Repórter que foi ao Egito relata tensão vivida na praça Tahrir
De centro da burocracia do poder à sede do levante popular no Egito em três décadas, a praça Tahrir passou a ser nome reconhecido no mundo inteiro devido à extensa cobertura da mídia internacional desde que os protestos pró-democracia do dia 25 de janeiro aumentaram e paralisaram todo o país. O jornalista brasileiro Tariq Saleh esteve no Cairo durante os dias de confrontos mais intensos e conta um pouco do que viu no coração da capital egípcia. Confira o relato abaixo, na íntegra.
Quando cheguei ao Cairo, naquela sexta-feira, dia 28 de janeiro, o governo egípcio havia montando um esquema de segurança para lidar com o Dia da Fúria, uma onda de protestos simultâneos que seriam realizados em várias cidades do Egito, incluindo Alexandria, Suez e Port Said, principais cidades depois da capital.
No caminho do aeroporto ao hotel, passei pela praça Tahrir, no centro da capital. A quantidade de policiais, tropas de choque, blindados e veículos antiprotestos. Ruas vazias, comércio fechado. O local era totalmente dominado pelas forças de segurança. Esse cenário mudaria em menos de 24 horas.
Inicialmente organizado por estudantes e outro grupos da sociedade civil de forma espontânea, os protestos logo ganharam adesões de outros grupos de oposição e ativistas, que exigiam a renúncia do presidente Hosni Mubarak, há 30 anos no poder.
Mas Mubarak não era o único alvo dos manifestantes - jovens pediam mais empregos, menos corrupção, mais liberdades civis, reformas políticas, sociais e econômicas. O governo respondeu com policais nas ruas e repressão, aos olhos dos opositores, insituição da lei e a ordem, aos olhos do governo.
Desde 1981, quando Hosni Mubarak subiu ao poder, o Egito vive em estado de emergência, com poderes especiais ao presidente e uma "Constituição que teve emendas para favorecer a elite dominante e o partido político de Mubarak, o Partido Nacional Democrático", me disse um analista egípcio. E uma dessas emendas era que manifestações públicas eram ilegais no Egito.
Isso não quer dizer que, em três décadas, jamais houve protestos no país. Pelo contrário, grupos políticos, de imprensa, de direitos humanos e outros vinham fazendo manifestações, geralmente reprimidas com força pela polícia e agentes de segurança do governo.
Mas os protestos recentes no Egito, que atualmente colocaram governo e oposição na mesa de negociações para encontrar uma saída para a crise e discutir reformas no país, diferem dos protestos anteriores - eles foram organizados de forma espontânea pela nova geração de egípcios que, diferentemente de seus pais, querem um novo líder e um novo futuro.
Depois de três dias de manifestações, a sexta-feira (28) foi escolhida, coincidentemente ou não, porque era também o dia das rezas muçulmanas, em que instituições públicas e outros setores da economia fechavam. As manifestações começariam após as orações e tomariam conta da capital e outras cidades.
Após deixar o hotel, fui fazer um reconhecimento do "terreno", como sempre faço em qualquer lugar que eu vá. À aquela altura, os protestos já estavam em andamento. Enquanto uma grande massa protestava em frente a um grande aparato policial, em outra área se desenrolava os confrontos que mudariam o rumo do Egito nos dias seguintes.
Jovens tentavam chegar à praça Tahrir cruzando o Nilo de um lado a outro, e entraram em confrontos com as tropas de choque da polícia e partidários, em roupas civis, do partido de Mubarak.
Foram pelo menos sete horas de tensões, em que a polícia avançava com veículos, lançando bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha. Na frente deles, partidário de Mubarak lançavam pedras contra os manifestantes antigovernistas.
De uma certa distância, eu fiquei observando as cenas de batalha, até que os jovens egípcios obrigaram a polícia a recuar. Escutei uma jovem com máscara pra se proteger do gás lacrimogênio dizer a uma turma de rapazes que atiravam pedras contra as forças de segurança para que não recuassem e avançassem. Estava ali, pensei pra mim, uma disputa por território.
