Indulgências voltam e céu fica mais próximo para católicos
Paul Vitello
Os anúncios, em quadros de avisos e sites de igrejas, foram recebidos com entusiasmo por alguns e cautela por outros. Mas, em termos gerais, uma imensa geração de católicos romanos os ignorou por não fazer idéia do que significava o título "bispo anuncia indulgências plenárias". Nos últimos meses, dioceses de todo o mundo vêm oferecendo aos católicos um benefício espiritual que havia saído de moda décadas atrás - indulgências, uma forma de anistia para as punições que os aguardariam no Além. Isso serve como lembrete sobre o poder da Igreja para mitigar as consequências do pecado.
O fato de que muitos católicos com menos de 50 anos jamais tenham solicitado uma indulgência e nem mesmo tenham ouvido falar do assunto exceto como parte das aulas de História no segundo grau (Martinho Lutero denunciou a venda de indulgências em 1517 e deu início à Reforma protestante) simplesmente torna mais urgente a tarefa de reintroduzi-las, para líderes religiosos determinados a restaurar a tradição cada vez menos respeitada, em um mundo que eles vêem como autocomplacente em excesso."Por que estamos voltando às indulgências?, perguntou o bispo Nicholas DiMarzio, de Brooklyn, um dos defensores da idéia. "Porque existe pecado no mundo".
Como a missa em latim e as sextas-feiras sem carne, a indulgência foi uma das tradições alijadas das práticas dominantes do catolicismo por efeito do Concílio Vaticano 2°, nos anos 60. Naquela reunião dos prelados que lideravam a Igreja, foi adotado um novo tom de simplicidade e informalidade nos ritos religiosos católicos. A retomada das indulgências vem sendo considerada como sinal de um retorno ao conservadorismo que causou algumas mudanças discretas e algumas altamente controvertidas, como a recente decisão do Papa Bento 16 de suspender a excomunhão de quatro bispos que promoveram um cisma por rejeitarem as decisões do concílio. A indulgência está entre as tradições menos percebidas e menos contestadas que foram restauradas. Mas com uma história milenar e inúmeros volumes de leis religiosas dedicados ao estudo de suas complicações, ela é uma das mais difíceis de explicar.
De acordo com a doutrina da Igreja, mesmo depois que os pecadores são absolvidos no confessionário e rezam as orações prescritas como penitência, ainda enfrentam punição pós-morte no purgatório, antes que possam ser admitidos ao céu. Em troca de certas orações, devoções e peregrinações em anos especiais, um católico pode receber uma indulgência, que reduz ou elimina essa punição instantaneamente, sem cerimônia formal ou sacramento.
Existem indulgências parciais, que reduzem em determinado número de dias ou anos o tempo no purgatório, e indulgências plenárias, que eliminam toda a punição até que outro pecado seja cometido. É possível obter indulgências para você mesmo ou para alguém que já morreu. Não é possível comprá-las - a venda de indulgências foi proibida pela Igreja em 1567 -, mas contribuições de caridade, combinadas a outras ações, podem ajudar a obtê-las. Há um limite de uma indulgência plenária por pecador por dia.E indulgências não têm valor no inferno.
"Isso é o quê?", perguntou Marta de Alvarado, caixa de um banco em Manhattan, quando informada de que haveria indulgências disponíveis em diversas igrejas de Nova York este ano. "Não sei nada sobre isso", ela disse, ao sair da catedral de São Patrício na hora do almoço. "Mas vou procurar me informar".
O retorno das indulgências começou com o Papa João Paulo 2°, que autorizou os bispos a oferecê-las, em 2000, como parte das celebrações do terceiro milênio da Igreja. Mas as ofertas se ampliaram consideravelmente sob seu sucessor, Bento 16, que tornou as indulgências plenárias parte das celebrações de aniversários da Igreja nove vezes, nos últimos anos. A mais recente oferta está vinculada à celebração do aniversário de São Paulo, que se estenderá até junho.
As dioceses nos Estados Unidos responderam com graus variados de entusiasmo à idéia. A oferta deste ano foi promovida de forma enérgica em lugares como Washington, Pittsburgh, Portland (Oregon) e Tulsa. O site da diocese de Brooklyn destaca a oferta e informa que qualquer católico pode receber uma indulgência em qualquer de seis igrejas participantes, e a qualquer dia, ou em dezenas de outras paróquias em dias especificados, desde que cumpram os requisitos básicos: se confessem, recebam a comunhão, orem pelo Papa e consigam "se afastar completamente de qualquer inclinação ao pecado".
Mas na vizinha arquidiocese de Nova York, as indulgências só estão disponíveis em uma igreja, e o site arquidiocesano não as menciona. (O cardeal Edward Egan "encoraja todas as pessoas a que recebam as benção das indulgências", diz seu porta-voz, Joseph Zwilling, acrescentando que não estava ciente de que a oferta não constava do site, e afirmando que ela logo seria mencionada.) As indulgências, dizem os especialistas, tendem a ser alardeadas de maneira mais aberta nas dioceses em que os bispos são mais tradicionalistas ou em lugares nos quais as tensões entre os católicos liberais e os conservadores são menos severas.
