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Por que governo Trump acusa Cuba de liderar campanha para desestabilizar os EUA por dentro

Um novo relatório do Departamento de Estado aponta Cuba como uma ameaça à segurança nacional dos EUA. Mas por que esse documento foi publicado agora?

2 ago 2026 - 09h57
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O Departamento de Estado dos EUA divulgou um relatório de 100 páginas sobre a ameaça que Cuba representa para o país
O Departamento de Estado dos EUA divulgou um relatório de 100 páginas sobre a ameaça que Cuba representa para o país
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Durante décadas, os Estados Unidos apontaram o Irã, o Estado Islâmico e até a China como as maiores ameaças à sua segurança nacional.

Mas, agora, em um relatório de 100 páginas publicado pelo Departamento de Estado em 20/7, o governo de Donald Trump atribui esse posto a Cuba.

Em um vídeo publicado para apresentar o documento, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirma que "praticamente todos os grupos terroristas violentos e radicais de esquerda do hemisfério ocidental dependeram, em algum momento, do apoio de Cuba".

"Temos, a apenas 145 km de nossa costa, um Estado falido que também oferece abrigo a alguns de nossos adversários", acrescenta Rubio, filho de pais cubanos.

O relatório apresenta a ilha, seus serviços de inteligência e sua ideologia comunista como um risco à segurança americana e estabelece uma ligação direta entre a Revolução Cubana de 1959 e os atuais movimentos de esquerda nos EUA.

Segundo o documento, Cuba conduziu uma longa campanha contra os EUA, apoiada em uma sofisticada rede de espionagem que alcançou os mais altos escalões do governo americano.

O relatório também afirma que o governo cubano influenciou gerações de ativistas americanos e apoiou uma onda de terrorismo de esquerda nos EUA.

O governo cubano reagiu chamando o documento de "panfleto propagandístico medíocre".

"O ladrão julga que todos são da mesma condição que ele", afirmou o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel. "Se algum país espionou e agrediu outro de forma obscena, foram os EUA contra Cuba", acrescentou Díaz-Canel.

Mas o que o governo Trump está querendo dizer sobre Cuba, e por que agora?

Grupos radicais e espionagem

O relatório afirma que Cuba se tornou um centro de atividades antiamericanas desde a Revolução Cubana de 1959
O relatório afirma que Cuba se tornou um centro de atividades antiamericanas desde a Revolução Cubana de 1959
Foto: Bettmann Archive/Getty Images / BBC News Brasil

O relatório, intitulado Cuba: a capital do comunismo do século 21, retoma a história da ilha desde a Revolução Cubana para sustentar dois argumentos.

De um lado, afirma que Cuba se tornou, a partir de 1959, uma patrocinadora da "subversão da civilização ocidental" por meio do apoio a movimentos revolucionários e socialistas, sobretudo na América Latina e na África.

De outro, sustenta que a ilha continua sendo, atualmente, uma base de atividades subversivas que ameaçam a segurança dos EUA.

"Essa ligação difusa entre o passado e o presente é, na minha opinião, o ponto em que a argumentação do relatório se mostra mais frágil", afirma Michael Bustamante, professor associado de História e diretor do programa de Estudos Cubanos e Cubano-Americanos da Universidade de Miami, nos EUA.

A influência histórica da ilha sobre a esquerda internacional é inegável, diz o professor, mas "outra coisa muito diferente é sustentar que essa influência representa uma ameaça existencial aos EUA".

Está amplamente documentado que o governo cubano, após o triunfo da Revolução Cubana em 1959, se posicionou como um importante aliado de movimentos insurgentes socialistas que se opunham a ditaduras de direita em outros países.

Havia "uma espécie de ideia de que o Terceiro Mundo precisava se unir em busca de objetivos comuns de desenvolvimento", afirma Bustamante.

O próprio conceito de "terceiro mundo" surgiu no contexto da Guerra Fria (1945-1991) para englobar os países que não faziam parte nem do bloco capitalista ocidental nem do bloco comunista soviético e buscavam formas alternativas de desenvolvimento econômico e político.

Um exemplo dessa articulação de movimentos de esquerda em torno de Cuba nos anos posteriores à Revolução, citado diversas vezes no relatório do Departamento de Estado, é a Conferência Tricontinental de 1966, que reuniu em Havana movimentos radicais armados e não armados.

