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Aos 80 anos, Unesco enfrenta guerras que transformam patrimônio cultural em alvo estratégico

Criada após a Segunda Guerra Mundial, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) chega aos 80 anos diante de uma realidade que seus fundadores esperavam evitar. Em diferentes regiões do planeta, conflitos armados voltaram a atingir não apenas populações civis, mas também monumentos, sítios históricos, acervos religiosos e bens culturais que representam séculos, às vezes milênios, de história.

4 nov 2026 - 15h11
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Resumo
Aos 80 anos, a Unesco alerta que a destruição do patrimônio cultural tornou-se um alvo estratégico deliberado em conflitos como na Ucrânia, Gaza, Síria e Líbano, visando apagar identidades e laços sociais. Embora tratados internacionais como a Convenção de Haia busquem salvaguardar esses sítios vitais para a reconstrução comunitária, a punição aos agressores permanece rara por falta de vontade política e limites jurídicos, mantendo o desafio histórico da agência em proteger a memória coletiva.

Anne Bernas, da RFI em Paris

À primeira vista, a preservação do patrimônio cultural pode parecer uma preocupação secundária diante dos massacres, dos deslocamentos forçados e das crises humanitárias que marcam conflitos atuais na Palestina, no Sudão, no Iêmen e em outras regiões. Para a própria Unesco, porém, proteger bens culturais também significa preservar identidades, histórias e vínculos que ajudam comunidades a se reconhecerem e a se reconstruírem depois da violência.

"As culturas não existem necessariamente dentro das fronteiras dos países. Sempre houve intercâmbios, interações e influências mútuas nos quatro cantos do mundo. A cultura não deve ser usada para fins políticos", afirma Krista Pikkat, diretora da área de Cultura e Situações de Emergência da Unesco.

A preocupação da organização aumentou à medida que especialistas passaram a observar que a destruição do patrimônio cultural deixou de ser apenas uma consequência da guerra para se tornar, em muitos casos, um objetivo dos próprios conflitos.

Embora monumentos e edifícios históricos continuem a ser atingidos por bombardeios e combates, pesquisadores e organismos internacionais apontam que ataques deliberados contra lugares culturais, religiosos e históricos se tornaram mais frequentes nas últimas décadas.

O fenômeno ganhou projeção internacional durante os conflitos que acompanharam a desintegração da antiga Iugoslávia. Na Bósnia, ataques contra mesquitas, igrejas, bibliotecas e monumentos históricos passaram a ser analisados como parte de campanhas mais amplas de perseguição e deslocamento de populações.

A pesquisadora Helen Walasek, estudiosa da destruição do patrimônio durante a guerra da Bósnia, argumentou que esses episódios não deveriam ser tratados como acontecimentos paralelos à violência contra civis.

"Não devemos considerar a destruição isoladamente como um fenômeno curiosamente distinto das demais atrocidades. Pelo contrário, a destruição fazia parte inseparável da limpeza étnica durante a guerra da Bósnia e constituía um dos principais objetivos daqueles que conduziam o conflito", escreveu Walasek em 2019.

Monumentos transformados em alvos

Os primeiros anos do século 21 acumulam exemplos que ajudaram a transformar a proteção do patrimônio em uma das principais bandeiras da Unesco. Em 2001, os Budas de Bamiyan, no Afeganistão, foram destruídos pelos talibãs. Esculpidas em penhascos da região central do país, as duas estátuas monumentais eram consideradas uma das mais importantes heranças culturais da Ásia.

Dois anos depois, a guerra no Iraque provocou outro choque para a comunidade internacional. Durante a invasão liderada pelos Estados Unidos e a queda do regime de Saddam Hussein, o Museu Nacional do Iraque, em Bagdá, foi saqueado. Milhares de peças desapareceram ou foram danificadas, atingindo um dos mais importantes acervos arqueológicos do mundo.

Em 2012, o alvo passou a ser Tombuctu, no Mali. Grupos jihadistas destruíram mausoléus históricos da cidade, considerada durante séculos um dos principais centros religiosos e intelectuais da África.

