Script = https://s1.trrsf.com/update-1790713512/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

Não foi só o algoritmo: as ruas também determinaram a virada do segundo turno

O segundo turno de 2026 foi marcado por inúmeros atos de pequenos grupos e por grandes mobilizações que reuniram diferentes gerações. Ignorá-los é entender pela metade o que mudou entre os dois turnos

2 nov 2026 - 09h44
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
A virada de Lula no segundo turno de 2026 não se deveu apenas à estratégia digital, mas à intensa mobilização social nas ruas. Iniciado por estudantes e expandido por diversos coletivos culturais, esportivos e religiosos, o engajamento rompeu a apatia do primeiro turno. Essa reação aproveitou redes de convivência prévias e laços cotidianos de confiança, mostrando que a capilaridade territorial e a ação coletiva orgânica foram tão determinantes quanto os algoritmos para o resultado eleitoral.

Toda eleição disputada termina com uma disputa sobre o seu significado. A de 2026 não foi diferente: mal as urnas foram apuradas, ganhou força a interpretação de que a virada de Lula no segundo turno se deveu sobretudo à operação de comunicação digital, com destaque para o chamado Exército do Lula. É uma explicação atraente, porque se apoia no que é mais fácil de medir: alcance de mensagens, engajamento nas plataformas, votos por seção. Mas, quando o conflito extravasa a urna, ele não transborda apenas para as telas. Ocupa também as ruas, os bairros e as redes de convivência em que as pessoas conversam, se reconhecem e decidem agir juntas.

Essa dimensão é menos visível nos dados, mas isso não a torna menos real. O segundo turno de 2026 foi marcado por inúmeros atos de pequenos grupos e por grandes mobilizações que reuniram diferentes gerações. Ignorá-los é entender pela metade o que mudou entre os dois turnos.

Dinâmica que atravessa os três últimos ciclos eleitorais

As ruas cheias de 2026 são mais um capítulo de uma dinâmica que atravessa os três últimos ciclos eleitorais. Há semelhanças com as eleições de 2018 e 2022: em todas, a disputa foi fortemente polarizada, com a extrema direita ocupando uma posição competitiva. Em eleições como essas, o que está em jogo vai muito além da escolha entre candidatos e projetos de governo. Quando os eleitores percebem a vitória do adversário como uma ameaça a direitos e a valores que consideram fundamentais, a derrota assume um significado existencial. Essa percepção intensifica o conflito e favorece seu transbordamento para as ruas, deslocando a disputa para além dos espaços e dos procedimentos institucionais da competição eleitoral.

Em 2018, as mobilizações anteciparam o calendário eleitoral. Ainda no primeiro semestre, manifestantes foram às ruas contra e a favor da prisão de Lula e, mais adiante, para contestar ou apoiar sua candidatura. Durante a campanha, as marchas de mulheres sob a marca #EleNão reuniram diferentes atores progressistas contra Jair Bolsonaro. Do outro lado, seus apoiadores também ocuparam as ruas. A facada sofrida por Bolsonaro durante a campanha acrescentou uma dimensão dramática à disputa, reforçando a identificação de seus seguidores com o candidato, celebrado como "mito" nas motociatas pelo Brasil afora.

Em 2022, as próprias campanhas promoveram mobilizações para ganhar força. Novamente, a extrema direita incentivou protestos que difundiam o questionamento às urnas eletrônicas; a esquerda organizou abaixo-assinados e atos que selaram amplos acordos em defesa da democracia. Após o resultado, protestos da extrema direita diante dos quartéis se estenderam até a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. A derrota do movimento golpista e as respostas institucionais que se seguiram contribuíram para alterar as condições de mobilização das direitas e para arrefecer seu ciclo de protestos.

Em 2026, as condições que haviam levado o conflito eleitoral às ruas nos dois ciclos anteriores estavam novamente presentes. Ainda assim, o primeiro turno foi marcado por uma campanha morna. A disputa transcorria sobretudo nos espaços institucionais, entre partidos, candidatos e suas estruturas de campanha, sem provocar mobilização social expressiva. Foi no segundo turno que esse quadro começou a mudar.

Fagulha partiu dos estudantes e outros coletivos

Uma parte dessa mudança veio da nova estratégia de ocupação de redes sociais, capitaneada por parlamentares com forte inserção digital. Mas, outra parte não veio dos partidos. Não foram eles que acenderam o pavio. A fagulha partiu dos estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) que, no dia seguinte ao primeiro turno, foram às ruas em reação à vitória da extrema direita. A iniciativa rompeu a contenção que havia marcado a campanha e abriu espaço para uma nova onda de mobilizações. Nos dias seguintes, atos estudantis multiplicaram-se.

Ao longo das semanas, outros coletivos passaram a protagonizar mobilizações, evidenciando uma densa rede associativa que deu sustentação a atos públicos com perfis diversos. A participação eleitoral foi impulsionada por uma trama de relações que conectava grupos, coletivos e redes de sociabilidade constituídos no cotidiano.

Embora as convocações digitais tenham desempenhado um papel importante no estímulo ao engajamento - como mostra a atuação do chamado Exército do Lula -, a adesão às mobilizações também passou por vínculos de convivência, afinidades e pertencimentos compartilhados anteriores. Em muitos casos, foram essas redes que aproximaram as pessoas da disputa eleitoral e criaram condições para que o engajamento se traduzisse em ação coletiva.

A pluralidade dessas redes chamou a atenção. Durante a campanha, foram às ruas - e até às águas - nadadores, remadores, surfistas, rappers, skatistas, blocos de carnaval, agremiações de frevo, fandoms dos mais diversos temas e as já conhecidas torcidas de futebol.

