Trump diz esperar não precisar atacar o Irã, que promete retaliar de forma 'imediata'
Em mais uma rodada de ameaças, o presidente americano, Donald Trump, declarou na quinta-feira (29) que espera não ter que usar a força militar contra o Irã e que planeja negociar com representantes do regime um novo acordo sobre o programa nuclear do país. Teerã voltou a elevar o tom ao afirmar que as bases americanas na região, assim como os navios de guerra, serão alvos de retaliação em caso de ataque dos Estados Unidos.
Com informações de Siavosh Ghazi, correspondente da RFI em Teerã, e agências
"Somos fortes. Somos financeiramente poderosos. Somos militarmente poderosos. E agora temos uma frota que se dirige a um país chamado Irã. Espero que não tenhamos que utilizar essa força", afirmou Trump à imprensa em Washington, durante o evento de lançamento do documentário "Melania", sobre a primeira-dama americana.
Ao ser questionado se manteria o diálogo com Teerã, o presidente americano também disse estar "planejando" negociar com regime. Mas salientou: "temos muitos barcos muito grandes e muito potentes navegando para o Irã neste momento, e seria estupendo não ter que utilizá-los".
Em resposta, o porta‑voz do exército iraniano apontou "sérias vulnerabilidades" dos porta‑aviões americanos, poucos dias após a chegada ao Oriente Médio da escolta Abraham Lincoln. Também reiterou que a reação do Irã a qualquer ataque será "imediata".
"Se Trump acha que vai realizar um ataque rápido e, duas horas depois, publicar um tuíte dizendo que a operação terminou, isso não vai acontecer. A guerra se estenderá por toda a região, de Israel aos outros países onde há bases americanas', declarou o porta‑voz.
Já o vice-presidente iraniano, Mohammad Reza Aref, afirmou que o Irã "deve se preparar para uma guerra". "A resposta será 'arrasadora'", prometeu horas antes o chefe das Forças Armadas iranianas, Amir Hatami, anunciando ter equipado os regimentos de combate com mil drones.
Ao mesmo tempo, o Teerã multiplica os contatos diplomáticos com os países do Oriente Médio para impedir uma escalada e evitar um conflito. O secretário‑geral da ONU, António Guterres, por sua vez, fez um apelo por diálogo a fim de evitar uma crise com "consequências devastadoras para a região".
Guarda Revolucionária na lista dos grupos terroristas
Na quinta-feira (29), a União Europeia qualificou de "organização terrorista" a Guarda Revolucionária — braço armado da República Islâmica, acusado de ter orquestrado a repressão sangrenta em janeiro. "Todo regime que mata milhares de seus próprios cidadãos trabalha para a sua própria ruína", afirmou a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas.
Membros do regime iraniano criticaram a iniciativa, classificando-a de "erro estratégico". "Os países europeus serão responsáveis pelas consequências de tal decisão", afirmou o chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, na rede social X.
A medida é considerada uma declaração de guerra contra o Irã, onde a Guarda Revolucionária é a principal força. Ela gerencia o programa balístico, opera drones e também controla o programa espacial do país. Além disso, seus integrantes estão profundamente envolvidos na economia e têm como missão defender o poder islâmico.
Em entrevista à RFI, Jonathan Piron, professor de Relações Internacionais e pesquisador do Centro Etiopia, na Bélgica, avalia que classificar a organização de terrorista trará resultados limitados. "Politicamente, é um gesto forte porque mostra uma unidade da União Europeia em relação ao Irã de modo geral. Ainda assim, podemos questionar os efeitos concretos dessas ações do ponto de vista econômico", diz.
O especialista em Oriente Médio lembra que a Guarda Revolucionária é uma entidade poderosa no Irã, implantada dentro do próprio país e com pouquíssimas operações no exterior. "É um Estado dentro do Estado, com importantes ramificações econômicas e industriais. Eles estão presentes em toda parte, mas também são sancionados há muito tempo e, portanto, a maior parte de seus ativos está localizada apenas dentro do Irã", explica.