Sem consenso, Buenos Aires avança no gradeamento de parques
- Aline Duvoisin
- Direto de Buenos Aires
Conhecida pelo grande uso do espaço público por seus habitantes, Buenos Aires segue o caminho das grandes cidades que ilham seus espaços verdes. Dos mais de mil parques e praças da capital argentina, oitenta e cinco já estão gradeados - e logo mais três serão fechados. Os motivos: insegurança e vandalismo. O governo alega que as grades contornam esses problemas, mas moradores da região dos espaços isolados acreditam que essa não é a solução. E urbanistas defendem que as grades representam o início de um processo de abandono do espaço público.
Entre os locais que receberão grades estão dois dos mais tradicionais parques da cidade: Lezama e Centenário. O primeiro fica onde se acredita ter sido realizada a primeira fundação de Buenos Aires, no bairro turístico de San Telmo. O Centenário, apesar de não integrar o roteiro de turistas, é um dos maiores e mais tradicionais do bairro de Caballito. Fundado em 1910 e formado por um conjunto de praças, ele foi o primeiro espaço verde moderno do município. Ambos possuem importantes esculturas e edifícios importantes - e as grades ajudariam a conservá-los.
O Ministério de Ambiente e Espaço Público de Buenos Aires explica que, como nos casos anteriores, esses projetos surgiram a pedido de moradores. Porém, pessoas que vivem nas proximidades acham que eles precisam de mais cuidados, mas não concordam inteiramente com o gradeamento.
A opinião de quem frequenta
Juan Peñaranda é frequentador do Lezama, onde o clima é propício para descansar e estudar. Ele acredita que o local está muito maltratado. "Todo tipo de gente vem aqui. Assim como alguns vêm para passear, outros vêm para incomodar", analisa. Alicia Loiacono, que sempre leva seus dois filhos pequenos para brincar no parque, acredita que é preciso educação. "É preciso conscientizá-las de que as pessoas devem cuidar o lugar, colocando cartazes, por exemplo". O maior descuido que ela vê no parque, como na cidade em geral, é a quantidade de excrementos caninos espalhados pelo chão.
Peñaranda acha que as grades podem ser uma solução, mas afirma que a melhor saída seria intensificar o policiamento. "Eu não me sentiria tão livre vendo as grades ao redor do parque, prefiro que ele esteja aberto". Fabiana Morinigo, que costuma levar sua filha para brincar no local, concorda com Peñaranda. "Há guardas nos parques gradeados, mas aqui, que é aberto, eu nunca vi nenhum", observa. Ela não concorda com as grades porque deseja ter um espaço livre, onde não dependa de ninguém para abri-lo e fechá-lo. Ela também acredita que a violência não deixaria de existir por causa das grades.
Quem frequenta o Centenário pensa da mesma maneira. Livreiros que trabalham nas fronteiras do parque acham que seria melhor mantê-los abertos. Apesar de reclamar da presença de indigentes e drogados no parque, Stella Maris afirma que a violência não se resolve com as grades e que o cercamento do parque prejudicaria quem trabalha no local. "É preciso encontrar uma solução que agrade a todos", salienta.
Camilo Ugarteche engrossa o discurso. Para ele, se o espaço estiver fechado à noite, ninguém poderá cruzá-lo, mas os delinquentes podem pular as grades e entrar. Daniela Judith Sustas acha que a insegurança e o vandalismo são problemas culturais. "Teríamos que colocar Buenos Aires dentro de grades porque sempre existirão lugares onde as pessoas poderão roubar", destaca ela. Apesar de o governo afirmar que os moradores foram consultados, todos eles mencionam que não tiveram oportunidade de se manifestar.
Segundo o Ministério de Ambiente e Espaço Público, é muito caro manter a vigilância nos espaços verdes durante 24 horas por dia. Por isso, as grades ajudariam a proteger esses locais durante a noite, quando não há guardas. Os 380 guardianes de plaza - como são chamados aqui os guardas que vigiam esses locais - designados para cuidar 88 espaços verdes da capital portenha trabalham das 8h às 20h durante todos os dias do ano, tanto em praças gradeadas como abertas. As primeiras são fechadas às 20h e abrem somente no dia seguinte, às 8h. As segundas têm acesso durante toda a madrugada, mas não contam com segurança durante esse período.
O ministério concorda que a população deve se sentir responsável pelos espaços, mas não abdica de tentar diminuir a violência. E para amenizar esse problema, praças gradeadas apresentaram uma avanço notável.
Para o urbanista, arquiteto e professor da Universidade de Buenos Aires André de Oliveira Torres Carrasco, gradear os parques significa desistir de um conceito básico de cidadania: compartilhar a responsabilidade com o cidadão. "O que era de todos passa a ser visto como terra de ninguém, ou na melhor das hipóteses, como algo que pertence ao Estado", destaca.
Ele acredita que isso é parte de um processo da privatização da sociabilidade no qual a noção de cidadania se confunde com a de consumidor. "Como na 'praça' de alimentação de um shopping, nas praças dos bairros não serão mais aceitos cidadãos que não sejam consumidores", afirma. Seria o caso, por exemplo, de pessoas em situação de rua. "Ser pobre torna-se crime, inventa-se a necessidade de expulsá-los, como se isso contribuísse para a melhoria do bem comum" - destaca.