O drama da bolsa de pesquisa sem reajuste: muito além da carta entregue a Lula
Co-autor da carta entregue a Lula relata o drama de viver com a bolsa para doutorado-sanduíche, cujo valor está congelado desde 2009.
A Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada ininterruptamente desde 1949, se tornou o maior evento científico da América Latina e um dos principais fóruns de debate de política científica do país.
No dia 28 de julho de 2026, durante a 78ª Reunião Anual da SBPC em Niterói, entreguei ao Presidente Lula uma carta escrita coletivamente por estudantes aprovados no Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE) do governo federal.
Sou também um dos signatários da carta e, a partir de setembro, inicio atividades na Tsinghua University, na China. No total, mais de 2.500 doutorandos irão ao exterior no segundo semestre de 2026 por meio desse programa.
A demanda dos bolsistas é clara. A bolsa mensal oferecida pelo governo brasileiro está fixada em 1.300 dólares, patamar que remonta ao ano de 2009. São dezessete anos sem reajuste, enquanto o custo de vida nas cidades de destino segue outra trajetória.
Em destinos como os Estados Unidos, França e Austrália, algumas universidades exigem comprovação de recursos mínimos para emitir os documentos migratórios e em diversos casos o valor da bolsa fica abaixo desse mínimo.
Para superar essa defasagem, há relatos de bolsistas que precisam utilizar economias pessoais, empréstimos e vaquinhas.
Lula subiu ao palco com a carta na mão e, ao encerrar seu discurso para a comunidade científica, pressionou os seus ministros para que o reajuste fosse resolvido.
Mobilidade acadêmica internacional como política pública
O Programa de Doutorado-sanduíche no Exterior (PDSE) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) é uma das políticas de internacionalização do Ministério da Educação e permite que doutorandos matriculados em programas de pós-graduação desenvolvam parte de suas pesquisas em uma instituição estrangeira, com a obrigação de retornar e concluir a tese no Brasil.
O programa não distribui bolsas por mérito individual isolado. As vagas são alocadas aos programas de pós-graduação mais bem avaliados do país. E o desenho é o de uma política pública, voltada a fortalecer a pós-graduação brasileira como sistema, e não apenas a trajetória de quem embarca.
A evidência disponível sustenta esse desenho. Levantamentos que analisaram dezenas de milhões de artigos científicos publicados no mundo encontraram um padrão consistente.
As publicações científicas assinadas conjuntamente por autores de países diferentes tendem a ser mais citadas, ou seja, a circular mais e influenciar mais trabalhos do que as produzidas apenas dentro de um mesmo país.
O efeito aparece em áreas distintas e se mantém ao longo do tempo, das ciências naturais e da saúde às ciências sociais e humanidades. Colaborar através das fronteiras contribui para a formação de pesquisadores e faz o conhecimento ganhar mais circulação.
O que outros países fazem
O programa Fulbright, criado pelos Estados Unidos em 1946, no rescaldo da Segunda Guerra, foi concebido como instrumento de relações internacionais por meio do intercâmbio acadêmico.
Seus ex-bolsistas incluem 63 laureados com o Prêmio Nobel, 98 vencedores do Prêmio Pulitzer e 44 chefes de Estado ou de governo, atuais ou antigos. O programa opera hoje com mais de 160 países, inclusive no Brasil em parceria com o Ministério da Educação.
Na Europa, o Erasmus segue lógica semelhante. Criado em 1987, já ultrapassou 16 milhões de participantes e é reconhecido como um dos mecanismos que sustentaram a integração da União Europeia.
Um traço comum entre os dois programas é a continuidade. São iniciativas que atravessaram décadas, governos e crises econômicas, com mecanismos de atualização e legitimidade que os mantiveram funcionais ao longo do tempo.
É ainda importante compreender que, para além de políticas educacionais, investimentos em programas de mobilidade acadêmica internacional também podem ser instrumentos de diplomacia estratégica moderna.
A experiência brasileira
O processo de internacionalização da ciência brasileira começou a se estruturar na década de 1950 com a criação da CAPES e do CNPq, que são as agências de fomento vinculadas ao Ministério da Educação e ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, respectivamente.
A cooperação internacional seguiu presente nas décadas seguintes. Em 1979 a CAPES firmou o CAPES/Cofecub, seu primeiro acordo de cooperação internacional, com a França, vigente até hoje. Atualmente a agência mantém dezenas de programas bilaterais com 22 países, além de iniciativas multinacionais.
A maior aposta veio em 2011, quando o Brasil criou o programa Ciência sem Fronteiras (CsF). Entre 2012 e 2016, o Ciência sem Fronteiras concedeu mais de 100 mil bolsas para estudantes e pesquisadores irem ao exterior, com investimento aproximado de R$ 13 bilhões.
Esses números caracterizam o maior programa de internacionalização da história da ciência brasileira, pelo qual eu também fui bolsista nos Estados Unidos em 2012.
O programa CsF também recebeu críticas, como a concentração em bolsas de graduação, a ausência de avaliação estruturada de impacto e o desequilíbrio entre o envio de brasileiros e a atração de pesquisadores estrangeiros.
Ainda assim, os picos históricos de investimento brasileiro em ciência e tecnologia coincidem com aquele período. Por questões políticas e econômicas, o programa foi descontinuado em 2017.
O que veio depois foi uma regressão na escala. Sem um programa de grande porte, a ida de pesquisadores brasileiros ao exterior passou a depender de iniciativas menores, entre elas o próprio PDSE.
O que está em jogo
O tema escolhido para a edição deste ano da Reunião Anual da SBPC é "Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão". Isso dialoga diretamente com o argumento central da carta dos bolsistas de doutorado sanduíche no exterior, de que formar cientistas é uma questão de soberania nacional.
De forma mais ampla, os investimentos em ciência, tecnologia e inovação são ativos estratégicos para o desenvolvimento de qualquer país.
Num momento de crescente disputa tecnológica, científica e econômica entre Estados Unidos e China, o Brasil ocupa uma posição peculiar. A China é hoje o nosso maior parceiro comercial, enquanto os Estados Unidos seguem como o nosso maior parceiro científico.
Nesse contexto, formar pesquisadores e profissionais capazes de transitar entre esses polos, e também em outras regiões, é um dos elementos que permitirão ao Brasil preservar autonomia para escolher com quem coopera e em que termos.
Dos pedidos apresentados na carta entregue ao Presidente Lula, o mais urgente é o mais direto, que é recompor o valor da bolsa de doutorado sanduíche no exterior, parado desde 2009. Mas há um problema de fundo e mais antigo.
O Brasil ainda não conseguiu estabelecer uma política estável e de longo prazo para a área de ciência, tecnologia e inovação. Formar pesquisadores é um investimento de retorno lento e difuso, que raramente aparece no ciclo eleitoral.
Dezessete anos sem reajuste dizem menos sobre restrição orçamentária e mais sobre o lugar que a atividade científica ocupa nas prioridades do país.
Guilherme Rosso recebe bolsa de doutorado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
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