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No fogo cruzado há quatro anos, Kherson, na Ucrânia, vive seis dias de paz

4 nov 2026 - 15h07
(atualizado às 15h09)
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Resumo
Após quase quatro anos sob bombardeios diários, a cidade ucraniana de Kherson viveu uma rara trégua de seis dias devido a um cessar-fogo para evacuação de civis. Os cerca de 75 mil moradores aproveitaram o alívio temporário para fazer compras e reparar serviços essenciais, embora sob constante desconfiança. As autoridades alertaram que a Rússia usou a pausa para reforçar tropas e posições na região. Com o fim do prazo, os ataques de drones russos recomeçaram, deixando novas vítimas.

A DW esteve em Kherson durante o cessar-fogo para a evacuação de civis de Oleshky, cidade ocupada pelos russos na margem oposta do rio Dnipro.Os moradores de Kherson, no sul da Ucrânia, não descansavam há mais de 1.400 dias. A cidade, que chegou a ser ocupada por tropas russas no início da invasão em larga escala, em fevereiro de 2022, foi bombardeada quase diariamente pelo Exército russo desde a retomada por tropas ucranianas em novembro daquele mesmo ano.

Kherson vive há cerca de quatro anos sob bombardeios russos
Kherson vive há cerca de quatro anos sob bombardeios russos
Foto: DW / Deutsche Welle

Desde então, a população resistiu a bombas aéreas, minas antipessoais e ataques de drones de combate. Só entre maio e outubro deste ano, essas agressões deixaram 167 mortos e 2.215 feridos, segundo a administração militar ucraniana local.

Na semana passada, os russos interromperam brevemente os bombardeios, após um cessar-fogo acordado para a evacuação de civis de Oleshky, na margem oposta do Dnipro.

O repórter Igor Burdyga da DW, natural de Kherson, esteve na cidade para acompanhar como a população reagiu à trégua de seis dias. Muitos estavam desconfiados — ninguém acreditava que a paz duraria muito tempo.

Caminhos difíceis para fazer compras

Desde o outono de 2024, os constantes ataques de drones russos são a maior ameaça para Kherson e os vilarejos vizinhos. Atualmente, cerca de 75 mil pessoas vivem na região.

Em agosto, as ruas dos bairros do norte da cidade, até então fora do alcance dos drones russos leves, também passaram a ser cobertas por redes de proteção. Os demais bairros às margens do Dnipro são considerados há muito tempo uma zona de morte.

Passando por prédios residenciais carbonizados, edifícios históricos danificados e propriedades particulares destruídas, a reportagem da DW caminhava cautelosamente por uma rua quando avistou um homem idoso empurrando um carrinho de compras.

Andriy conta que voltava das compras no centro de Kherson e seguia para Antonivka, uma localidade às margens do Dnipro, diretamente em frente a Oleshky. Ainda precisava percorrer oito quilômetros.

"Estou feliz que agora possamos usar o caminho direto e não trilhas no meio da lama até os joelhos", diz ele. "Vivemos em condições difíceis, sem eletricidade nem água. As pessoas coletam água da chuva porque não conseguem chegar à margem do rio."

Em 2023, todas as tentativas de reparar o abastecimento de água e a rede elétrica foram abandonadas.

Andriy diz que sua casa "ainda está de pé". E que já não pensa mais em deixar a cidade, assim como muitas pessoas que a DW encontrou pelo caminho.

"Para quê?", pergunta Volodymyr, juntando-se à conversa. Ele e três mulheres idosas vivem em prédios de cinco andares que, por milagre, ainda permanecem de pé.

"Como vou sobreviver em uma cidade desconhecida com 2 mil hryvnias (cerca de R$ 245) de auxílio para reassentamento? Aqui eu tenho meu apartamento, e minha irmã em Kyiv paga as contas", afirma o homem, que já sobreviveu a várias explosões de bombas.

Oportunidade para reparos urgentes

Explosões podem ser ouvidas ao longe. Militares afirmam que se trata da contínua remoção de minas nas duas margens do Dnipro. Desde o início do cessar-fogo, as autoridades alertam constantemente para o elevado risco de minas terrestres.

Nas últimas semanas, drones russos espalharam grandes quantidades de minas antipessoais pela região de Kherson.

Meu amigo de escola Maksym me enviou uma foto dessas minas camufladas. Segundo ele, elas contêm TNT e eu deveria ter cuidado por onde piso. Maksym trabalha para a companhia regional de energia e está extremamente ocupado.

Equipes inteiras de eletricistas voltaram a fazer reparos em vilarejos que não visitavam havia anos. Ele próprio está transportando às pressas equipamentos remanescentes de um depósito localizado no caminho para Antonivka.

