ONU envia comboio humanitário à Síria em meio a trégua frágil entre forças curdas e governo de Damasco
Um comboio humanitário da ONU chegou neste domingo (25) a Kobane, cidade síria de maioria curda que abriga milhares de deslocados após os recentes combates. A operação ocorre após a extensão, no sábado (24), do acordo de cessar-fogo entre o governo sírio e as forças curdas por mais 15 dias — decisão tomada depois que a minoria curda concordou em ceder amplas zonas de território às tropas de Damasco para "apoiar a operação norte‑americana destinada a transferir detentos" do Estado Islâmico para o Iraque.
Com informações de Marie‑Charlotte Roupie, enviada especial da RFI a Qamishli, e AFP
O Exército sírio anunciou a abertura de um corredor humanitário para Kobane, (também chamada de Ain al-Arab) símbolo da resistência curda contra o grupo Estado Islâmico (EI) durante a guerra civil. No início da semana, moradores relataram à AFP falta de alimentos, água e eletricidade, e denunciaram que o enclave estava sobrecarregado por pessoas em fuga diante do avanço das forças governamentais.
A chegada do comboio foi confirmada por Celine Schmitt, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR) na Síria. Segundo a ONU, o envio foi coordenado com o governo sírio, atualmente liderado por Ahmed al‑Sharaa, que tenta consolidar o controle nacional após a deposição de Bashar al‑Assad no final de 2024. Al‑Sharaa, líder islamista, assumiu o poder após uma coalizão insurgente forçar a fuga de Assad, encerrando mais de 13 anos de conflito contínuo.
Prorrogação da trégua
No sábado à noite, o Ministério da Defesa da Síria anunciou oficialmente a prorrogação do cessar-fogo, justificando a decisão pela necessidade de apoiar a operação americana que visa transferir milhares de detentos do EI mantidos em prisões curdas.
As Forças Democráticas Sírias (FDS), dominadas pelos curdos, confirmaram que a extensão ocorreu graças à mediação internacional e afirmaram estar comprometidas com o acordo "para contribuir com a redução das tensões, a proteção dos civis e a criação de condições de estabilidade".
O cessar-fogo, decretado em 20 de janeiro, vinha sendo amplamente respeitado, após as forças curdas se retirarem de certas áreas sob pressão de Damasco, que reforçou posições ao redor de um importante reduto curdo no nordeste. Diante dessas mudanças, os Estados Unidos anunciaram a intenção de transferir para o Iraque até 7 mil suspeitos do EI detidos pelas forças curdas.
Insegurança persiste entre os civis
Apesar da trégua, a população nas regiões curdas permanece temerosa. Em Qamishli, moradores entrevistados pela RFI, um árabe e um curdo, disseram não estar mais tranquilos com a extensão: "O que pode ser resolvido em 15 dias? Estaremos na mesma situação quando o cessar-fogo terminar".
As autoridades curdas buscavam um prazo de 30 dias para retomar negociações com Damasco sobre dois pontos centrais: a possível integração das forças curdas ao Exército sírio e a manutenção de algum nível de autonomia administrativa nas áreas curdas. Esses temas estão paralisados há quase um ano e parecem difíceis de resolver no curto período da trégua.
O governo sírio anunciou a abertura de corredores humanitários, mas sem especificar os locais. Uma fonte curda afirma que a proposta enviada a Damasco pelo enviado norte-americano Tom Barrack inclui a exigência síria de controlar as passagens fronteiriças e prevê que uma parte das receitas, especialmente as do petróleo, seja destinada às regiões curdas.
Atualmente, as forças curdas mantêm controle apenas sobre duas áreas isoladas: uma ao redor de Qamishli, no extremo nordeste, e outra em Kobane, mais a oeste. Os curdos denunciam o cerco imposto a Kobane, enquanto moradores relatam escassez de combustível, que ameaça o aquecimento e o funcionamento de serviços básicos.