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Por que as eleições legislativas nos EUA têm mais candidatas mulheres do que nunca

Americanos vão às urnas em votação marcada pela presença em grande número de mulheres nas cédulas. O que pode explicar isso?

6 nov 2018
17h45
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As eleições para o Legislativo dos Estados Unidos, realizadas nesta terça-feira, trouxeram um padrão diferente do que vinha acontecendo até aqui.

Você consegue encontrar uma fila com mais de duas mulheres durante discurso de Trump no Congresso americano?
Você consegue encontrar uma fila com mais de duas mulheres durante discurso de Trump no Congresso americano?
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O número de candidatas mulheres, a maior parte do Partido Democrata, não tem precedentes.

Ao todo, há muitos cargos em jogo nessa eleição, que acontece dois anos após o pleito presidencial: serão escolhidos os 453 parlamentares da Câmara dos Representantes e 35 do total de 100 cadeiras no Senado.

Também serão designados mais 36 governadores, milhares de parlamentares estaduais (quase 82% de todas as cadeiras nos Legislativos dos Estados), muitos prefeitos e outros funcionários da administração pública.

Ainda não se sabe quem ocupará as cadeiras, mas, nas prévias dos partidos, as vitórias das mulheres já foram marcantes.

Alexandria Ocasio-Cortez (de vestido listrado) participa de ato de apoio à candidatura de Zephyr Teachout (ao lado) à Procuradoria-Geral de Nova York
Alexandria Ocasio-Cortez (de vestido listrado) participa de ato de apoio à candidatura de Zephyr Teachout (ao lado) à Procuradoria-Geral de Nova York
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A democrata Ayanna Pressley, por exemplo, deve se tornar a primeira mulher negra eleita ao Congresso americano, representando o Estado de Massachusetts. Na competição interna no seu partido, ela desbancou o veterano Michael Capuano.

Em Nova York, Alexandria Ocasio-Cortez também desbancou o veterano democrata Joe Crowley.

'Onda rosa': os números do avanço feminino da política americana

A imprensa dos EUA vem chamando esta tendência de "onda rosa", mas trata-se de um fenômeno de fato ou apenas alguns casos isolados?

Veja os números: Em 2012, havia 298 mulheres candidatas a cadeiras na Câmara e no Senado. Em 2016, o número subiu para 312. Este ano, chegou ao recorde de 529 candidatas.

Depois das primárias, 271 delas ainda estão na disputa: 24 para se tornarem senadoras e 247 para deputadas, segundo dados do Centro Americano para Mulheres e Política da Universidade Rutgers.

Ayanna Pressley deixou para trás o veterano Michael Capuano
Ayanna Pressley deixou para trás o veterano Michael Capuano
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Quem são essas mulheres e quais são suas motivações?

A maior parte das mulheres que decidiram candidatar-se é democrata: 210 daquelas que seguem na corrida (194 para a Câmara e 16 para o Senado).

Para alguns analistas, o aumento está relacionado a uma reação ao presidente Donald Trump.

O campo republicano também tem suas candidatas, mas apenas 61 do total de 271 concorrendo (53 para a Câmara e 8 para o Senado).

Também vale registrar que, além do Legislativo, 61 mulheres tentaram inicialmente concorrer ao cargo de governador. Destas, 18 seguem na disputa (13 democratas e 5 republicanas).

Mas enquanto a oposição direta a Trump pode ser um forte denominador comum, analistas também concordam em lembrar do contexto que envolve as campanhas #MeToo (ampla conscientização contra o assédio sexual) e as Marchas da Mulheres realizadas após a eleição do republicano para a Casa Branca.

Muitas mulheres estão fartas do status quo. Algumas veem o potencial de mudança se colocando diretamente na política.

"A democracia só funciona quando todos nos envolvemos", diz a democrata Kelda Roys, que concorreu ao governo de Wisconsin.

Ela perdeu o pleito, mas conseguiu quebrar deixar marcas ao longo do caminho - como ter amamentado a filha pequena durante a campanha. O vídeo deste momento viralizou e se tornou centro de um debate nacional.

O caminho ainda é longo

Apesar da euforia em torno de nomes como os de Pressley e Ocasio-Cortez, recomenda-se cautela sobre a extensão de fato deste avanço feminino.

Afinal, atualmente, as mulheres representam apenas 20% do Congresso: há 23 mulheres no Senado dos EUA (23%) e 84 na Câmara (19,3%). Isto significa que, de um total de 535 membros, apenas 107 são mulheres (78 democratas e 29 republicanas).

Na verdade, nesse aspecto, os EUA estão em 102º lugar entre 193 países no que diz respeito à representação das mulheres em âmbito nacional. Os dados são da UIP, a União Interparlamentar.

E a subrepresentação das mulheres não está só no Legislativo. Cinco dos 50 estados dos EUA não têm qualquer representante feminino em suas assembleias.

Há um longo caminho até a paridade.

O exemplo da Pensilvânia

Em lados opostos no espectro político, a republicana Pearl Kim e a democrata Mary Gay Scanlon se dizem estimuladas pelo movimento #MeToo
Em lados opostos no espectro político, a republicana Pearl Kim e a democrata Mary Gay Scanlon se dizem estimuladas pelo movimento #MeToo
Foto: BBC News Brasil

A Pensilvânia é um desses Estados.

Uma equipe de TV da BBC andou pela capital, Harrisburg, mostrando a moradores uma lista dos parlamentares do Estado. A equipe perguntou se havia algo incomum naquele papel. Alguns demoraram mais, outros menos, para notar: eram todos homens.

Um eleitor jovem ficou surpreso por nunca ter percebido isto antes: "O fato de não ter percebido inicialmente que havia um problema é parte do problema".

Mas, no caso deste Estado, a situação está prestes a mudar - ao menos minimamente. Pelo menos um assento no Legislativo da Pensilvânia vai definitivamente para uma mulher: a republicana Pearl Kim ou a democrata Mary Gay Scanlon.

Ambas dizem que a motivação para concorrer veio de uma mistura de experiências pessoais - como o enfrentamento à discriminação, violência sexual ou ao assédio - juntamente com o impulso pelo movimento #MeToo.

'Um par de ovários'

Martha McSally aparece à mesa com Donald Trump e outros deputados homens; a republicana tem trajetória de luta contra a discriminação de gênero
Martha McSally aparece à mesa com Donald Trump e outros deputados homens; a republicana tem trajetória de luta contra a discriminação de gênero
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Nem todas as mulheres que estão concorrendo cargo apontam críticas diretas ao presidente Trump. Mas todas estão insatisfeitas com o ritmo das coisas em Washington.

É o caso da republicana, Martha McSally, do Arizona - que deixou a polidez de lado e lançou sua candidatura ao Senado dizendo aos colegas homens que "criem um par de ovários e façam o seu trabalho".

"Sou piloto de caça e falo como uma", disse a coronel aposentada da Força Aérea e primeira mulher a voar em uma missão de combate.

Ela tem uma trajetória de luta contra a discriminação de gênero e muita experiência em negociações políticas de alto nível - muitas vezes sendo a única mulher na mesa.

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