'Está tudo destruído', diz morador de cidade onde morreu Kadafi
"É a minha casa, é a minha loja. Está tudo destruído", lamenta-se Beifala Omar, 25 anos. A declaração foi dada enquanto ele tentava limpar o que havia restado das ruínas em Sirte, a cidade que serviu de último refúgio de Muamar Kadafi.
Depois de semanas de bombardeios diários e de combates pesados, comboios começam a sair da cidade, deixando para trás apenas a devastação. "Nós estamos indo para casa. Acabou, Kadafi está morto", disse um veterano do Conselho Nacional de Transição (CNT). No centro da cidade, as enfermeiras estão ocupadas com os cerca de 175 corpos dos últimos soldados de Kadafi.
Pelo menos outros 25 corpos carbonizados encontrando-se espalhados nas proximidades. O Hotel Al-Mahari, que teve as paredes crivadas de balas, tem mais de 60 corpos espalhados pelo gramado.
"O hotel foi usado como prisão pelos os homens de Kadafi, quando prenderam nossos homens e os executaram antes de fugir", contou Sharif Ahmad Sharif, um veterano pró-CNT. Quanto mais perto do centro da cidade, maior é a devastação. Não existe um único edifício intacto, o chão está tomado de cápsulas de bala. Todas as lojas estão fechadas, e não há nenhum vestígio dos milhares de moradores.
A área 2, onde os últimos pró-Kadafi se refugiaram, é a mais atingida. Resta apenas escombros, telhados desabados e postes caídos sob um céu cinzento. Ahmad Ali deixou a cidade, mas voltou para tentar recuperar o que pouco sobrou. "Não tenho nada para fazer aqui. Sirte acabou", disse.
"Algumas famílias estão voltando para fazer negócios. Mas ninguém fica, todos vão embora imediatamente", observou Slimane Kilani. Omar Beifala quer, no entanto, voltar. Junto com amigos, tentou retirar os escombros diante da casa em que vivia com sua família. O imóvel está destruído e também foi saqueado. "Foram os homens de Kadafi e os revoluconários que fizeram isso. Para nós, eles são todos iguais. Sabia que os combates tinham sido muito violentos, mas tudo isso é triste. Muito triste", concluiu.
Insurreição líbia culmina com queda de Sirte e morte de Kadafi
Motivados pelos protestos que derrubaram os longevos presidentes da Tunísia e do Egito, os líbios começaram a sair às ruas das principais cidades do país em fevereiro para contestar o coronel Muammar Kadafi, no comando desde a revolução de 1969. Rapidamente, no entanto, os protestos evoluíram para uma guerra civil que cindiu a Líbia em batalhas pelo controle de cidades estratégicas de leste a oeste.
A violência dos confrontos gerou reação do Conselho de Segurança da ONU, que, após uma série de medidas simbólicas, aprovou uma polêmica intervenção internacional, atualmente liderada pela Otan, em nome da proteção dos civis. No dia 20 de agosto, após quase sete meses de combates, bombardeios, avanços e recuos, os rebeldes iniciaram a tomada de Trípoli, colocando Kadafi, seu governo e sua era em xeque.
Dois meses depois, os rebeldes invadiram Beni Walid, um dos últimos bastiões de Kadafi. Em 20 de outubro, os rebeldes retomaram o controle de Sirte, cidade natal do coronel e foco derradeiro do antigo regime. Os apoiadores do CNT comemoravam a tomada da cidade quando os rebeldes anunciaram que, no confronto, Kadafi havia sido morto. Estima-se que mais de 20 mil pessoas tenham morrido desde o início da insurreição.