Uma em cada quatro pessoas não tem acesso seguro à água potável, diz ONU
Uma em cada quatro pessoas no planeta continua sem acesso à água potável. O alerta foi feito nesta terça-feira (26) pelas Nações Unidas em Genebra, em um relatório que denuncia a lentidão dos avanços rumo à universalização desse direito humano fundamental. Mais de 2 bilhões de pessoas vivem em situação de vulnerabilidade hídrica, e mais de 100 milhões ainda dependem diretamente de água de superfície — retirada de rios, lagoas ou canais — para suprir suas necessidades básicas.
Uma em cada quatro pessoas no planeta continua sem acesso à água potável. O alerta foi feito nesta terça-feira (26) pelas Nações Unidas em Genebra, em um relatório que denuncia a lentidão dos avanços rumo à universalização desse direito humano fundamental. Mais de 2 bilhões de pessoas vivem em situação de vulnerabilidade hídrica, e mais de 100 milhões ainda dependem diretamente de água de superfície — retirada de rios, lagoas ou canais — para suprir suas necessidades básicas.
O estudo foi elaborado em conjunto pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que monitoram o programa global de água, saneamento e higiene (WASH, na sigla em inglês).
As duas agências alertam que o atraso na implementação desse programa compromete a saúde de bilhões de pessoas, que ficam mais expostas a doenças de veiculação hídrica, como diarreia, cólera, hepatite e disenteria. Esses riscos impactam também a educação e a produtividade econômica, sobretudo em países de baixa renda.
Meta de 2030 cada vez mais distante
A meta estabelecida nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) de garantir acesso universal à água potável até 2030, segundo a ONU, está cada vez mais distante. Em vez de se aproximar, o objetivo parece escapar do alcance das políticas globais.
"Água, saneamento e higiene não são privilégios: são direitos humanos fundamentais", declarou Rüdiger Krech, diretor de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas da OMS. Ele ressaltou que é urgente acelerar as ações, sobretudo em comunidades marginalizadas, que enfrentam múltiplas formas de exclusão e maior vulnerabilidade.
O relatório classifica os serviços de abastecimento de água em cinco níveis. O mais elevado é o de "gestão segura", que significa acesso à água potável disponível no domicílio, livre de contaminação fecal ou química.
O nível "básico" corresponde a fontes melhoradas que podem ser acessadas em até 30 minutos. O nível "limitado" descreve o acesso a uma fonte adequada, mas que exige longas filas ou deslocamentos. Já o nível "não melhorado" se refere ao uso de poços ou nascentes sem proteção. Na base da escala está a água de superfície, captada diretamente em cursos naturais, sem nenhum tipo de tratamento.
Apesar de avanços pontuais, os dados mostram a persistência de enormes desigualdades. Desde 2015, cerca de 961 milhões de pessoas obtiveram acesso à água potável sob gestão segura, elevando a cobertura global de 68% para 74%.
Entre os que ainda vivem sem esse direito, 106 milhões continuam dependentes de águas superficiais, mas esse número caiu para 61 milhões ao longo de uma década. O total de países que eliminaram completamente o uso de água de superfície para consumo humano passou de 142 em 2015 para 154 em 2024. Ainda assim, apenas 89 países possuem serviços básicos de abastecimento de água, e somente 31 alcançaram cobertura universal em condições seguras.
Nos 28 países em que ao menos uma em cada quatro pessoas permanece sem acesso a serviços básicos, a maioria se concentra na África, o que evidencia a desigualdade geográfica e estrutural do problema.
Higiene básica cresce, mas desigualdade persiste
O saneamento também apresenta avanços desiguais. Desde 2015, 1,2 bilhão de pessoas passaram a ter acesso a serviços geridos de forma segura, elevando a cobertura de 48% para 58%. Esses serviços são definidos como instalações melhoradas, não compartilhadas com outros domicílios, e que garantem tratamento adequado dos dejetos no local ou transporte para tratamento externo. O número de pessoas que ainda praticam a defecação a céu aberto caiu de 429 milhões para 354 milhões, o que corresponde a 4% da população mundial.
Outro indicador importante é a higiene. No mesmo período, 1,6 bilhão de pessoas obtiveram acesso a condições básicas para lavar as mãos com água e sabão. Hoje, 80% da população mundial dispõe desse recurso, contra 66% há dez anos. Esse avanço, porém, esconde desigualdades regionais profundas, que deixam milhões em risco sanitário.
Para o Unicef, a questão da infância é central nesse debate. "Quando crianças não têm acesso à água potável, saneamento e higiene, sua saúde, sua educação e seu futuro ficam prejudicados", afirmou Cecilia Scharp, diretora do programa WASH da agência.
Segundo ela, as desigualdades são particularmente duras para meninas, que muitas vezes carregam a responsabilidade de buscar água para suas famílias e enfrentam dificuldades adicionais durante a menstruação. "No ritmo atual, a promessa de garantir água potável e saneamento para cada criança está cada vez mais distante", concluiu.
A crise da água como desafio global
O panorama geral apresentado pela ONU revela, portanto, uma contradição: o mundo conseguiu ampliar em números absolutos o acesso a serviços de água e saneamento, mas os progressos se concentram em determinadas regiões e avançam em ritmo insuficiente. A exclusão permanece como regra em muitos países, sobretudo no continente africano e em áreas de maior vulnerabilidade socioeconômica.
A crise global da água se tornou uma das fronteiras mais desafiadoras da agenda internacional de desenvolvimento sustentável e de direitos humanos.
A desigualdade no acesso não é apenas um problema técnico ou de infraestrutura: é também reflexo de falhas de governança, falta de investimentos adequados e impactos crescentes da crise climática.
Mudanças nos padrões de chuva, secas prolongadas e o derretimento de geleiras vêm alterando a disponibilidade de recursos hídricos, aumentando o estresse sobre sistemas de abastecimento já frágeis.
Se o atual ritmo de implementação se mantiver, o objetivo de acesso universal até 2030 permanecerá fora de alcance, comprometendo não só a saúde de bilhões de pessoas, mas também a educação, a produtividade e a estabilidade de comunidades inteiras.
O relatório das Nações Unidas deixa claro que a água potável, o saneamento e a higiene continuam a ser não apenas necessidades básicas, mas condições indispensáveis para o desenvolvimento humano e para a dignidade de cada pessoa.
(Com AFP)