Naquele contexto, a então diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, procurou destacar o papel da cultura na reconstrução das sociedades afetadas pela violência. "A cultura é a última energia renovável", afirmou ao jornal francês Le Monde. "Quando todo o resto é destruído, é ela que dá a um povo a força para se reconstruir."

Bokova também argumentou que os responsáveis pela destruição de monumentos históricos sabem exatamente o significado simbólico de seus atos. "Aqueles que atacam os mausoléus de Tombuctu, assim como os talibãs que destruíram os Budas de Bamiyan em 2001, sabem exatamente onde atingir: no coração das identidades. Devemos ter a profunda convicção de que jamais devemos permitir isso."

Da Síria à Faixa de Gaza

A destruição da cidade antiga de Palmira, na Síria, tornou-se outro marco dessa discussão. Em 2015, combatentes do grupo Estado Islâmico lançaram uma ofensiva contra um dos sítios arqueológicos mais conhecidos do Oriente Médio. Templos, arcos monumentais e estruturas históricas construídas ao longo de séculos foram destruídos ou danificados.

Os anos seguintes mostraram que o fenômeno estava longe de se restringir à Síria. Desde fevereiro de 2022, a guerra na Ucrânia atingiu centenas de bens culturais. Museus, igrejas, bibliotecas, centros culturais e edifícios históricos foram danificados em cidades como Kiev, Odessa e Kharkiv.

Desde 2023, a Faixa de Gaza passou a concentrar parte das preocupações da Unesco e de organizações dedicadas à preservação patrimonial. Segundo os dados citados na reportagem, mais de 70% dos sítios históricos ou culturais do território foram destruídos ou sofreram danos.

Entre eles está a Grande Mesquita Al-Omari, um edifício cuja trajetória sintetiza séculos de transformações da região. Ao longo da história, o local foi templo egípcio, igreja bizantina, mesquita dos primeiros séculos do islamismo, catedral durante o período das Cruzadas e novamente mesquita.

Para especialistas em patrimônio, a destruição de locais como esse ultrapassa a dimensão arquitetônica. Significa também a perda de referências históricas compartilhadas por sucessivas gerações.

Uma corporação de pedreiros do Mali ficou encarregada de reconstruir os mausoléus de Tombuctu, inscritos na lista do Patrimônio Mundial da Unesco.
Uma corporação de pedreiros do Mali ficou encarregada de reconstruir os mausoléus de Tombuctu, inscritos na lista do Patrimônio Mundial da Unesco.
Foto: RFI

Líbano e Irã ampliam a lista de áreas ameaçadas

A preocupação da Unesco também alcançou o Líbano. Ataques israelenses atingiram áreas próximas dos vestígios romanos de Baalbek e das ruínas de Tiro, antiga cidade fenícia que conserva importantes testemunhos de diferentes períodos históricos.

Diante dos riscos, a organização decidiu colocar, em novembro de 2024, 34 sítios culturais libaneses sob um regime de proteção reforçada provisória.

Mais recentemente, os confrontos envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos passaram a gerar preocupações semelhantes. Segundo o texto, locais históricos iranianos vêm sendo atingidos desde o agravamento das tensões militares. Entre eles está o Palácio de Golestan, um dos mais conhecidos conjuntos monumentais de Teerã.

Krista Pikkat afirma que o significado cultural desses locais ajuda a explicar por que eles se tornam alvos. "Observamos, de fato, ataques motivados pelo significado cultural do patrimônio, talvez para intimidar uma comunidade, fragilizar os laços sociais ou até mesmo apagar os vestígios da presença de comunidades em seu território e na história desse território", afirma.

Como surgiu a proteção internacional ao patrimônio

A preocupação internacional com a preservação do patrimônio ganhou força justamente após a Segunda Guerra Mundial. Foi nesse contexto que nasceu a Unesco. A frase que abre seu ato constitutivo continua sendo uma das sínteses mais conhecidas da missão da organização. Ela foi pronunciada pelo então primeiro-ministro britânico Clement Attlee:

"Como as guerras nascem na mente dos homens, é na mente dos homens que devem ser erguidas as defesas da paz."

