'Pensávamos encontrar um país melhor': migrantes deportados de Ceuta denunciam 'caça humana'
Segundo as autoridades de Madri, cerca de 60 mil pessoas que atravessaram ilegalmente a fronteira espanhola no enclave de Ceuta já foram enviadas de volta ao Marrocos. Os candidatos à emigração relatam a violência que sofreram durante as tentativas de travessia. Dezenas de migrantes morreram, principalmente afogados, tentando entrar na Espanha nesta semana.
Matthias Raynal, enviado especial da RFI a Fnideq (Marrocos), com agências
No sábado (1º), ao cair da noite, migrantes continuavam deixando Ceuta. Ônibus aguardavam os deportados na saída do enclave para levá-los de volta aos quatro cantos do Marrocos.
"Eu vou para Tânger, estou voltando para casa", explica um jovem, ao ser questionado por um policial para onde pretende ir. Ele faz parte dos que acabaram de atravessar a fronteira espanhola no sentido inverso. "Partimos na esperança de mudar nossas vidas. Pensávamos encontrar um país melhor", desabafa.
Como outros migrantes deportados, o jovem relata episódios de violência durante a tentativa de travessia e mostra os ferimentos. "Isso aqui é o hematoma deixado por um taco de golfe. Foram as pessoas de Ceuta que fizeram isso comigo", conta, exibindo o ombro machucado.
Mustapha, de 17 anos, também descreve cenas que classifica como uma verdadeira "caça humana". O adolescente precisou se refugiar em uma floresta para escapar dos militares e de moradores de Ceuta. "Nós realmente sofremos. Essa violência nos afetou psicologicamente. Foi por isso que deixamos aquele lugar", relata.
"O exército espanhol reuniu crianças para mandá-las de volta ao Marrocos. Eu juro, eu os vi bater nelas", afirma Ilham, uma turista francesa. "Vim até aqui de propósito para ver o que realmente está acontecendo. Estou com o coração apertado", confidencia.
A polícia e o exército continuavam patrulhando a região no domingo e ainda realizavam algumas prisões e expulsões. Mas o pior momento da crise migratória parece ter passado. As autoridades agora fazem o balanço após o episódio, descrito pelo governo autônomo de Ceuta como o mais grave já registrado na história do enclave espanhol.
Segundo números divulgados neste domingo (2), pelo menos 72 migrantes morreram. Muitos se afogaram ao tentar chegar à força a Ceuta durante o deslocamento inédito de dezenas de milhares de pessoas, principalmente jovens marroquinos, em direção ao enclave espanhol no norte da África.
Crise diplomática e balanço ainda incerto
A chegada em massa desses jovens desencadeou uma crise diplomática entre a Espanha e alguns de seus parceiros europeus mais críticos de sua política migratória. Os ministros do Interior dos países da União Europeia discutirão os incidentes de Ceuta em uma videoconferência na terça-feira (4).
Segundo Madri, a "quase totalidade" das cerca de 60 mil pessoas que atravessaram ilegalmente a fronteira já foi devolvida ao Marrocos vizinho. As autoridades marroquinas não fizeram qualquer comentário sobre esse repentino fluxo migratório. Elas também não divulgaram informações nem sobre o número de vítimas nem sobre as detenções realizadas durante os confrontos de sexta-feira (31) entre a polícia e os jovens.
A Associação Marroquina de Direitos Humanos (AMDH) informou haver "cerca de 130 vítimas" e dezenas de desaparecidos. A entidade pediu a abertura de uma investigação independente sobre as causas desse fluxo migratório sem precedentes entre a cidade marroquina de Fnideq e o enclave espanhol.
A associação condenou "o silêncio preocupante dos responsáveis e das instituições" do país, considerando que essa falta de manifestações contribuiu para o deslocamento de migrantes. Uma fonte ligada ao meio associativo declarou à AFP que "a forma como os acontecimentos ocorreram" sugere que essas chegadas em massa à fronteira não poderiam ter acontecido sem o "consentimento das autoridades" marroquinas.
No domingo, o papa Leão XIV mencionou a situação em Ceuta durante suas orações diárias, afirmando que a acompanhava "com preocupação" e que esperava uma solução que significasse "paz, estabilidade e justiça".
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.