Segundo o relatório, desde então já se formavam vínculos entre Cuba e setores radicais da esquerda americana, como o nacionalismo negro. A ilha também treinava combatentes de guerrilha e concedia asilo a pessoas que fugiam de perseguição política.

O nacionalista negro Robert F. Williams exilou-se em Cuba durante a Crise dos Mísseis
O nacionalista negro Robert F. Williams exilou-se em Cuba durante a Crise dos Mísseis
Foto: BBC News Brasil

Mas não há evidências, afirma o professor Bustamante, da Universidade de Miami, de que esses grupos não tivessem autonomia e apenas seguissem orientações de Cuba, como sugere o Departamento de Estado.

"Na verdade, o relatório usa uma linguagem bastante vaga ao tratar de questões como a relação de causa e efeito."

Ao abordar, por exemplo, a origem do nacionalismo negro nos EUA, o documento "atribui a Havana um papel semelhante ao de um cérebro por trás de tudo. Isso simplifica uma história muito mais complexa", acrescenta o especialista.

Outro tema amplamente discutido no relatório são as operações de espionagem de Cuba nos EUA.

O Departamento de Estado afirma que o governo cubano passou décadas construindo uma rede internacional para espionar os mais altos escalões do governo americano e cita casos conhecidos, como os de Víctor Manuel Rocha, que foi embaixador dos EUA na Bolívia, e Ana Belén Montes, que trabalhava na Agência de Inteligência de Defesa. Ambos acabaram se declarando culpados de atuar como espiões de Cuba.

Bustamante, da Universidade de Miami, afirma que Cuba, de fato, demonstrou uma capacidade de infiltração no governo americano muito maior do que se esperaria de um país relativamente pequeno.

"O governo cubano muitas vezes conseguiu despertar simpatia em diferentes partes do mundo, inclusive entre pessoas que ocupavam cargos importantes em determinados governos, e essa simpatia as levou a fazer o que fizeram."

Víctor Manuel Rocha foi condenado a 15 anos de prisão por espionar para Cuba durante 40 anos
Víctor Manuel Rocha foi condenado a 15 anos de prisão por espionar para Cuba durante 40 anos
Foto: Tribune News Service vía Getty Images / BBC News Brasil

A mão por trás da esquerda nos EUA

Mas o relatório do Departamento de Estado não acusa o governo cubano apenas de ter mantido espiões nos EUA no passado e de ter apoiado grupos radicais no chamado Sul Global.

O documento também afirma que Cuba é a força invisível por trás de diferentes vertentes do ativismo nos EUA.

"Muitos dos acontecimentos mais importantes e das maiores convulsões da história política recente dos EUA — dos protestos após a morte de George Floyd à ascensão da Antifa, passando pela explosão do ativismo pró-terrorista nos campi universitários americanos — podem ser ligados, de uma forma ou de outra, à influência cubana", afirma o relatório.

O documento também acusa alguns ativistas da esquerda americana, como Hasan Piker e Irsa Hisri, de participar de viagens de "turismo revolucionário" que fariam parte da campanha cubana.

Streamer e comentarista, Piker integrou a comitiva americana que viajou à ilha em março deste ano para levar ajuda humanitária e chamar a atenção para a situação enfrentada pelos cubanos após o bloqueio energético imposto pelo governo dos EUA no início do ano.

"Cuba entrou oficialmente no terceiro mês sem petróleo, e a rede elétrica entrou em colapso completo há alguns dias, por cerca de 29 horas", relatou Piker da ilha. "É um desastre inteiramente provocado pelo ser humano. Isso não deveria estar acontecendo."

Piker é um influenciador e comentarista que denunciou o que chamou de "terrorismo econômico" dos EUA contra Cuba
Piker é um influenciador e comentarista que denunciou o que chamou de "terrorismo econômico" dos EUA contra Cuba
Foto: Web Summit vía Sportsfile vía Getty Images / BBC News Brasil

Bustamante, da Universidade de Miami, afirma que a ajuda humanitária é absolutamente necessária neste momento, mas que a comitiva americana "acabou se transformando em um importante ato de encenação política para o governo cubano".

"Pode-se argumentar que os participantes permitiram que fossem usados para fins de propaganda. Mas isso é muito diferente de espionagem. E a confusão entre essas duas coisas no relatório é o que considero particularmente perigoso", acrescenta.

