Teatro: Carolina Bianchi consagra trilogia Cadela Força com maratona de 10 horas na Opéra de Avignon
Carolina Bianchi retorna ao Festival de Avignon para apresentar a trilogia completa Cadela Força, considerada pela crítica europeia como uma das investigações mais radicais do teatro contemporâneo. Do inferno de A Noiva e o Boa Noite Cinderela ao enigma luminoso de Uma Luz Cordial, passando pelos pactos masculinos de The Brotherhood, a artista brasileira constrói um percurso que se recusa a estetizar a dor, abordando temas como violência, sexualidade e literatura.
Márcia Bechara, enviada especial a Avignon
A apresentação integral da trilogia Cadela Força na Opéra d'Avignon, em uma maratona de dez horas, consolida a posição singular de Carolina Bianchi na cena experimental contemporânea. A artista brasileira retorna ao festival, depois do sucesso estrondoso de A Noiva e o Boa Noite Cinderela, de 2023, com um percurso que confronta violência sexual, feminicídio, pactos masculinos e a própria tarefa da escrita. Sua obra nasce de uma experiência brasileira que não se deixa traduzir completamente, e é justamente essa irredutibilidade que redefine sua presença em Avignon 2026.
A trilogia, afirma Bianchi, exigia tempo e densidade. "Cadela Força era uma coisa que foi se apresentando desde o começo também porque sinto que os assuntos, que as matérias que a gente estava movendo dentro dessa trilogia pediam esse lugar assim, de calma, de tempo para poder olhar para esses assuntos." Para ela, não se tratava de buscar atalhos fáceis: "Acho que estava sempre, desde o começo, distante da gente querer encontrar soluções para coisas que são impossíveis."
No primeiro capítulo, A Noiva e o Boa Noite Cinderela, Bianchi articula histórias reais de feminicídio - dos assassinatos em série de Cidade Juárez ao caso da performer italiana Pippa Bacca, assassinada durante a execução de uma performance na Turquia, em 2008, - como eixo estrutural da obra. O corpo da performer opera como testemunho, instaurando um regime ético que desloca a cena da representação para a inscrição direta dessas narrativas. É o "inferno" da trilogia, uma geografia política da violência que se torna matéria de linguagem.
Em The Brotherhood, a investigação se volta aos pactos masculinos que moldam a história da arte. A dramaturgia funciona como dispositivo analítico, expondo genealogias de poder que atravessam a própria autora, que surge como figura espectral. O capítulo evidencia a persistência dessas estruturas e a forma como organizam o campo artístico, mesmo quando examinadas criticamente.
A volta a Avignon
O retorno ao festival, depois da estreia do primeiro capítulo em 2023, produz uma camada adicional de leitura. "Dá uma noção de temporalidade que, uau, é muito louca", diz Bianchi. "Agora mesmo eu estou olhando para você e pensando quem éramos nós há três anos e éramos outras pessoas." A volta com a trilogia completa, afirma, revela o percurso desses anos: "O quão imersa eu estive nesses anos nessa 'floresta escura da criação', como diz Dante Alighieri."
A referência à Divina Comédia atravessa sua fala e sua obra. "Essa entrada na criação, passando pelos infernos, pelos purgatórios, pelos paraísos que cada obra contém", diz, descrevendo o processo como algo que transforma e reorganiza o trabalho. Voltar a Avignon, para ela, é também reconhecer lugares fundamentais da própria trajetória.
A proposta da maratona reforça essa dimensão de experiência. "Ela tem uma coisa de ser de fato uma experiência e um convite para uma experiência teatral", afirma. Bianchi cita o artista argentino Alberto Greco:
"Ele dizia que acreditava na obra de arte como 'aventura total'."
Sustentar dez horas de espetáculo envolve risco, e interessa à artista justamente por isso. "Tem um caminho selvagem. De risco. Tem um caminho tortuoso aí que também me interessa investigar."
O público, diz ela, é convocado a sustentar essas perguntas junto com o grupo. "Vamos fazer uma coisa que não fizemos ainda antes e que tem os seus componentes de risco aqui, mas a gente quer sustentar juntos essas perguntas."
Uma luz cordial
O terceiro capítulo, Uma Luz Cordial, desloca a violência para a tarefa da escrita. O título vem de um verso de Emily Dickinson, do poema My Life Has Stood a Loaded Gun. "Essa luz cordial que, na verdade, é essa arma disparando a luz de quando a arma explode", explica. A imagem, para ela, está ligada ao ato de escrever: "O que a tarefa da escrita faz comigo, com o meu corpo."
O capítulo introduz alter egos e figuras literárias, num movimento que ecoa Dante. "Para eu seguir escrevendo, eu também vou me desfazendo", diz. A obra, nesse sentido, é também sobre o desaparecimento de um corpo: "É uma trilogia também sobre um desaparecimento de um corpo que começa nesse Boa Noite Cinderela."
A violência se fricciona com a sexualidade e se catalisa no encontro com a imaginação. "A sexualidade é um tema muito importante que atravessa essa trilogia. A gente não tem como falar de violência sexual, a gente não tem como pensar o que acontece com essa violência, o que a gente faz depois dessa violência, se a gente também não pensar, não fizer as perguntas sobre a sexualidade." A escrita, afirma, é o ponto de partida: "Eu sou escritora e essa é a minha primeira tarefa."
Escrever, para Bianchi, é também convocar o público à leitura. "O público vai vir aqui e vai ver dez horas de teatro, e vai ter que ler. Porque é isso, a gente está falando português, eu escrevo em português, essa é a minha língua." A língua, diz ela, é o chão da obra: "Acredito no poder da linguagem, da língua, da nossa expressão, da escrita."
Teatro como passagem ao coletivo
A escrita, porém, para ela, não se encerra na solidão. "Tem esse momento onde essa escrita vai passar ao coletivo. É aí que é o teatro", afirma. O teatro, para ela, é a passagem da solidão da escrita para a coletividade da cena. "Eu sou uma escritora que precisa passar por esse lugar da solidão absoluta […] para essa coletividade do teatro, que eu acho impressionante."
A trilogia Cadela Força será apresentada na Opéra d'Avignon em três sessões consecutivas durante o Festival de 2026, reunindo os três capítulos em uma única maratona de dez horas. Depois de Avignon, o trabalho segue para Paris, onde integra o Festival de Outono: Cadela Força será apresentado nos dias 14, 15 e 16 de novembro de 2026, retomando a estrutura integral da trilogia e ampliando sua circulação no circuito europeu.
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