Reportagem sobre Haiti vence prêmio de Jornalismo Digital dado pela RFI e outras mídias
A série de reportagens Haïti, au cœur de l'enfer ("Haiti, no coração do inferno", em tradução livre), publicada pelo jornal belga La Libre Belgique, foi a vencedora do Visa de Ouro de Jornalismo Digital, concedido nesta quinta-feira (5) durante o festival Visa Pour l'Image, realizado em Perpignan, no sul da França. O prêmio é promovido por um grupo de veículos franceses, incluindo a France Médias Monde (FMM), à qual pertence a RFI.
A série de reportagens Haïti, au cœur de l'enfer ("Haiti, no coração do inferno", em tradução livre), publicada pelo jornal belga La Libre Belgique, foi a vencedora do Visa de Ouro de Jornalismo Digital, concedido nesta quinta-feira (5) durante o festival Visa Pour l'Image, realizado em Perpignan, no sul da França. O prêmio é promovido por um grupo de veículos franceses, incluindo a France Médias Monde (FMM), à qual pertence a RFI.
Patrícia Moribe, enviada especial a Perpignan
A série de reportagens vencedora mergulha na deterioração extrema da segurança no Haiti, país mergulhado no caos desde 2018, agravado após o assassinato do presidente Jovenel Moïse em julho de 2021. Com o Estado em colapso, gangues assumiram o controle de vastas áreas, impondo um regime de terror.
O trabalho é resultado da colaboração entre o jornalista haitiano Milo Milfort e os fotógrafos Gaël Turine (Bélgica) e Johnson Sabin (Haiti). O júri destacou a "força das imagens sobre o tema devastador e a coerência narrativa que une os olhares de profissionais haitianos e belgas". A produção foi elogiada pela capacidade de imersão no cotidiano da população local.
Em depoimento exclusivo à RFI, o fotógrafo haitiano Johnson Sabin, que vive entre o Haiti e a França, falou sobre a situação no país:
"A crise violenta causada pelas gangues armadas se traduz em assassinatos de civis, estupros, incêndios de casas e deslocamentos forçados; milhares de famílias são obrigadas a fugir e buscar refúgio em abrigos improvisados"
"Como em algumas favelas no Brasil, estar presente no terreno exige conhecer as dinâmicas locais, identificar os pontos de tensão e, às vezes, recorrer a intermediários ou contatos locais que tenham a legitimidade necessária", explica Sabin sobre as precauções necessárias para circular em Porto Príncipe.
"Isso não garante segurança, é claro, mas muitas vezes é a única maneira de acessar as realidades vividas pela população. É preciso muita prudência, escuta e uma compreensão fina do contexto para evitar colocar a si mesmo ou os outros em perigo", acrescenta o fotógrafo.
Entre os concorrentes ao prêmio estavam reportagens de grande impacto, como L'empreinte toxique du phosphate ("A marca tóxica do fosfato", Tchak & Apache), Le long de la route 232, théâtre du massacre du Hamas, les Israéliens construisent la mémoire du 7 Octobre ("Ao longo da estrada 232, palco do massacre do Hamas, os israelenses constroem a memória de 7 de outubro", Le Monde), 'The war followed us like a shadow' ("A guerra nos seguiu como uma sombra", CNN) e Breaking the Nets ("Quebrando as Redes", The Wire - Índia).
Mergulho no inferno
A reportagem mostra que a população vive sob constante ameaça de sequestros, ataques armados, estupros e roubos, enquanto líderes de gangues desfrutam de um estilo de vida luxuoso em "oásis" dentro dos territórios que controlam.
Em meio à crise humanitária e de segurança, o primeiro contingente de policiais quenianos da Missão Multinacional de Apoio à Segurança (MMAS) desembarcou no Haiti em junho de 2024, com o objetivo de apoiar a Polícia Nacional Haitiana no combate às gangues armadas.
Brasil e Haiti
A missão foi aprovada em outubro de 2023 pelo Conselho de Segurança da ONU, sob presidência do Brasil, que teve papel decisivo na articulação diplomática para sua criação. O governo brasileiro defendeu com urgência a implementação da missão e continua apoiando o processo, incluindo a possibilidade de treinamento de policiais e assistência técnica.
A atuação brasileira no Haiti tem um histórico significativo. Entre 2004 e 2017, o Brasil liderou a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah), com o maior contingente militar e comando geral da operação.
Durante 13 anos, mais de 37 mil militares brasileiros passaram pelo país, atuando em ações de segurança, ajuda humanitária, reconstrução e apoio institucional. A missão foi encerrada oficialmente em outubro de 2017, deixando um legado complexo e amplamente debatido.