O massacre de judeus na Polônia após o Holocausto
Em 4 de julho de 1946, um ano após a derrota da Alemanha nazista, um falso rumor sobre sacrifício de crianças levou uma turba de poloneses a massacrar cerca de 40 judeus. Por décadas, chacina de Kielce foi tabu no país.Há oitenta anos, a cidade de Kielce, no sul da Polônia, foi palco do pior massacre de judeus da história polonesa do pós-guerra. Em 1946, apenas 14 meses após a vitória dos Aliados sobre a Alemanha nazista e o fim da Segunda Guerra Mundial, cerca 40 judeus que haviam sobrevivido ao Holocausto foram roubados, espancados e brutalmente assassinados por seus próprios vizinhos.
Foi na manhã de 4 de julho de 1946 quando uma multidão enfurecida se reuniu em frente ao que era conhecido como a "Casa Judaica", no número 7 da Rua Planty, sede de diversas organizações beneficentes judaicas. A construçã de três andares também servia de abrigo temporário para mais de 200 judeus que haviam sobrevivido aos campos de concentração do regime nazista ou haviam se escondido na Polônia ou se exilando na União Soviética durante o Holocausto. Esses indivíduos traumatizados tentavam reconstruir suas vidas na Polônia ou estavam se preparando para emigrar para a Palestina.
"Morte aos judeus!", gritou a multidão reunida em frente ao prédio, armada com pedras e porretes.
Pouco antes, um boato se espalhava pela cidade: o de que os judeus haviam sequestrado e assassinado crianças cristãs. Uma tropa de policiais se dirigiu ao centro judaico e anunciou que iria procurar pelas supostas crianças sequestradas, o que apenas incitou ainda mais a multidão.
Então, em vez de proteger as pessoas que estavam dentro da casa, os policiais dispararam contra os judeus no interior e arrastaram outros para fora, onde a multidão começou a espancá-los — até a morte. Homens e mulheres foram arremessados de sacadas do segundo andar. Era o início de um pogrom, os ataques violentos em massa contra um grupo étnico ou religioso, historicamente associado à perseguição deliberada de comunidades judaicas.
"Os soldados começaram a atirar, mas não nos agressores; atiravam em nós", testemunhou mais tarde Chil Alpert, um dos sobreviventes do pogrom. "Os soldados dispararam contra as nossas janelas. Dentro da casa, os militares assassinaram os judeus. Inicialmente, atiraram através das portas; depois, forçaram a entrada, disparando contra as pessoas e lançando as vítimas à multidão, onde eram espancadas até a morte."
Rumor que espalhou após a mentira de uma criança
O rumor que alimentou o massacre foi desencadeado por um menino local que havia elaborado uma mentira para evitar ser punido. Henryk Blaszczyk, que tinha cerca de nove anos na época, havia visitado outro vilarejo perto de Kielce sem avisar seus pais, ficando fora por dois dias. Diante da falta de notícias, seus pais comunicaram seu desaparecimento.
Para evitar problemas, Blaszczyk acabou afirmando que havia sido atraído para uma armadilha por um judeu e mantido em cativeiro num porão com outras crianças polonesas.
Depois que seu pai relatou o incidente à delegacia mais próxima, o menino saiu com policiais e identificou um homem judeu — morador da casa na Rua Planty — como o suposto sequestrador. A criança chegou a apontar a "Casa dos Judeus" como o local onde teria sido mantida em cativeiro, embora mais tarde tenha ficado explicito que isso não poderia ser verdade. A casa não possuia um porão.
No mesmo dia, uma segunda onda de violência eclodiu no início da tarde, depois que o boato sobre o assassinato de crianças chegou aos trabalhadores da metalúrgica Ludwikow, em Kielce. Centenas de trabalhadores então se juntaram à turba, armados com suas ferramentas.
A violência se espalhou também para outras partes da cidade. Judeus que estavam na estação ferroviária ou em trens também foram atacados. E foi somente no final da tarde, quando mais soldados foram convocados para conter a violência, que as mortes e as agressões cessaram e os sobreviventes foram levados para um local seguro.
Quantas pessoas morreram?
O número exato de mortes não é claro. O Instituto da Memória Nacional da Polônia aponta que 37 judeus morreram naquele dia. Segundo o instituto, três católicos poloneses — incluindo o zelador da casa na Rua Planty — também morreram, após tentarem defender os judeus atacados.
Por sua vez, o Museu da História dos Judeus Poloneses, em Varsóvia, afirma que "pelo menos 40 judeus foram mortos no pogrom, juntamente com dois poloneses que tentaram defendê-los".
O museu ressalta que o pogrom provocou "um pânico generalizado" na comunidade judaica remanescente da Polônia, alimentando uma onda de emigração que levou cerca de 100 mil pessoas a deixar o país, inclusive rumo à Alemanha.
Historiadores poloneses afirmam que o massacre de Kielce não foi um incidente isolado. Após a libertação do país do domínio nazista, eclodiram vários tumultos antissemitas, inclusive em Cracóvia. Em quase todos esses casos, a violência foi desencadeada por boato de que crianças cristãs haviam sido assassinadas por judeus, os chamados libelos de sangue, uma mentira antissemita que remonta à antiguidade e que envolve suspeitar que judeus costumam assassinar crianças não judias para usarem o sangue das vítimas sacrificadas em rituais religiosos.
O historiador Julian Kwiek documentou cerca de 1.100 assassinatos de judeus na Polônia entre 1944 e o final de 1947 em áreas que não estavam mais sob jugo nazista. "A violência contra os judeus era um fenômeno generalizado", escreve Kwiek em seu livro "Não Queremos Judeus em Nosso lugar: A Hostilidade em Relação aos Judeus (1944-1947)".
A pesquisadora Joanna Tokarska-Bakir afirma que o mito do "libelo de sangue" se espalhou após a Segunda Guerra Mundial e que isso foi uma das principais causas dos diversos pogroms. No entanto, ela acrescenta que disputas por propriedades também alimentavam a antipatia em relação aos judeus, que retornavam para casa após a guerra e queriam recuperar suas casas e apartamentos, que em vários passaram a ser ocupados por poloneses cristãos.
"Isso encontrou resistência por parte dos novos proprietários poloneses, que em vários casos já viviam no local há anos e consideravam os bens como sua propriedade", disse a pesquisadora durante um debate no Museu da História dos Judeus Poloneses, no final de junho de 2026.
Julgamentos
Na época, do massacre, em 1946, as autoridades comunistas — que haviam perdido o controle da cidade por algumas horas — tentaram retomar o controle da situação realizando um julgamento às pressas. Pouco menos de uma semana após o pogrom, nove réus foram considerados culpados, condenados à morte e executados.
Durante muitos anos, o pogrom de Kielce foi um assunto praticamente tabu. A censura imposta pelas autoridades comunistas impediu a realização de pesquisas significativas ou a publicação de qualquer material sobre o tema até a queda do regime em 1989.
No entanto, em anos mais recentes, o Instituto da Memória Nacional não encontrou evidências que sustentassem a teoria de que o pogrom de Kielce teria sido provocado por agências de inteligência comunistas ou soviéticas, tendo encerrado a investigação sobre o massacre em 2006. Os pesquisadores do instituto concluíram que o pogrom foi resultado de uma espécie de "reação espontânea" da multidão, alimentada por preconceitos preexistentes.
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