Processo contra Salvini por sequestro tem nova audiência
Oficiais depuseram como testemunhas nesta sexta-feira
O Tribunal de Palermo, sul da Itália, realizou nesta sexta-feira (17) mais uma audiência do processo contra o ex-ministro do Interior e senador Matteo Salvini por sequestro de pessoas e omissão de ato de ofício.
O julgamento acontece em um bunker pensado para processos ligados à máfia e contou nesta sexta com testemunhos de oficiais das instituições italianas envolvidas no episódio.
O caso diz respeito a uma ordem de Salvini, então ministro do Interior, para impedir o desembarque de cerca de 150 migrantes resgatados no Mediterrâneo pelo navio da ONG espanhola ProActiva Open Arms, em agosto de 2019.
A embarcação ficou 20 dias estacionada em frente à ilha de Lampedusa, e a maior parte das pessoas a bordo só pôde descer na Itália após uma intervenção da Justiça Administrativa, que determinou o desembarque por motivos sanitários.
Uma das testemunhas, o oficial marítimo de Lampedusa Leandro Tringali, contou que as condições a bordo do navio de socorro, que tem capacidade para apenas 19 pessoas, eram muito ruins.
"Em mais de uma ocasião, vários [migrantes] se jogaram no mar para tentar alcançar Lampedusa a nado, e era até difícil socorrê-los porque eles não queriam voltar a bordo da Open Arms", disse. O relato foi confirmado por um capitão da Guarda de Finanças, Edoardo Anedda.
"O navio estava superlotado de migrantes submetidos a uma dura prova devido à longa permanência no mar. Eles ficavam deitados no chão", contou.
No entanto, o capitão afirmou que a competência do resgate no Mediterrâneo era da Guarda Costeira da Líbia e que o navio navegou rumo à Itália "apesar de as regras imporem que ele se dirigisse às autoridades do Estado onde ocorrera o socorro", ou seja, o país africano.
Normas internacionais de navegação determinam que pessoas resgatadas em alto mar devem ser obrigatoriamente levadas ao porto seguro mais próximo. Contudo, ONGs e agências humanitárias afirmam que a Líbia, um país fragmentado e tomado por milícias, não se enquadra nessa definição - o próprio governo italiano já admitiu que a Líbia não pode ser considerada um porto seguro.
A Open Arms também não quis levar os migrantes para Malta, que havia se disponibilizado a acolher apenas 39 pessoas. Segundo a ONG, desembarcar somente uma parte dos deslocados internacionais provocaria um caos a bordo.
Outro país a oferecer um porto seguro foi a Espanha, mas a longa distância e uma condição meteorológica difícil não permitiram a navegação.
Após a audiência, Salvini voltou a proclamar inocência. "Estamos falando de um navio espanhol que recolheu migrantes em águas líbias e ficou girando por 15 dias no Mediterrâneo, que se recusou a ir para Tunísia, Malta e Espanha e decidiu vir à Itália, infringindo as leis, e quem é processado é o ministro que defendeu seu país", declarou o senador.
Salvini já escapou de um processo semelhante em maio passado, quando um juiz preliminar de Catânia arquivou uma acusação de sequestro referente ao bloqueio de migrantes resgatados pelo navio Gregoretti, da própria Guarda Costeira da Itália, em julho de 2019.
No entanto, o caso Open Arms corre em um tribunal de outra cidade, embora na mesma região, e chega em um momento delicado para Salvini, que viu seu partido, a Liga, sofrer duras derrotas nas eleições municipais de outubro e enfrenta a ascensão de sua aliada Giorgia Meloni no campo da extrema direita.
Apesar da disputa pelo eleitorado ultranacionalista, Meloni saiu em defesa do senador nesta sexta. "Solidariedade a Matteo Salvini, que é réu por ter feito seu trabalho como ministro: defender as fronteiras e combater os desembarques ilegais. Força, Matteo, estamos a seu lado nessa batalha", disse.
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