Venezuela: União Europeia se mostra dividida entre oposição a Maduro e respeito ao direito internacional
Os ataques dos Estados Unidos a Caracas recolocaram a União Europeia diante de um dilema antigo, mas nunca resolvido. Como conciliar a condenação a regimes autoritários com a defesa da soberania de um Estado? A Europa, que desde a invasão da Ucrânia faz do respeito ao direito internacional uma de suas bandeiras centrais, vê-se agora obrigada a medir palavras e gestos diante da crise venezuelana.
Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas
O bloco europeu nunca escondeu sua oposição ao regime de Nicolás Maduro. Desde as eleições venezuelanas de 2024, consideradas ilegítimas por Bruxelas, a União Europeia manifestou apoio à oposição, inclusive com a concessão do prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento aos líderes Edmundo González Urrutia e Corina Machado, também vencedora do Prêmio Nobel da Paz.
Em episódios anteriores envolvendo operações militares dos Estados Unidos contra embarcações venezuelanas no Caribe, a União Europeia limitou-se a declarações genéricas pelo respeito ao direito internacional, evitando atribuir responsabilidades diretas. O mesmo padrão se repete agora. A primeira declaração oficial da cúpula do bloco europeu após a captura de Maduro partiu da chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas.
I have spoken with Secretary of State Marco Rubio and our Ambassador in Caracas. The EU is closely monitoring the situation in Venezuela.
The EU has repeatedly stated that Mr Maduro lacks legitimacy and has defended a peaceful transition. Under all circumstances, the principles…
— Kaja Kallas (@kajakallas) January 3, 2026
"UE tem reiteradamente afirmado que o Sr. Maduro carece de legitimidade e tem defendido uma transição pacífica. Em todas as circunstâncias, os princípios do direito internacional e da Carta da ONU devem ser respeitados. Apelamos à contenção", escreveu Kallas.
Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, manteve a linha diplomática, assim como António Costa, presidente do Conselho Europeu, que adicionou um apelo à desescalada.
Ambiguidade do bloco europeu
Esse tipo de ambiguidade não é exclusivo do dossiê venezuelano. Durante a guerra em Gaza, a União Europeia viveu um dilema semelhante. Apesar das críticas crescentes e de alertas sobre violações do direito humanitário, o bloco mostrou-se incapaz de adotar medidas concretas contra Israel.
Em paralelo, reforçava a aplicação de sanções contra a Rússia pela agressão à Ucrânia. Diplomatas e analistas advertiram, à época, que a aplicação seletiva de princípios corroía a credibilidade europeia. É como o Ministro das Relações Exteriores da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, chegou a afirmar anos atrás: "os problemas da Europa são os problemas do mundo, mas os problemas do mundo não são os problemas da Europa".
No Parlamento Europeu, o partido dos Socialistas e Democratas expressou a voz mais contundente, solicitando um debate em plenário sobre a situação na Venezuela. A presidente do grupo, Iratxe García Pérez, condenou os ataques e ressaltou que "a democracia nunca se constrói com bombas ou força". Pérez também clamou para que a UE lidere um processo de diálogo e mediação.
La situación en Venezuela es profundamente alarmante. La democracia nunca se construye con bombas ni por la fuerza, ni al servicio de los intereses de Trump.
El pueblo venezolano merece una transición pacífica y democrática. La UE debe liderar mediante el diálogo y la mediación.
— Iratxe García Pérez /❤️ (@IratxeGarper) January 3, 2026
Indiferença de Trump
Enquanto Bruxelas tenta equilibrar-se na retórica, o governo de Donald Trump se acostumou a dar de ombros, relegando os europeus à sombra. O exemplo mais emblemático é a negociação de um acordo de paz na Ucrânia.
Mesmo diante de um conflito que acontece no território europeu, Trump faz questão de minimizar a participação do bloco nas conversas entre ucranianos e russos. Nesse contexto, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, tem funcionado como elo para preservar a influência europeia.
No caso da Venezuela, porém, distante da Europa, é improvável que a UE assuma um papel relevante como mediadora de mais uma veia aberta na América Latina.
Mas se há algum elo possível, ele seria Edmundo González, diplomata que concorreu nas eleições de 2024 contra Maduro e é reconhecido como presidente legítimo por diversos países, incluindo o bloco europeu. Atualmente, González vive em exílio em Madri.