Um jovem egípcio passa por mim e eu pergunto onde querem chegar. "Na praça Tahrir, queremos puxar eles para fora da praça", disse ele. Achei aquilo impossível, que os manifestantes estavam se iludindo. Não se tratava apenas da praça. Mas ao redor dela, estavam importantes prédios do governo, e ruas que levavam ao Parlamento do país.
Eu voltei ao hotel porque a situação estava ficando mais tensa e perigosa. De fato, as emissoras de TV locais e internacionais começaram a dar as informações de que os manifestantes estavam avançando ao centro da capital. E cerca de cinco horas após o meu encontro com aquele jovem que queria tomar a praça Tahrir, a polícia foi retirada das ruas do Cairo, e o governo instaurou toque de recolher e enviou o exército às ruas.
A polícia egípcia, disseram alguns comentaristas, haviam perdido o controle das ruas e foram derrotados pelos manifestantes, que queimaram viaturas e delegacias, não somente no Cairo, mas em outras cidades pelo país. Mas mais impressionante ainda era o prédio-sede do partido político de Mubarak, o dominante no país, estava em chamas e queimou por dois dias. Os bombeiros também fugiram junto com a polícia e a multidão não deixaria que se aproximassem.
No dia seguinte, fui à praça Tahrir, no centro do cidade, onde de um lado fica a Mogamma, um enorme prédio, um bloco de concreto construído pela ex-União Soviética, então aliado do país, e que abriga órgãos públicos, e do outro o Museu Nacional, que contém a História da civilização egípcia.
A praça estava tomada de manifestantes, comemorando como uma conquista de território junto às tropas e tanques do exército egípcio. Os militares só observavam a multidão.
Nos dias seguintes, a praça se tornou símbolo do poder do povo, com tendas, faixas, protestos e festivais de expressão de opinião. Em comum - todos pedindo a saída de Hosni Mubarak.
Logo a mídia se fez presente na praça. Jornalistas estrangeiros estavam por todas parte, tentando registrar o momento histórico do maior protesto das últimas décadas no país.
No dia que a oposição fez apelos apra que 1 milhão de pessoas viessem à praça Tahrir, o local se tornou um festival de criatividade e humor político. Não eram apenas jovens, mas taambém idosos, muçulmanos e cristãos, mulheres e crianças. Profissionais liberais, pobres, classe média, estudantes, liberais e conservadores, líderes sindicais e políticos.
Mas a manter o domínio sobre a praça não seria uma tarefa fácil. A violência não poupou os manifestantes e militantes pró-Mubarak entraram no local, tornando o local uma praça de guerra.
Na noite do dia 1º de fevereiro, a situação na praça estava muito perigosa, com relatos de franco-atiradores, coqueteis molotovs sendo jogados e confrontos com pedras e pedaços de paus entre os dois lados. Mas os manifestantes não recuaram, muitos acamparam no local, determinados a não ceder território. Nem as medidas do presidente Mubarak de fazer concessões políticas de que não disputaria uma nova reeleição convenceram o povo, que continuou exigindo sua renúncia.
A praça Tahrir foi cenário de uma guerra mediavel também. Manifestantes antigovernistas usaram madeira e pedaços de ferro para criar catapultas, e jogar pedras maiores nos militantes pró-Mubarak. Também usaram chapas de alumínio para usaram como barricadas e outros pedaços menores para usarem como escudos contra chuva de pedras jogadas contra eles.
Naquele momento, cobrir os protestos e confrontos estava perigoso para os jornalistas estrangeiros. Relatos surgiam de vários profissionais de imprensa e mídia internacionais sendo presos, agredidos e roubados.
No dia que deixei o Cairo rumo ao aeroporto, a cena que vi na chegada não existia mais. A praça Tahrir - uma semana antes tomada por policiais, blindados e partidários de Mubarak -, agora estava repleta de pessoas que gritavam, mais forte do que nunca, por liberdade e democracia.