Arábia Saudita prepara 2ª eleição de sua história
Um milhão e meio de homens sauditas estão convocados às urnas nesta quinta-feira para escolher os Conselhos Municipais nas segundas eleições da história do país, marcadas pela falta de confiança nestes órgãos e pela exclusão das mulheres.
Segundo a Comissão Eleitoral Suprema, o número de eleitores inscritos se aproxima de 1,5 milhão, o que representa 35% da população com direito a voto, em um país habitado por 26 milhões de pessoas.
Esses eleitores terão que escolher entre os 5.323 candidatos que se apresentaram para ocupar as 1.623 cadeiras em jogo em 258 Conselhos Municipais, enquanto a outra metade dos assentos é designada pelo governo.
A pouca proporção de habitantes com direito a voto provocou receios, o que se soma à proibição para as mulheres, marginalizadas historicamente neste país ultraconservador que impõe a segregação de sexos em espaços públicos.
Ainda que no último dia 25 o rei saudita, Abdullah bin Abdul Aziz, tenha decidido permitir as mulheres participar como eleitoras e candidatas nas eleições municipais, isto não se aplicará aos próximos pleitos de dentro de quatro anos.
O cidadão Naif al Maala, de 28 anos, disse à Agência Efe que o número de eleitores está "inflado" e prevê que a participação vai ser muito limitada porque "os cidadãos já não confiam na capacidade de ação dos Conselhos Municipais".
Esta preocupação é compartilhada pelo candidato de Yanbu, Ahmad Rifai, que detalhou que os eleitores recenseados em sua cidade não ultrapassam os 8 mil, de uma população de 300 mil.
Rifai criticou a negligência do Estado na hora de sensibilizar e motivar os cidadãos a participar das eleições: "Em Yanbu, não há indícios que vá acontecer eleições, não há cartazes nem anúncios eleitorais nas ruas".
Desde as redes sociais foram lançadas várias chamadas para pedir o boicote ao processo eleitoral, já que o consideram uma "falta de confiança em sua eficácia e utilidade", afirmou à Efe o ativista Mohammed Khaldi, de 32 anos.
O ativista acrescentou que os Conselhos Municipais sauditas "não são independentes do Poder Executivo, e não exercem nenhum papel de supervisão, e o único que fazem é apresentar recomendações não-obrigatórias perante o Executivo".
À revelia de um Parlamento eleito pelo povo, estes órgãos, que foram votados pela primeira vez em 2005, se encarregam de aconselhar sem nenhum poder de censura ou controle nos assuntos internos do país, governado por uma monarquia com poderes absolutos.
Khaldi também declarou que "as pessoas têm a impressão que a maioria dos candidatos concorrem apenas para ganhar fama, importância social e privilégios financeiros".
Além disso, frisou que a maioria dos registrados como eleitores são parentes ou amigos dos candidatos "pois ninguém tem interesse em programas eleitorais, que em sua maior parte, nunca serão cumpridos".
A desconfiança dos eleitores nesses pleitos também aumentou, aparentemente, depois que a Comissão Eleitoral descartou alguns candidatos por razões desconhecidas.
Entre os aspirantes excluídos figura o escritor e ativista político Fuad al Farhan, conhecido por sua luta contra a corrupção e preso vários meses durante 2008 por suas críticas políticas.
Por sua parte, o candidato Abdel Rahman al Hosseini, um famoso apresentador de televisão, é otimista em relação ao futuro dessas eleições apesar de reconhecer os limitados poderes do Conselho Consultivo.
"Não se pode esquecer que (essas eleições) são uma prova prematura. Eu acredito em nossa capacidade para realizá-la, e as próximas eleições serão mais satisfatórias para os cidadãos", ressaltou Al Hosseini.
No entanto, o apresentador mostrou suas reservas por algumas medidas que obstaculizaram sua campanha, "já que a Comissão Eleitoral proibiu os candidatos de divulgarem seus programas na televisão, instituições estatais, clubes esportivos e centros culturais".
Por sua parte, o porta-voz eleitoral Yadia al Qahtani, justificou essas medidas em declarações à Efe ao garantir "que têm o objetivo de não influenciar na orientação dos eleitores".