Grupos organizados em torno de interesses compartilhados encontraram maneiras próprias de participar da disputa eleitoral. A campanha atravessou, assim, diferentes espaços de sociabilidade, incorporando à disputa política atores que trouxeram consigo suas experiências, seus vínculos e suas formas habituais de organização.

Os repertórios de ação também foram variados. Ao lado de atos públicos e atividades tradicionais de campanha, como panfletagens e abordagens de eleitores, corredores correram, nadadores nadaram e, nos bairros, coletivos organizaram festivais. Grupos religiosos de diferentes tradições também se engajaram na disputa: cristãos, religiões de matriz africana e judeus mobilizaram suas redes e espaços de atuação, enquanto evangélicos progressistas recorreram às redes sociais para denunciar os efeitos do bolsonarismo no cotidiano das igrejas e disputar os sentidos políticos da fé.

Cada grupo mobilizou práticas que já faziam parte de sua experiência coletiva, adaptando-as às circunstâncias da eleição. Assim, o esporte, a cultura, o lazer e a religião se tornaram caminhos pelos quais diferentes grupos levaram suas experiências, seus vínculos e suas pautas para a disputa eleitoral. Esse conjunto de iniciativas veio acompanhado de ampla capilaridade territorial. As mobilizações alcançaram bairros e regiões de cidades de diferentes portes, com ações que, em alguns lugares, se repetiram diariamente, em horários definidos e sem grande alarde.

A continuidade dessas iniciativas revela a importância dos grupos locais, capazes de reunir pessoas, compartilhar informações e organizar atividades a partir dos recursos disponíveis em cada território. A campanha encontrou, assim, uma sociedade civil já conectada por múltiplos vínculos, práticas e espaços de convivência, que puderam ser mobilizados e articulados em torno da disputa eleitoral.

A importância das redes de relações

Reconhecer essa pluralidade significa questionar uma ideia bastante difundida: a de que pessoas que não participam de movimentos sociais, sindicatos ou outras organizações reconhecidas estão "desorganizadas". Nem sempre é assim. As pessoas vivem em redes de relações, compartilham referências, constroem visões de mundo e circulam por espaços cotidianos que produzem vínculos, alimentam identificações e podem se tornar espaços de mobilização e recrutamento político. Em 2026, a novidade foi a canalização dessas redes e formas de organização para a mobilização eleitoral, em uma escala e com uma capilaridade que chamaram a atenção.

Essa leitura contrasta com interpretações que atribuem a virada do segundo turno sobretudo à operação de comunicação digital. Em artigo recente na CartaCapital, João Feres Jr. sustenta que o Exército do Lula foi o fator decisivo. Ele recomenda não "transformar imagem de campanha em causa do resultado" e argumenta que, como o crescimento de Lula se espalhou por todo o território, inclusive pelo interior, sua causa só poderia ser algo de alcance nacional, como as redes sociais. A cautela é justa, mas vale para os dois lados.

Os dados agregados por seção também não isolam o efeito do Exército digital. E a dispersão territorial do voto não indica necessariamente uma causa digital: o que descrevemos aqui é justamente uma mobilização capilar, que chegou a bairros e cidades de diferentes portes, muitas vezes longe das câmeras e "parcamente noticiada pela imprensa", como o próprio autor reconhece. Uma mobilização pouco visível não deixa de existir.

Além disso, a alternativa proposta, entre uma organização "extremamente verticalizada e hierárquica" e um "movimento espontâneo ou auto-organizado das massas", deixa de fora o que nos parece mais relevante. As mobilizações de 2026 não foram espontâneas nem comandadas de cima. Foram organizadas por grupos que já existiam, com suas próprias lideranças, rotinas e formas de decidir. Foi também nas ruas, com os estudantes da UFF no dia seguinte ao primeiro turno, que a apatia começou a se romper.

Não se trata de negar a importância das redes digitais, e sim de entender como elas produziram efeitos. Uma mensagem que circula no WhatsApp ganha força quando chega a pessoas ligadas por relações de confiança, que conversam entre si, se reconhecem como parte de um grupo e encontram nesse grupo um motivo e um modo de agir. Os próprios "soldados" do Exército do Lula não atuavam no vazio: eram integrantes de famílias, torcidas, igrejas, coletivos e grupos de amigos, nos quais as convocações eram recebidas, discutidas e transformadas em ação.

Opor redes digitais a mobilizações de rua empobrece a compreensão do que aconteceu. A virada de 2026 resultou do encontro entre uma comunicação eficaz e uma sociedade civil plural, densamente conectada por vínculos cotidianos. Isso tem consequências práticas.

Se a lição tirada da eleição for apenas a de que o governo precisa comunicar melhor, perde-se a outra metade da história. A participação não se convoca por decreto, nem se comanda como um exército. Ela se constrói a partir de grupos com agendas, ritmos e razões próprias, que decidem agir quando reconhecem a disputa como sua. Em 2026, a política eleitoral se fez nas telas, mas também longe delas: na piscina, no bloco de carnaval, na roda de rima e no grupo de corrida do bairro. Construir uma governabilidade participativa, como defendeu o presidente Lula, significa levar a sério essas formas plurais de organização e construir com elas canais de diálogo que permaneçam para além dos momentos eleitorais.

*As autoras são pesquisadoras do Laboratório La Protesta e publicaram conjuntamente o texto Quando o conflito eleitoral extravasa para as ruas: protestos e eleições presidenciais no Brasil (2010-2022), em 2025, e o livro Protestas, democracia y desigualdades en el Cono Sur.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra