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Otan entra em nova fase após a cúpula de Ancara

O encontro na Turquia terminou com demonstrações de unidade, mas também evidenciou as divergências entre Donald Trump e os aliados europeus. Em meio às guerras na Ucrânia e no Irã, a Europa acelera os planos para fortalecer sua capacidade de defesa, um movimento que pode redefinir o futuro da aliança.

9 jul 2026 - 08h43
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Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante coletiva ao final de sua participação na cúpula de líderes da Otan em Ancara, na Turquia, em 8 de julho de 2026.
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante coletiva ao final de sua participação na cúpula de líderes da Otan em Ancara, na Turquia, em 8 de julho de 2026.
Foto: REUTERS - Yves Herman / RFI

A cúpula da Otan terminou em clima amigável em Ancara, mas deixou uma pergunta que deve continuar no centro das discussões nos próximos anos: qual será o futuro da aliança?

Apesar do tom conciliador adotado pelos líderes, inclusive pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o encontro expôs novamente as diferenças entre Washington e os aliados europeus justamente em um momento de instabilidade, marcado pelos conflitos na Ucrânia e no Irã.

Pelo menos no discurso, a reunião foi muito parecida com a realizada no ano passado em Haia. Trump elogiou a união entre os aliados e, em conversas a portas fechadas, garantiu que os Estados Unidos continuarão fazendo parte da Otan.

Mas o clima esteve longe de ser livre de tensões. Antes e até durante a cúpula, Trump acumulou críticas aos parceiros europeus e voltou a defender que a Groenlândia deveria estar sob controle dos Estados Unidos.

Na declaração conjunta, os líderes fizeram questão de reafirmar o compromisso com o Artigo 5º da Otan, que prevê a defesa coletiva caso um dos países-membros seja atacado. Trata-se hoje do principal fundamento da aliança.

Em Bruxelas, sede da Otan, um conceito domina boa parte das discussões estratégicas: deterrence, termo em inglês para dissuasão. A lógica é impedir um ataque antes mesmo que ele aconteça, fazendo com que um potencial adversário pense duas vezes antes de agir. Para isso, a demonstração de força e, principalmente, de unidade é essencial.

A Ucrânia também saiu fortalecida da cúpula. O presidente Volodymyr Zelensky se reuniu com Donald Trump, que indicou que deve autorizar a fabricação de mísseis Patriot pela Ucrânia. Os equipamentos são considerados fundamentais para interceptar ataques russos, e a autorização vinha sendo solicitada por Kiev há meses.

Fim do cessar-fogo com o Irã

Outro tema que dominou as conversas foi a escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã. Durante a própria cúpula, os Estados Unidos voltaram a atacar o país, enquanto Trump anunciava o fim do cessar-fogo.

A questão já era motivo de tensão antes mesmo do encontro, já que Trump critica abertamente os europeus por não terem apoiado os Estados Unidos nesse conflito. O posicionamento oficial da Otan veio do secretário-geral da aliança, Mark Rutte, que afirmou que os ataques foram necessários diante da violação do cessar-fogo pelo Irã.

Uma Europa mais forte, uma Otan mais fraca?

Se a cúpula serviu para demonstrar unidade no curto prazo, ela também reforçou um debate que pode transformar a aliança no futuro.

Mark Rutte projeta uma Europa com mais protagonismo dentro da Otan. Mas, se os planos europeus forem levados adiante, o resultado pode ser justamente uma Europa mais forte e uma Otan mais fraca.

Trump insiste que os aliados aumentem os investimentos em defesa. O objetivo, no entanto, não é fortalecer militarmente a Europa, mas ampliar a compra de equipamentos norte-americanos. Hoje, 60% das novas armas adquiridas pelos países da União Europeia vêm dos Estados Unidos.

A médio e longo prazo, porém, esse cenário pode mudar. A estratégia europeia é fortalecer a própria indústria de defesa, investir em tecnologia militar e reduzir a dependência dos fornecedores norte-americanos. Caso esse movimento se concretize, os laços dentro da Otan podem se tornar menos estreitos.

Essa transformação ainda deve levar muitos anos, mas encontra respaldo na opinião pública. Segundo dados citados durante o debate, 73% dos cidadãos europeus acreditam que a Europa "deve seguir seu próprio caminho".

O desafio da autonomia europeia

Segundo Steven Everts, diretor do Instituto da União Europeia para Estudos em Segurança, a Europa continua dependente dos Estados Unidos em áreas estratégicas como defesa aérea, ataques de longo alcance, satélites, inteligência e sistemas de comando.

Além de fortalecer sua indústria, o continente também precisará integrar melhor seus recursos militares em nível europeu, algo que ainda não acontece de forma coordenada. Isso não significa criar um Exército da União Europeia, hipótese que continua distante, mas sim aumentar a capacidade de atuação conjunta dos países do bloco.

Everts também faz uma distinção importante entre defesa e armamento nuclear. Para ele, a questão nuclear faz parte da discussão sobre segurança europeia, mas não deve ser o ponto de partida. Deve ser, na verdade, o ponto final de um processo mais amplo de fortalecimento das capacidades militares convencionais.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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