Londres pós-2005: do impacto do terror à recuperação plena
- Ulisses Neto
- Direto de Londres
No dia 7 de julho de 2005, aconteceu o que para a maioria dos britânicos parecia inevitável: Londres foi atacada em mais uma ação terrorista articulada pela rede Al-Qaeda. A capital do Reino Unido acabou sendo atingida em seu sistema de transporte público, um dos maiores símbolos da cidade onde milhões de pessoas circulam diariamente. Três homens-bomba se detonaram no metrô por volta das 8h50, horário de pico em que os londrinos superlotam cada vagão disponível. Um quarto extremista explodiu um ônibus de dois andares que trafegava por uma tranquila praça na região central.
Os atentados deixaram 56 pessoas mortas (incluindo os quatro terroristas), mais de 700 feridos e uma situação caótica para equipes de emergência, policiais e autoridades do transporte público. Ainda assim, a resposta dos moradores de Londres foi imediata e direta. A frase "não estamos com medo" se tornou um símbolo local e inspirou seus moradores para retornar à rotina o mais rápido possível.
"Os atentados de julho de 2005 foram os piores ataques terroristas realizados na história de Londres. Um ato indiscriminado de assassinato em massa contra os londrinos, independentemente de suas origens, crenças ou cor", lembra Ken Livingstone, prefeito da capital britânica à época das explosões. "A escolha do alvo - o sistema de transporte onde toda a cidade se encontra - não poderia ter atingido os moradores de forma mais impactante", diz.
Apesar do choque inicial, o político trabalhista destaca que "os londrinos responderam a esses eventos com uma calma extraordinária e ainda enfrentaram juntos a subsequente tentativa de atentado (frustrada pela polícia) no dia 21 de Julho. Por meio dessa união, foi possível mostrar que aqui ninguém viraria a cara para o outro, como a Al-Qaeda e seus seguidores gostariam".
De fato, a reação dos moradores da capital britânica aos atentados foi surpreendente. Poucas horas após as explosões e mesmo com grande parte do transporte público paralisado, Londres já tentava retomar sua rotina normal. "Essa reação foi algo bastante impressionante mesmo, que começou momentos após os ataques", explica Paulo Pimentel, diretor da ONG britânica Survivors of Terrorism, que atuou no atendimento às vítimas da ação terrorista no metrô.
"As explosões ocorreram em uma quinta-feira e no domingo seguinte a rainha Elizabeth II já estava participando de um evento público, desfilando em carro aberto, com milhares de pessoas nas ruas celebrando a ocasião. Muitos estavam com bandeiras com a frase 'não estamos com medo', no que me parecia até um ato de provocação aos terroristas", relembra o psicólogo português radicado na Inglaterra há cerca de 40 anos.
Pimentel conta que, apesar da demonstração de confiança, parte dos londrinos ficou chocada com os ataques terroristas e muita gente preferiu evitar o metrô na sequência dos atentados. "Nosso site chegou a receber dois milhões e meio de visitas. Era gente procurando ajuda, interessada no apoio que poderiamos oferecer", avalia.
As explosões no metrô foram tão violentas que bloquearam os túneis por onde circulam os trens em três linhas diferentes. O sistema só retornou às operações normais quase um mês após os ataques. Com isso, os londrinos puderam retomar suas vidas. Mas os impactos causados pelos atentados logo foram percebidos.
A presença de policiais fortemente armados nas grandes estações ferroviárias e aeroportos se tornou constante. O número de câmeras de vigilância nos vagões do metrô e nos ônibus, que já era elevado, se multiplicou. E os padrões de segurança nos serviços de emergência foram drasticamente revistos. "Implantamos um grande número de mudanças nos nossos serviços ao longo dos últimos anos", revela Peter Bradley, superintendente do Serviço de Ambulância de Londres.
"Entre as novidades, estão melhorias nos sistema de controle, onde recebemos as chamadas de emergência, a introdução de rádios comunicadores mais eficazes e a aquisição de novos veículos", aponta. Novos métodos de treinamento dos profissionais também foram aplicados. Bradley acredita que "dessa forma, nos colocamos em uma posição muito melhor de preparo para lidar com incidentes similares no futuro".
O inquérito judicial que avaliou a atuação das equipes de emergência e o serviço de inteligência britânicos durante os atentados de sete de Julho só foi concluído no último mês de maio. A juíza responsável pela investigação apurou as reclamações e denúncias sobre a demora no atendimento das vítimas e os erros da polícia no monitoramento dos terroristas que planejaram as explosões em território inglês. No final dos trabalhos, a Justiça decidiu inocentar todas as autoridades envolvidas nas operações afirmando que, "infelizmente, nenhuma morte poderia ter sido evitada". Ainda assim, os comandantes dos serviços de emergência prometeram continuar revisando suas operações para evitar novos ataques.
Hoje, não fosse pelos arquivos da imprensa e pela memória coletiva, um turista que chega a Londres dificilmente saberia dos atentados terroristas no transporte público. As estações atingidas estão totalmente recuperadas e poucas mudanças práticas para os usuários foram implantadas, exceto pelo monitoramento constante e pela presença policial. Os moradores da cidade fazem questão de garantir que o episódio foi superado.
"As pessoas em Londres temem ações da Al-Qaeda, sem dúvida. Mas, em 2005, nós vimos um retorno bastante rápido da metrópole ao seu funcionamento normal", avalia a professora da Universidade de Surrey Marie Breen-Smyth. A pesquisadora dos impactos causados por conflitos armados na sociedade aponta que a capital britânica tentou não se abater com o terrorismo. "Evidente que muitos moradores ficaram ansiosos e com medo. Mas a vida seguiu. As pessoas logo retornaram suas atividades e continuaram suas vidas normalmente".
A ameaça de uma nova ação extremista segue viva e as autoridades mantêm o nível de alerta elevado, considerando um ataque como "altamente provável". E com os Jogos Olímpicos de 2012, a possibilidade de Londres ser novamente alvo de atentados terroristas cresce ainda mais. De qualquer forma, o governo garante que está preparado para essa situação.
"Gostaria de reassegurar a todos os londrinos e visitantes da nossa grande capital que muita coisa mudou nos nossos protocolos de emergência, procedimentos e equipamentos desde o 7 de julho", garante o prefeito de Londres, Boris Johnson. Para ele, Londres é, sim, uma capital bastante segura.