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'Talvez, se morrermos, poderemos brincar': os comoventes desenhos de crianças afetadas pela guerra na Síria

Bombas, choro, mortes e prisões estão entre temas retratados por crianças de até 14 anos que vivem conflito sangrento em seu país e recebem assistência de médicos e psicólogos.

2 mai 2018
10h48
atualizado às 11h22
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"Talvez, se morrermos, poderemos brincar". Este é um sentimento ecoado por várias crianças que sofrem com a guerra na Síria, diz o médico Mohammad Khalid Hamza.

As crianças, assim como a população civil, foram empurradas para um sangrento teatro de guerra há sete anos (2011), no conflito entre governo e rebeldes que já deixou mais de 350 mil mortos, provocou a fuga de 5 milhões de pessoas para outros países, devastou cidades e envolveu outros países.

Hamza lidera um time de médicos e psicólogos da Sociedade Médica Sírio-Americana (Sams) que trabalha com crianças afetadas pelos sete anos de conflito. Ele e outras organizações humanitárias têm coletado desenhos feitos pelos pequenos pacientes.

As obras, feitas por crianças de até 14 anos, revelam como elas enxergam a guerra. Os nomes de alguns dos autores foram omitidos por razões de segurança.

As legendas neste desenho dizem: "Força aérea de Assad (presidente da Síria)", "ambulância", "as crianças de Khan Sheikhoun" e "sangue das crianças". Segundo a ONU, a cidade de Khan Sheikhoun foi palco, em abril de 2017, de um ataque químico promovido por forças do governo e que deixou dezenas de mortos, entre eles, várias crianças; o governo nega ter realizado o ataque.
As legendas neste desenho dizem: "Força aérea de Assad (presidente da Síria)", "ambulância", "as crianças de Khan Sheikhoun" e "sangue das crianças". Segundo a ONU, a cidade de Khan Sheikhoun foi palco, em abril de 2017, de um ataque químico promovido por forças do governo e que deixou dezenas de mortos, entre eles, várias crianças; o governo nega ter realizado o ataque.
Foto: SAMS / BBC News Brasil
As palavras escritas em vermelho dentro das lágrimas dizem: "Bela Síria".
As palavras escritas em vermelho dentro das lágrimas dizem: "Bela Síria".
Foto: Save the Children / BBC News Brasil
Este desenho mostra um aparente ataque aéreo com mísseis atingindo um edifício. O texto acima do soldade que dispara uma metralhadora diz: "Este é nosso exército de resistência. Nação, honra e lealdade".
Este desenho mostra um aparente ataque aéreo com mísseis atingindo um edifício. O texto acima do soldade que dispara uma metralhadora diz: "Este é nosso exército de resistência. Nação, honra e lealdade".
Foto: SAMS / BBC News Brasil
Este desenho mostra um adulto de pé ao lado de um cadáver. "Isto é a Síria", diz a frase escrita acima do desenho. O médico Hamza, neuropsicólogo da Sociedade Médica Sírio-Americana, diz que as crianças que conheceu se mostraram desprovidas de qualquer esperança no futuro.
Este desenho mostra um adulto de pé ao lado de um cadáver. "Isto é a Síria", diz a frase escrita acima do desenho. O médico Hamza, neuropsicólogo da Sociedade Médica Sírio-Americana, diz que as crianças que conheceu se mostraram desprovidas de qualquer esperança no futuro.
Foto: Save the Children / BBC News Brasil
Mais da metade da população da Síria foi desalojada por causa da guerra. Mais de 5,6 milhões sírios deixaram o país. Apesar dos riscos em cruzar o mar Mediterrâneo em embarcações inadequadas e controladas por coiotes - muitos barcos viraram ou naufragaram, deixando centenas de mortos - milhares de refugiados têm buscado asilo na Europa. Desenho feito por uma criança mostra uma embarcação no mar com um grupo de pessoas à bordo e outras na água.
Mais da metade da população da Síria foi desalojada por causa da guerra. Mais de 5,6 milhões sírios deixaram o país. Apesar dos riscos em cruzar o mar Mediterrâneo em embarcações inadequadas e controladas por coiotes - muitos barcos viraram ou naufragaram, deixando centenas de mortos - milhares de refugiados têm buscado asilo na Europa. Desenho feito por uma criança mostra uma embarcação no mar com um grupo de pessoas à bordo e outras na água.
Foto: SAMS / BBC News Brasil
"Minha pátria", diz a legenda acima do desenho. Mais de 118 mil sírios foram presos ou desapareceram desde 2011. A grande maioria foi detida por forças governamentais, de acordo com a Rede Síria pelos Direitos Humanos, um grupo de monitoramento internacional.
"Minha pátria", diz a legenda acima do desenho. Mais de 118 mil sírios foram presos ou desapareceram desde 2011. A grande maioria foi detida por forças governamentais, de acordo com a Rede Síria pelos Direitos Humanos, um grupo de monitoramento internacional.
Foto: SAMS / BBC News Brasil
A legenda na parte superior do desenho diz: "Irmãos: Safa, Zahra, Fatima, Osama, Joud". A legenda na parte inferior do desenho diz (da esquerda para a direita): "Meu pai em 2010", "Meu pai em 2011", "Meu pai em 2014".
A legenda na parte superior do desenho diz: "Irmãos: Safa, Zahra, Fatima, Osama, Joud". A legenda na parte inferior do desenho diz (da esquerda para a direita): "Meu pai em 2010", "Meu pai em 2011", "Meu pai em 2014".
Foto: SAMS / BBC News Brasil
Myassar, de 14 anos: "Eu desenhei a mim e à minha irmã chorando quando meu pai nos deixou, há dois anos. Não sabemos nada dele. Esta é minha lembrança mais triste".
Myassar, de 14 anos: "Eu desenhei a mim e à minha irmã chorando quando meu pai nos deixou, há dois anos. Não sabemos nada dele. Esta é minha lembrança mais triste".
Foto: UNICEF / BBC News Brasil
Este desenho de uma criança síria parece mostrar a torre do relógio, na praça central de Homs, como era antes e depois da guerra. A terceira maior cidade da Síria já foi considerada a "capital da revolução" contra o president Bashar al-Assad. Ela foi devastada no enfrentamento entre governo e forças rebeldes.
Este desenho de uma criança síria parece mostrar a torre do relógio, na praça central de Homs, como era antes e depois da guerra. A terceira maior cidade da Síria já foi considerada a "capital da revolução" contra o president Bashar al-Assad. Ela foi devastada no enfrentamento entre governo e forças rebeldes.
Foto: SAMS/AFP / BBC News Brasil

O desenho acima cita um poema do famoso poeta tunisiano Abu al-Qasim al-Shabbi, chamado A vontade de viver. É um verso amplamente ensinado nas escolas do mundo árabe e que se tornou um dos "gritos de Guerra" dos protestos da Primavera Árabe, movimento popular que reivindicava a transição dos regimes autoritários para a democracia.

O primeiro verso diz:

"Se um dia o povo deseja viver, então o destino vai responder ao seu clamor. A noite vai desvanecer e as correntes vão se quebrar e cair".

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