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'O escândalo de dados do Facebook mudou o jogo'

Executiva do fundo Omidyar Network quer ajudar gigantes de tecnologia a 'enxergar' sua responsabilidade

10 jun 2018
05h04
atualizado às 09h45
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A cingapuriana Paula Goldman tenta, há seis meses, resolver um dos enigmas mais difíceis da internet hoje: como acabar com as notícias falsas e impedir o uso de redes sociais para manipulação de eleições? Enquanto muitos acreditam que tratam-se de problemas insolúveis, Paula se mantém otimista. "É um momento de grande oportunidade", diz ela.

A executiva lidera o Laboratório de Soluções de Tecnologia e Sociedade, criado em dezembro de 2017 pelo Omidyar Network - fundo de investimentos americano fundado pelo bilionário Pierre Omidyar, que criou o site de compra e venda eBay. Depois de anos liderando aportes do fundo, Paula, que é Ph.D pela Universidade de Harvard, decidiu entender as consequências inesperadas do crescente uso de tecnologia. Leia a seguir trechos da entrevista.

Por que a Omidyar Network decidiu criar o laboratório?

O Omidyar Network é um fundo de investimento em empresas e organizações sem fins lucrativos. Por mais de dez anos achávamos que a tecnologia conectaria as pessoas e permitiria coisas fabulosas para o mundo. Isso aconteceu, mas a tecnologia também trouxe consequências inesperadas. Começamos a ouvir sobre as notícias falsas, estrangeiros tentando interferir em eleições e pessoas cometendo todo tipo de abuso em plataformas online. Por isso, decidimos ajudar as empresas de tecnologia a desenvolver mais responsabilidade em relação aos produtos que colocam no mundo.

Qual o porte do laboratório atualmente?

Nós somos como uma startup. A equipe tem cinco pessoas, mas vamos contratar mais gente conforme os projetos aumentarem.

Em que tipo de iniciativas estão trabalhando?

Financiamos pesquisas de instituições externas, como é o caso do Center for Humane Technology, pois eles têm realizado um ótimo trabalho. Também estamos financiando pesquisas no Reino Unido. Além disso, temos iniciativas próprias: estamos preparando uma competição para estudantes de Ciências da Computação, que vai ligar a ideia de responsabilidade à programação. Também estamos ajudando a criar uma comissão acadêmica independente que terá acesso a dados do Facebook e poderá fazer estudos sobre seu papel nas eleições e impacto na democracia.

Por que isso é importante?

Em um mundo em que essas empresas têm tanto poder, vamos precisar de instituições independentes que possam acessar dados de forma responsável e apontar algumas tendências. Não podemos deixar isso para as plataformas. Precisamos engajar a sociedade.

Qual é o maior desafio para colocar os projetos em prática?

Cada um deles traz desafios diferentes, mas estamos num momento em que temos uma grande oportunidade. O escândalo do uso ilícito de dados do Facebook pela Cambridge Analytica foi um divisor de águas na história recente. Isso mudou o jogo e as pessoas estão famintas por soluções. O problema está claro. O que precisamos é definir o que são boas práticas.

Mesmo antes do escândalo do Facebook, as empresas de tecnologia já estavam sob críticas, após anos sendo vistas como salvadoras. O que mudou?

Várias coisas mudaram. Uma delas foi a tentativa de interferência externa nas eleições dos Estados Unidos e o próprio uso dessas plataformas durante campanhas eleitorais. Além disso, as pessoas tomaram consciência de que a tecnologia se tornou parte de nossa vida e que o poder está nas mãos dos inovadores. Com isso, o nível de responsabilidade das empresas aumentou.

Os esforços recentes das gigantes em relação ao bem-estar digital já são uma reação?

Eu vejo isso como uma melhoria e estou empolgada com essa tendência, pois gera impacto para as pessoas individualmente. Vejo isso pela minha própria experiência. Muitas vezes me pego olhando para o meu celular e penso 'O que eu fiz na última hora da minha vida?'. Acho que os anúncios recentes de Google e Apple (ler mais abaixo) são o início de uma onda crescente.

As empresas estão abertas a debater sua responsabilidade?

Sim, absolutamente. Não é legal ver sua empresa nas manchetes dos jornais diariamente. As companhias sabem que isso é ruim para os negócios. Elas estão em busca de soluções para seus problemas.

Países emergentes, como o Brasil, podem ajudar?

Temos visto um aumento nas discussões em países emergentes. O Brasil é um dos maiores mercados para todas as grandes empresas de tecnologia e o País tem condições de exercer enorme influência sobre a forma como essas plataformas funcionam.

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Foto: Leah Millis / Reuters

 

Estadão Conteúdo

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