Novas terapias apresentam dados positivos para tratamento de câncer de pulmão
Clarissa Baldotto, oncologista especialista em câncer torácico, destacou que estas representam duas novas abordagens terapêuticas que se somam às estratégias de quimioterapia e imunoterapia no tratamento da doença
Resultados de pesquisa demonstram o potencial de novas terapias com medicamentos no tratamento de câncer de pulmão de não pequenas células em estágio avançado. Os dados foram apresentados durante a 41ª Conferência da Sociedade Europeia de Medicina Oncológica (ESMO), realizada em Berlim, Alemanha. As novas classes de agentes incluem os anticorpos bispecíficos e os conjugados. O tipo de tumor em questão representa a maioria das neoplasias malignas do pulmão e constitui a principal causa de mortalidade por câncer em homens no Brasil, sendo a segunda em mulheres.
Clarissa Baldotto, oncologista especialista em câncer torácico, destacou que estas representam duas novas abordagens terapêuticas que se somam às estratégias de quimioterapia e imunoterapia no tratamento da doença.
Os anticorpos bispecíficos são proteínas desenvolvidas em laboratório que replicam a função dos anticorpos naturais do organismo. A característica "bispecífica" decorre da capacidade dessas moléculas se ligarem simultaneamente a dois antígenos. Em algumas versões, uma extremidade se conecta às células cancerígenas e a outra, às células do sistema imunológico. Essa conexão facilita a detecção e a destruição do tumor pelo sistema imune.
O estudo de fase III HARMONi-6 avaliou a eficácia de dois medicamentos em combinação com a quimioterapia para o tratamento do carcinoma escamoso de pulmão. Este subtipo de tumor está frequentemente associado ao tabagismo e responde por 40% dos casos da doença, sendo considerado de tratamento desafiador devido às alternativas terapêuticas limitadas.
A pesquisa comparou o uso de um novo agente, o anticorpo bispecífico Ivonesimab, com o imunoterápico Tislelizumabe, atualmente considerado o padrão de tratamento. Ambos foram administrados em combinação com a quimioterapia. O estudo incluiu 532 pacientes, divididos em dois grupos iguais. A combinação de Ivonesimab com quimioterapia resultou em uma redução de 40% no risco de evolução (progressão ou crescimento) do tumor em comparação com o grupo que recebeu imunoterapia e quimioterapia.
A progressão livre da doença (PFS) no grupo do anticorpo bispecífico foi de 11,1 meses, enquanto no grupo da imunoterapia foi de 6,9 meses. A PFS é a métrica que mensura o período em que o medicamento conseguiu manter o tumor sob controle, seja por redução de tamanho ou estagnação, indicando o momento de necessidade de alteração na medicação.
Outro estudo, o OptiTROP-Lung04, focou no câncer de não pequenas células de pulmão com mutação de EGFR. Este é um tipo menos frequente de câncer, habitualmente tratado com terapia-alvo, mas com resultados de controle limitados e quimioterapia com eficácia insatisfatória. A pesquisa avaliou a eficácia e a segurança do anticorpo conjugado Sacituzumabe tirumotecano em comparação com a quimioterapia à base de platina.
O medicamento Sacituzumabe tirumotecano é uma forma de terapia que age atacando e destruindo as células cancerígenas. Ele se liga à proteína TROP-2, presente na superfície de diversas células cancerosas, e direciona um agente de quimioterapia diretamente ao tumor, o que reduz o dano às células não tumorais. Os pesquisadores demonstraram que este medicamento melhora o controle da doença, resultando em maior tempo de sobrevida dos pacientes.
O estudo incluiu 376 pacientes, divididos igualmente entre o novo tratamento e a quimioterapia. Em um período de 18,9 meses de acompanhamento, a progressão livre da doença foi de 8,3 meses no grupo que recebeu o novo medicamento, em contraste com 4,3 meses nos pacientes submetidos à quimioterapia.