Itália: casa tremia como gelatina, diz brasileira após terremoto
- Danielle Sousa
- Direto de Milão
Há seis anos na Itália, a brasileira Fabiana Nepomuceno passou por momentos de desespero no último domingo, durante o terremoto de 6 graus na escala Richter que deixou sete mortos e um rastro de destruição no norte do país. Fabiana, natural de Salvador (BA), mora em Ferrera com o marido e os dois filhos. Desde o tremor, ela diz que sente medo e só entra em casa quando é extremamente necessário. Nos restante do tempo, fica dentro do carro da família.
Na madrugada de domingo, Fabiana e a família, que dormiam no segundo andar da casa onde vivem, acordaram com "um estranho tremor", contou a brasileira. "Não me passou pela cabeça que poderia ser um terremoto, a casa se movia como se fosse uma gelatina, e nós não entendíamos o porquê. No quarto das crianças, alguns objetos caíram no chão, então, resolvemos sair de casa para ver o que estava acontecendo", descreveu.
Quando Fabiana saiu de casa com a família, viu que a chaminé da lareira da casa vizinha estava caída no seu terreno e que centenas de pessoas estavam na rua desesperadas. "Quando saímos para ver o que era, começamos a falar com os vizinhos e vi pedaços de construção pela rua. Entendi que se tratava de um terremoto. Meus filhos estavam desesperados e a única coisa que me passou pela cabeça foi querer voltar para casa, para o meu país", relembrou a dona de casa.
Fabiana, o marido e os filhos, passaram o resto da madrugada no carro da família em um estacionamento. Outras famílias de Ferrara fizeram o mesmo. Desde então, o carro passou a ser a casa da família. Quando é preciso pegar alguma coisa em casa, Fabiana diz que entra e sai o mais rápido possível, temendo um novo terremoto. "Eu imagino sempre que vai acontecer de novo. Se eu tivesse dinheiro voltava para o Brasil imediatamente. Quero ficar perto da minha família. Tenho muito medo de ficar aqui. Estamos apavorados. Os meus filhos não querem entrar na nossa casa", desabafou.
Segundo o diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia de Roma, Antonio Piersanti, não é possível afirmar no momento se a região sofrerá com novos tremores fortes. Por isso, é melhor que as pessoas não voltem para suas casas. "No domingo, iniciou uma sequência sísmica, que posso garantir que vai continuar. Da meia-noite de terça-feira até 11h desta quarta-feira foram registrados entre 15 e 20 tremores. O mais forte nesta quarta, às 8:51 (horário italiano), foi de magnitude 3,7. Não podemos afirmar se teremos tremores fortes novamente, mas a população dos locais atingidos pelo terremoto não deve retornar para casa por enquanto", explicou Piersanti.
O terremoto do último domingo atingiu os territórios de Bolonha, Modema, Ferrara e Mantova, no norte da Itália. Finale Emília foi uma das cidades mais destruídas, o centro histórico foi completamente evacuado e está isolado, porque muitos prédios ainda perdem pedaços e apresentam risco de desabarem por completo.
Sete pessoas morreram e cerca de 50 ficaram feridas. Dois dos mortos eram operários, que estavam trabalhando no momento do tremor. Eles viviam na cidade de Santo Agostinho, visitada pelo primeiro-ministro, Mário Monti. O premiê e sua comitiva foram recebidos com hostilidade por parte da população, que gritava "vergonha, voltem para casa".
Durante a visita, Mario Monti anunciou a suspensão da obrigação de pagamento de impostos por parte da população e das empresas da região atingida. Ele disse ainda que serão estudadas formas de estimular os bancos a darem empréstimos para as empresas recomeçarem as suas atividades. Além disso, o governo italiano se comprometeu a avaliar todos os pedidos feitos pelas prefeituras das cidades atingidas pelo terremoto. Foi declarado estado de emergência de 60 dias e liberados 50 milhões de euros para ajudar as regiões que sofreram danos.
Seguro contra terremotos
Esta pode ser a última vez que famílias vítimas de terremoto na Itália recebem a ajuda do governo para reconstruir suas casas. Dois meses atrás, começou a ser discutido pelo governo um "seguro obrigatório anticalamidade", que na prática significa que cada cidadão italiano será obrigado a assegurar a casa contra terremotos. Segundo os primeiros cálculos do governo, o valor anual a ser pago será de 100 euros (cerca de R$ 250) por cada casa. O governo italiano espera colocar em prática a nova lei em no máximo em 90 dias, mas já afirmou que a população do norte da Itália, atingida pelo último terremoto receberá ajuda, como era previsto antes da nova decisão.