"Na nossa diocese, o pessoal gosta da oportunidade de fazer qualquer coisa católica", diz Mary Woodward, diretora de evangelização da diocese de Jackson, no Mississipi, onde apenas 3% da população é católica. Na igreja, recentemente, disse ela, os paroquianos todos a abordaram pedindo informações sobre as indulgências: "O que mesmo eu preciso fazer para conseguir uma delas?", ela diz que eles perguntavam. Até mesmo alguns sacerdotes admitem que as regras são difíceis de compreender.
"Não é tão fácil explicá-las a pessoas que nunca ouviram falar isso", disse o reverendo Gilberto Martinez, pastor da Igreja de São Paulo Apóstolo, em Manhattan, o local que a arquidiocese de Nova York indica a quem procura indulgências. "Mas foi interessante. Tive visitas de pessoas que me disseram não se confessar há 20 anos mas que, diante da oferta de indulgências, disseram ter refletido que talvez não fosse tarde demais".Levar os católicos de volta aos confessionários, de fato, foi um dos motivos subjacentes para a retomada das indulgências. Em discurso de 2001, o Papa João Paulo 2° descrevia a tradição renascida como "um feliz incentivo" à confissão.
"O número de confissões vinha caindo há anos e a Igreja estava muito preocupada a respeito", disse o reverendo Tom Reese, jesuíta que foi editor da "America", uma revista semanal católica. No mundo da cultura laica da autoajuda e da psicologia pop, ele diz, "a Igreja quer que a idéia do 'pecado pessoal' volte à equação. As indulgências são uma maneira de lembrar às pessoas que penitências são importantes". "A boa notícia é que agora elas não são vendidas", ele acrescentou. Para se manter em dia com seus deveres religiosos, os católicos são obrigados a confessar seus pecados ao menos uma vez por ano. Mas uma pesquisa conduzida no ano passado por um grupo de estudiosos da Universidade de Georgetown demonstrou que 75% dos católicos afirmaram se confessar com menos frequência, ou nunca.
Sob as regras do Manual de Indulgências publicado pelo Vaticano, a confissão é pré-requisito para obter uma indulgência. Entre os teólogos católicos liberais, a volta das indulgências parece mais causa de curiosidade que de alarme. "Pessoalmente, acredito que passamos da hora em que indulgências podiam significar muito", disse o reverendo Richard McBrien, professor de teologia na Universidade de Notre Dame. Ele apoia a consagração de mulheres como sacerdotes e o fim do celibato. "É como tentar empurrar a pasta de dente de volta para dentro do tubo. A maioria dos católicos deste país dará de ombros, se informada de que agora é possível receber uma indulgência plenária".
Certa tarde recente, diante da Igreja de Nossa Senhora Rainha dos Mártires, em Forest Hills, Queens, duas voluntárias da Igreja estavam discutindo a importância das indulgências para os católicos modernos.Octavia Andrade, 64 anos, secretária aposentada, riu ao se lembrar da época em que as crianças diziam o rosário o mais rápido possível, repetidamente, para obter o máximo de indulgências - em geral, concedidas em blocos de cinco e 10 anos. "Imagine se precisávamos disso naquela época", ela ri.
Mas Andrade defende o retorno das indulgências. "Sou a favor da volta de todas as velhas normas", diz. "Mais fervor só pode fazer bem". Karen Nassauer, 61 anos, assistente social aposentada que se vai à missa com Andrade quase todos os dias, disse que o retorno de uma prática que ela não compreendia originalmente a deixa completamente confusa. "Não quero dizer que seja necessariamente errado", ela afirmou. "Mas sempre imaginei que eles deixariam que essa idéia fosse abandonada aos poucos, para ser franca. O que quer dizer essa coisa de reduzir nosso tempo no purgatório? O que são cinco anos diante da eternidade?"
As mais recentes ofertas de indulgência enfatizam menos as formulações do passado, de redução de anos no purgatório, em favor de uma contabilidade menos específico, mais centrada nas maneiras pelas quais as pessoas podem ajudar a si e aos outros no que tange a como tratar do pecado. "Estamos falando mais é de orar em benefício dos outros, fazer boas ações, gestos de caridade", disse o reverendo Kieran Harrington, porta-voz da diocese de Brooklyn.
Depois dos católicos, as pessoas que mais conhecem o assunto são provavelmente os luteranos, cuja igreja nasceu de um cisma quanto às indulgências e cujos líderes se reúnem regularmente com representantes do Vaticano, desde os anos 60, em um esforço para superar as diferenças. "Para nós, é um mistério que essa decisão tenha sido tomada agora", disse o reverendo Michael Root, doutor em teologia e reitor do Seminário Teológico Luterano do Sul, em Columbia, South Carolina, participante de algumas dessas reuniões. A renovação das indulgências, ele disse, "não avançou" o diálogo.
"Nosso problema foi sempre o de quantificar as benções do Senhor", disse Root. Os luteranos crêem que o perdão de Deus seja automático, e não algo que as pessoas possam influenciar. Mas para os líderes católicos, especialmente o Papa, o foco nos últimos anos vem sendo menos o que os católicos têm em comum com os demais grupos religiosos e mais o que os destaca - um fator que incluiria o mistério da indulgência, já quase esquecido. "A indulgência perdeu espaço, como muitas outras coisas na Igreja", diz o bispo DiMarzio. "Mas jamais foi abandonada. Esteve sempre lá. Só queremos que as pessoas retornem às idéias que costumavam conhecer".
Tradução: Paulo Migliacci ME