Desde que deixou de receber petróleo da Venezuela — após a captura de Nicolás Maduro, em janeiro — e os EUA ameaçaram impor tarifas aos países que enviarem petróleo à ilha, Cuba vive sua pior crise energética.

Os cubanos enfrentam longos apagões diários, que duram horas e afetam até os serviços de saúde. O sistema elétrico entrou em colapso pelo menos cinco vezes neste ano.

Alguns críticos do bloqueio, entre eles os ativistas citados no relatório, consideram que as medidas americanas constituem uma forma de punição coletiva, prática expressamente proibida pelo direito internacional.

Qual é o objetivo dos EUA?

Marco Rubio afirmou recentemente que os EUA buscam ajudar os cubanos a alcançar prosperidade e segurança, mas que o governo da ilha impede isso.

E por que esse relatório, que apresenta Cuba como uma ameaça extremamente perigosa aos EUA, foi divulgado justamente agora? O que o governo Trump pretende alcançar?

"De um lado, há o componente de política interna", afirma Bustamante, da Universidade de Miami. Segundo ele, o relatório, que menciona explicitamente políticos democratas, serve como "munição para o debate político" às vésperas das eleições de meio de mandato.

Mas o argumento de que Cuba representa uma ameaça à segurança nacional dos EUA também pode preparar o terreno para algum tipo de operação militar, acrescenta o professor.

"Algo semelhante ocorreu com a Venezuela. Os EUA recorreram a uma antiga acusação judicial contra Nicolás Maduro por narcotráfico e, depois, construíram uma narrativa que apresentava a Venezuela como um centro do tráfico de drogas, enquadrando uma ação contra Maduro como uma operação de aplicação da lei. Houve um esforço prévio para criar uma justificativa narrativa para o que fizeram depois."

"Creio que seria ingênuo não questionar se estão tentando fazer algo parecido neste caso", conclui Bustamante.

Nos últimos meses, surgiram especulações sobre as atividades dos serviços de inteligência da China e da Rússia em Cuba, além de uma possível compra de drones iranianos pelo governo cubano para se defender de uma incursão dos EUA.

A falta de combustível interrompeu a coleta de lixo em Havana, obrigando moradores a queimar os resíduos
A falta de combustível interrompeu a coleta de lixo em Havana, obrigando moradores a queimar os resíduos
Foto: Anadolu vía Getty Images / BBC News Brasil

No entanto, a ideia desenvolvida pelo relatório de que Cuba representa uma ameaça latente e extremamente perigosa contrasta, à primeira vista, com a narrativa defendida pelo próprio Trump de que o governo da ilha está mais frágil do que nunca e prestes a desmoronar.

Sobre isso, o relatório do Departamento de Estado afirma que "confundir a pobreza de Cuba com a ausência de perigo é interpretar de forma completamente equivocada a ameaça".

"Sua fraqueza material nunca foi a medida de sua capacidade de causar danos. Seu poder sempre foi ideológico, subversivo e parasitário", diz o documento.

Bustamante questiona, no entanto, que Cuba representa atualmente um modelo alternativo de desenvolvimento capaz de inspirar o restante do mundo. "Qualquer pessoa que passe um mínimo de tempo na ilha teria sérias dúvidas a esse respeito."

O próprio governo comunista vem desmontando há anos alguns aspectos de seu modelo econômico socialista para favorecer o setor privado, e "os economistas cubanos mais prestigiados afirmam que Cuba não é modelo para ninguém e que o país precisa de mudanças profundas".

A BBC perguntou ao Departamento de Estado dos EUA por que o relatório de 100 páginas sobre Cuba foi divulgado justamente neste momento.

O órgão respondeu que "os estreitos vínculos de Cuba com o extremismo de esquerda americano são uma das grandes histórias não contadas dos últimos 60 anos".

"O objetivo deste relatório é contar essa história de forma completa pela primeira vez."

Díaz-Canel, presidente de Cuba, respondeu à narrativa dos EUA afirmando que a história verdadeira é completamente diferente da apresentada pelo relatório.

"O que a Revolução Cubana fez ao longo de sua história foi se defender dessas agressões sucessivas e intermináveis, por legítimo direito."

"Cuba jamais agiu para prejudicar o povo americano nem pretendeu afetar a segurança nacional dos EUA", afirmou Díaz-Canel.

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