Outros serviços municipais também trabalham sem parar. Eles consertam sistemas de abastecimento de água, instalam novos abrigos antiaéreos, podam as rosas na praça diante do prédio destruído da administração regional e recolhem as folhas de outono das ruas.

Exército russo aproveita o cessar-fogo

A Rua da Paz, onde há um mercado dos dois lados, está coberta por redes. Nelas acumulam-se pilhas de folhas douradas do outono. Tetiana, que mora nas proximidades e vende pizza, diz que a cena é bonita, mas o mais importante é que tanto o mercado quanto as casas vizinhas ficam protegidos dos drones.

Depois de vender toda a mercadoria, ela conversa com uma amiga que trouxe produtos lácteos da vizinha região de Mykolaiv.

Tetiana tem um cachorro chamado Leontchyk, com quem ela posa para a reportagem.

"Quando um drone se aproxima, ele olha para mim como se perguntasse o que deve fazer: fugir ou se esconder? Às vezes late para o drone da varanda. Há dois ou três meses, carros pegavam fogo todos os dias por aqui. Mas esta é a minha cidade. Nasci aqui e vivo aqui", conta.

Barracas de creme azedo, frutas, carne, roupas esportivas e carrinhos de compras ocupam as calçadas. Os moradores passeiam entre elas como faziam antes da guerra.

"As pessoas saíram de casa e os carros voltaram a circular. Antes, tudo era feito às pressas", conta Oleksandra, que veio à cidade com a filha para visitar a avó. "Gostaria que continuasse assim, mas todos têm medo de que o cessar-fogo termine e a situação volte a ficar realmente terrível."

Esse também é o temor de autoridades locais e de militares. Segundo eles, as tropas russas aproveitaram o cessar-fogo para transferir mais soldados, munições e equipamentos para a margem esquerda do Dnipro.

O canal no Telegram "De Mariupol aos Cárpatos", associado à unidade russa de drones "Eskadron" na margem esquerda do rio, alimenta esses receios e faz ameaças.

"Os civis devem deixar Kherson até a meia-noite. O cessar-fogo vale apenas até nova ordem", escreveram os administradores do canal após o término da evacuação em Oleshky.

Viagens de ônibus e táxi continuam arriscadas

O ônibus da linha 20, que antes cruzava toda a cidade a partir do bairro onde eu morava, hoje percorre pouco mais da metade do trajeto original.

O motorista Yevhen não se arrisca a entrar nos bairros à beira do rio, embora atualmente não haja bombardeios. O transporte público foi um dos principais alvos dos ataques russos.

A maioria dos moradores desses bairros fugiu após os ataques aéreos russos em meados deste ano. Muitos aproveitam agora o cessar-fogo para verificar o estado de suas casas.

Segundo relatos em redes sociais, taxistas chegam a cobrar até 10 mil hryvnias (cerca de R$ 1.230) por uma viagem até essas áreas consideradas perigosas.

Do outro lado da cidade, em um conjunto habitacional, Olya Chorna, conhecida por todos como "tia Olya", recebe pedidos para os chamados táxis sociais.

Todos os dias, cerca de uma dúzia de veículos de organizações beneficentes locais e da prefeitura transportam gratuitamente idosos para hospitais e repartições públicas.

As ligações não param de chegar. Em outubro, os táxis sociais realizaram mais de 460 atendimentos, além de retirar 110 pessoas das chamadas "zonas vermelhas" da cidade.

Segundo Oleksandr Honchar, da fundação "Forte porque Livre", cerca de dois terços da população de Kherson é considerada vulnerável, especialmente aposentados.

Autoridades alertam para o fim do cessar-fogo

Seguimos um táxi social até um dos hospitais municipais, onde a idosa Lidia Mykhailivna, de 90 anos, seria buscada.

Dez dias antes, as janelas de seu apartamento foram destruídas por uma explosão de artilharia próxima.

"Passei mal, fiquei surda, cega por um momento, mas agora estou melhor. Já é a terceira vez", diz em voz baixa.

Ela e um vizinho são os únicos que restaram em um bloco de prédios de dois andares. As demais casas estão vazias, com as janelas fechadas por placas de madeira.

Nos primeiros anos da guerra, Lidia cuidou do marido doente. Agora, diz que é tarde demais para ir embora e não tem mais ninguém a quem recorrer. Sua única bisneta vive no exterior.

"É assustador, doloroso e amargo", afirma, ao descrever sua vida solitária em tempos de guerra.

Durante o cessar-fogo, ela tentou aproveitar cada momento para caminhar ao ar livre.

As autoridades regionais pediram aos moradores que redobrassem a atenção após o fim da trégua. Os alertas sobre drones voltaram na segunda-feira (02/11), tão logo o dia raiou na região de Kherson — assim como as notícias de vítimas dos primeiros ataques russos.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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