O documento entrou em vigor em 4 de novembro de 1946. Segundo Krista Pikkat, a destruição de patrimônio acompanha os conflitos desde a Antiguidade, mas a experiência acumulada ao longo do século XX levou a comunidade internacional a criar mecanismos específicos de proteção.

"Durante toda a história da humanidade, o patrimônio cultural foi destruído em situações de guerra", afirma. "Essa é também uma das razões pelas quais a Unesco adotou em 1954 a Convenção de Haia para a Proteção dos Bens Culturais em Caso de Conflito Armado."

O tratado foi seguido pela Convenção do Patrimônio Mundial, aprovada em 1972, que criou o sistema internacional de reconhecimento e proteção de sítios considerados de valor universal excepcional.

Convenções existem, mas punições são raras

Os conflitos das décadas de 1980 e 1990 levaram à criação de novos instrumentos jurídicos. Em 1999, foi adotado o Segundo Protocolo da Convenção de Haia, concebido para reforçar a proteção dos bens culturais e ampliar os mecanismos de responsabilização.

O texto prevê que os países incorporem esses compromissos às suas legislações nacionais e promovam treinamento adequado para suas Forças Armadas. Ele também estabelece a possibilidade de responsabilização de autores de ataques contra patrimônios culturais em tribunais internacionais.

A Unesco dispõe ainda de medidas preventivas. Sítios protegidos podem receber identificação específica e suas coordenadas geográficas são transmitidas às partes envolvidas nos conflitos desde o início das hostilidades. "Cabe realmente aos Estados essa responsabilidade", afirma Krista Pikkat.

"Ao incorporar as cláusulas das convenções à sua legislação, os Estados assumem a responsabilidade de implementar medidas concretas para proteger seu patrimônio, organizar treinamentos e, em caso de violação dessas leis, processar os responsáveis nos tribunais nacionais e internacionais", afirma.

Apesar disso, a responsabilização continua limitada. Embora as evidências de destruição de patrimônio se acumulem em diferentes conflitos, nenhum Estado jamais foi julgado por destruição e saque de patrimônio cultural.

"O obstáculo é a competência jurisdicional e a vontade política", afirmou o pesquisador Bijan Rouhani, especialista do projeto Arqueologia Ameaçada no Oriente Médio e Norte da África, em entrevista à BBC no ano passado.

Destruições provocadas pelo grupo Estado Islâmico na antiga cidade de Palmira. Abril de 2016.
Destruições provocadas pelo grupo Estado Islâmico na antiga cidade de Palmira. Abril de 2016.
Foto: RFI

Reconstruir cidades exige reconstruir vínculos

Ao longo dos últimos anos, a proteção do patrimônio passou a ser cada vez mais associada à defesa dos direitos humanos. Para a Unesco, quando uma comunidade perde o acesso a seus locais históricos, religiosos e culturais, também vê seus direitos culturais afetados.

"Está muito claro que, quando uma comunidade perde o acesso aos seus sítios religiosos, espirituais, culturais e históricos, seus direitos culturais também são impactados", afirma Krista Pikkat.

Essa visão orienta diversos programas de reconstrução conduzidos pela organização. Um dos exemplos mais frequentemente citados é o de Mossul, no Iraque. A experiência mostrou que restaurar monumentos e edifícios históricos não é suficiente para recuperar uma cidade devastada pela guerra.

"Em Mossul, vimos que, para reabilitar uma cidade, não bastava reabilitar edifícios, mesquitas, igrejas ou casas históricas", afirma Pikkat. "Também era preciso reabilitar o espírito. Edifícios sem as comunidades que mantêm uma relação com o patrimônio são cidades vazias", ressalta.

O desafio da Unesco aos 80 anos continua sendo o mesmo que inspirou sua criação em 1946: impedir que as guerras destruam não apenas vidas humanas, mas também as memórias, as referências culturais e os laços históricos que permitem a comunidades inteiras reconstruir o futuro depois da violência.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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