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União Africana condena tratamento 'racista' dado a africanos impedidos de deixar a Ucrânia

Imagens que circulam nas redes sociais mostram nigerianos e cidadãos de outros países africanos sendo barrados em ônibus e trens em direção à fronteira.

28 fev 2022 18h47
| atualizado às 19h06
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Há cerca de 4 mil nigerianos na Ucrânia
Há cerca de 4 mil nigerianos na Ucrânia
Foto: AFP / BBC News Brasil

A União Africana, organização que reúne os 55 países do continente, condenou publicamente o tratamento que, conforme relatos compartilhados nos últimos dias, vem sendo dispensado aos cidadãos de países africanos que estão na Ucrânia em guerra.

Muitos deles estariam enfrentando dificuldade para atravessar a fronteira para escapar do conflito, sendo inclusive impedidos de embarcar em ônibus e trens que têm saído das cidades ucranianas com os civis que tentam deixar o país.

"Relatos de que africanos são selecionados para tratamento dissimilar inaceitável são chocantemente racistas e uma violação da lei internacional", diz o comunicado divulgado nesta segunda (28/2), assinado por Macky Sall, presidente da entidade, também presidente do Senegal, e por Moussa Faki Mahamat, presidente da Comissão da União Africana e ex-primeiro ministro do Chade.

"Nesse sentido, os presidentes pedem que todos os países respeitem a lei internacional e demonstrem a mesma empatia e apoio para todos aqueles que fogem da guerra, independentemente da sua raça."

Algumas horas antes, o governo da Nigéria também havia se manifestado de forma parecida.

"Seja por evidências em vídeo, relatos de fontes primárias e de pessoas em contato com funcionários da diplomacia nigeriana, há infelizes relatos de policiais e oficiais de segurança ucranianos que se recusam a permitir que nigerianos embarquem em ônibus e trens em direção à fronteira Ucrânia-Polônia", diz, no Twitter, a conta oficial da Presidência da Nigéria.

O fio cita um vídeo particular que estaria circulando nas redes sociais de uma mulher nigeriana com um bebê de colo filmada no momento em que teve de abrir mão de seu assento no transporte para outra pessoa.

E menciona ainda um grupo de cidadãos do país que teria sido reiteradamente impedido de entrar na Polônia, sendo obrigado a recuar dentro do território ucraniano para tentar cruzar por outra fronteira, com a Hungria.

"Todos os que fogem de uma situação de conflito têm o mesmo direito de passagem segura sob a Convenção da ONU, e a cor de seu passaporte ou de sua pele não deve fazer diferença", diz a publicação.

Segundo o governo do país, há 4 mil nigerianos na Ucrânia, a maioria estudantes. Há décadas nigerianos e cidadãos de outros países africanos têm viajado para a Ucrânia para fazer faculdade, especialmente de Medicina.

O chefe da diplomacia da África do Sul, Clayson Monyela, destacou que estudantes e outros cidadãos de seu país também vêm sendo "maltratados" na fronteira.

À BBC, um nigeriano identificado como Isaac afirmou ter ouvido dos funcionários na fronteira ucraniana com a Polônia que "não estavam atendendo africanos".

"Fomos perseguidos, atingidos por policiais armados com paus."

O nigeriano Osemen relatou à BBC ter tentado pegar um trem em Lviv para chegar à fronteira com a Polônia, mas foi informado de que apenas ucranianos seriam permitidos a bordo.

Estima-se que mais de 500.000 ucranianos tenham fugido de seu país desde o início da invasão russa, em 24 de fevereiro.

'Hotel só para ucranianos'

A estudante universitária Ruqqaya, da Nigéria, cursava Medicina em Kharkiv, no leste do país, quando a cidade foi atacada. Ela caminhou por 11 horas durante a noite antes de chegar na entrada da cidade polonesa de Medyka, na fronteira com a Ucrânia.

"Quando cheguei aqui, encontrei pessoas negras dormindo na rua", relatou à BBC.

Ela diz ter sido instruída por guardas armados a esperar, pois os ucranianos tinham que passar primeiro. Ruqqaya viu ônibus cheios de pessoas, que ela descreveu como brancas, sendo admitidas na fronteira, enquanto poucos africanos eram selecionados na fila. Depois de esperar por muitas horas, ela finalmente foi autorizada a atravessar e seguiu para Varsóvia para voar de volta à Nigéria.

Asya, estudante de Medicina da Somália que estava em Kiev, afirma ter vivido situação semelhante. Quando chegou à Polônia, segundo ela, disseram-lhe que "a acomodação no hotel era apenas para ucranianos".

Ela agora está em segurança em Varsóvia, hospedada em um hotel. A experiência na capital do país tem sido bastante diferente, e ela diz ter encontrado muitas pessoas gentis e acolhedoras.

Todos os estudantes africanos e asiáticos com quem Asya está em contato tiveram acesso a acomodação gratuita na cidade.

A Polícia de Fronteira polonesa declarou à BBC que todos que fogem do conflito na Ucrânia têm sido recebidos no país, independentemente da nacionalidade. A BBC tentou entrar em contato com a Polícia de Fronteira ucraniana, mas ainda não obteve retorno.

O ministro das Relações Exteriores da Nigéria, Geofrey Onyeama, afirmou ter conversado com seu colega ucraniano, Dmytro Kuleba, e recebido garantia de que os oficiais de fronteira ucranianos receberam ordem para permitir que todos os estrangeiros que tentam sair da Ucrânia passem sem restrições.

Ainda assim, o Ministério das Relações Exteriores nigeriano mudou sua recomendação e agora aconselha seus cidadãos que tentam deixar o país a seguirem para as fronteiras com a Hungria ou a Romênia, em vez da Polônia.

A embaixadora nigeriana na Romênia, Safiya Nuhu, disse à BBC que até agora cerca de 200 nigerianos - a maioria estudantes - chegaram à capital, Bucareste, e que muitos outros vindos da Ucrânia estão a caminho.

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