um conceito equivocado de masculinidade, que seria necessariamente hierárquica e agressiva. AS Inc/Shutterstock
Expressão pseudocientífica é usada para promover uma retórica misógina, preconceituosa e violenta baseada em um conceito equivocado de masculinidade, que seria necessariamente hierárquica e agressiva. AS Inc/Shutterstock
Foto: The Conversation

O sucesso da série da Netflix Adolescência chamou a atenção para a retórica misógina e como ela se espalha na internet. A Safeline, uma organização que apoia sobreviventes de abuso sexual, alertou que termos como "homens de alto valor" e "homens de baixo valor" (também descritos como homens "alfa" e "beta") estão sendo usados para radicalizar meninos, levando-os a abraçar tal retórica.

Em 2024, Elon Musk compartilhou uma postagem que argumentava que apenas "machos alfa com alto T" — ou seja, homens com altos níveis de testosterona — podem pensar livremente e são os mais qualificados para liderar e governar. Relevante aqui é o alcance de influenciadores como Andrew Tate, um autodenominado misógino que, junto com seu irmão, enfrenta 21 acusações no Reino Unido, incluindo estupro e tráfico de pessoas, todas as quais eles negam.

Mas o que significam esses termos, e quão prejudiciais eles são?

As expressões "macho alfa" e "macho beta" são termos pseudocientíficos usados para promover um conceito de masculinidade necessariamente hierárquico e agressivo. A teoria define o ideal de homem como alguém financeiramente bem-sucedido, assertivo, forte, lógico e um "líder natural".

Alcançar um status de "alto valor" não é visto apenas como a chave para o sucesso na vida, mas também para atrair o que é considerado de alto valor — ou seja, mulheres virtuosas e fisicamente atraentes.

O uso comum e generalizado de termos como "alfa" ou "homem de alto valor" costumava se limitar, em grande parte, a subculturas na internet, como fóruns da "machosfera" e dos "incels" (celibatários involuntários). Mas eles entraram na cultura dominante por meio de influenciadores como Tate, cujos seguidores o descrevem como "Top G".

Mudança de normas?

Há também sinais de que as ideias sobre o que significa ser "de alto valor" estão mudando em relação à visão tradicional e hegemônica da masculinidade. Um estudo de caso interessante é Ashton Hall, cujo vídeo da rotina matinal recentemente acumulou milhões de visualizações no TikTok e foi amplamente discutido online.

O dia meticulosamente estruturado do influenciador de autoaperfeiçoamento masculino compreende uma série de tarefas de autootimização, começando com flexões às 4h, escrever no diário às 4h40 e mergulhar o rosto em água gelada antes de ir para a academia às 6h20. Após outro mergulho do rosto em água gelada e algumas horas de trabalho, o vídeo termina com uma mulher servindo-lhe o jantar.

É interessante ver Hall adotar práticas tradicionalmente vistas como femininas, como escrever um diário e cuidar da pele, e incorporá-las como parte de uma rotina matinal que, de outra forma, seria muito tradicionalmente masculina.

Outro influenciador hipermasculino, Hamza, também combina seu comportamento de homem durão com práticas como meditação, nutrição e bem-estar. Ele enquadra esses hábitos como "treinamento de guerreiro". Tais práticas, portanto, não são vistas como femininas ou emasculadoras.

Máscaras faciais e autocuidado foram redefinidos por alguns como parte de uma rotina masculina. G-Stock Studio/Shutterstock
Máscaras faciais e autocuidado foram redefinidos por alguns como parte de uma rotina masculina. G-Stock Studio/Shutterstock
Foto: The Conversation

A masculinidade hoje é influenciada por ideais neoliberais, nos quais o valor de um homem é medido por sua produtividade e sucesso. Práticas como o autocuidado são rotuladas como ferramentas de disciplina e de melhoria de desempenho, usadas para construir a versão mais otimizada e competitiva do "eu" masculino.

Ashton Hall pode não se descrever como um "macho alfa", mas, em muitos aspectos, ele personifica o arquétipo neoliberal idealizado da masculinidade: força física, riqueza e bens materiais.

Enquanto as exibições de riqueza e mulheres de Tate são claras demonstrações de domínio masculino, a abordagem mais contida de Hall se encaixa na mesma hierarquia. Em ambos, o "valor" é definido pela disciplina, ascendência social e poder, especialmente sobre as mulheres. No vídeo de Hall, são as mãos de uma mulher que podem ser vistas preparando e servindo sua comida, reforçando os papéis de gênero tradicionais.

Por que isso é prejudicial?

É importante observar que nem todos os influenciadores hipermasculinos são necessariamente maus exemplos para jovens e meninos.

Mas, como exploramos em um relatório recente, o conteúdo de autoaperfeiçoamento pode ser uma porta de entrada fundamental para o espaço digital misógino da "machosfera".

Em nossa análise de discussões online, descobrimos que muitos dos que se sentem atraídos por influenciadores hipermasculinos relataram lutar contra várias vulnerabilidades na vida real. Isso incluiu passar por grandes mudanças na vida, ansiedade, depressão, bullying e isolamento social, além de terem neurodiversidade. Jovens seguidores descreveram o conteúdo motivacional como algo que os "salvou". Outros se depararam com esse conteúdo por meio de buscas, em si inofensivas, sobre como melhorar o abdômen ou encontrar uma namorada.

Um jovem de 15 anos em nossa pesquisa, por exemplo, lembrou ter sofrido bullying severo na escola. Ele disse que, após adotar uma rotina rígida inspirada em Tate (acordar às 6h, praticar exercícios físicos, cortar as redes sociais), "agora as pessoas me respeitam".

Inicialmente, o que os jovens encontram pode aumentar sua confiança. Mas, ao se depararem com a promoção de padrões irreais de autoaperfeiçoamento e uma mentalidade de "cultura da correria", eles podem ser doutrinados em um mundo online de rigidez e misoginia.

Atribuir valor aos homens com base no status social e econômico tem consequências pessoais e sociais. O fracasso em atender a esses padrões é apresentado como um caminho para a solidão e o sofrimento, e seguir influenciadores de autoaperfeiçoamento seria a única solução.

O apelo do autoaperfeiçoamento reside em sua promessa de transformação — de um estado de insatisfação e frustração para um de abundância, empoderamento e dominação. Mesmo os seguidores de Tate que afirmam não concordar com suas visões sobre as mulheres são atraídos por seu sucesso financeiro e empresarial.

Embora apresentado como algo a se aspirar, ser "de alto valor" é tipicamente reservado àqueles com privilégios de tempo e riqueza, tornando o objetivo inerentemente exclusivo e inacessível para a maioria. Mais importante ainda, isso incentiva uma visão de mundo em que as pessoas são julgadas não por quem são, mas sim pelo quanto produzem e pelo que podem oferecer.

Essa retórica reduz as relações humanas a transações baseadas em métricas, fundamentadas em uma ordem hierárquica onde apenas aqueles que acumularam mais poder, riqueza e sucesso chegam ao topo. A persona "Top G" de Andrew Tate assenta nessa compreensão das relações humanas, resultando em um modelo transacional hipercompetitivo de masculinidade.

Mais preocupante é a facilidade com que esse discurso se presta a narrativas misóginas. Em um vídeo, Tate descreve como "a 'contagem de corpos' (o número de parceiros sexuais) é a maneira mais fácil de julgar o valor de uma mulher".

Essa métrica, da qual os homens estão isentos, torna-se o padrão que os homens podem usar para avaliar e menosprezar as mulheres. Ela revela as verdadeiras intenções por trás de conceitos como "alto valor" - uma forma de classificar os homens e justificar o controle e a desvalorização das mulheres, reforçando ainda mais os sistemas de poder e domínio masculino.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Jwana Aziz recebe financiamento do QR Policy Support Funding da Universidade de Birmingham e doação do Barker Family Trust.

Anna Lavis já recebeu financiamento para pesquisas sobre danos online da Wellcome, da Samaritans e do ESRC, e o trabalho no qual este artigo se baseia foi financiado pelo QR Policy Support Funding da Universidade de Birmingham e por uma doação do Barker Family Trust. Anna integra o Conselho Consultivo Global de Especialistas em Transtornos Alimentares e Imagem Corporal da Meta, mas não recebe remuneração por esse trabalho.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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