Soldado ucraniano escapa de forças russas em Kramatorsk e relata torturas que testemunhou
Um sobrevivente dos abusos das tropas russas revela o sofrido destino de soldados ucranianos capturados. Vladyslav, um soldado que sobreviveu a um corte de garganta, relata o que viveu e as torturas que testemunhou.
Um sobrevivente dos abusos das tropas russas revela o sofrido destino de soldados ucranianos capturados. Vladyslav, um soldado que sobreviveu a um corte de garganta, relata o que viveu e as torturas que testemunhou.
Emmanuelle Chaze, correspondente da RFI em Kramatorsk (Ucrânia), com agências
Mais um crime de guerra. Um entre tantos. Mas todos se traduzem em cenários de horror que culminam com mortes, torturas e feridas físicas, morais e psicológicas.
Os crimes de guerra cometidos pela Rússia, tornados públicos, geram um medo cada vez maior na população ucraniana.
O depoimento deste soldado se soma a uma longa lista de relatos de torturas regularmente infligidas por tropas russas a prisioneiros ucranianos.
O soldado Vladyslav, de 33 anos, foi capturado com outros oito ucranianos na frente de Pokrovsk há algumas semanas. Prisioneiro das tropas russas, o militar da Ucrânia sobreviveu à degola. Os outros soldados presos com ele morreram.
Internado em estado crítico cinco dias após a tentativa de assassinato, o soldado ucraniano perdeu a fala, mas escreveu um depoimento sobre as atrocidades que testemunhou. Vladyslav lembra que os soldados russos torturaram todo o grupo de ucranianos que foi capturado com ele. O militar conta que uns ficaram cegos e outros tiveram suas bocas, narizes, orelhas e genitais cortados antes de serem mortos.
Desde o início do ano, a Procuradoria-Geral da Ucrânia e as Nações Unidas registraram um aumento substancial nas denúncias de torturas e execuções sumárias do lado russo.
Ataques continuam e provocam mais destruição
O Ministério da Defesa da Rússia reivindicou nesta quarta-feira (27) a captura de uma vila na região de Donetsk, no leste da Ucrânia.
Pershe Travnia está localizada perto da cidade de Pokrovsk, um antigo centro urbano agora em ruínas, que o Exército russo tenta recapturar.
A Ucrânia informou que ataques de drones russos na madrugada mataram três pessoas na região de Kherson, no sul do país. O Ministério da Energia da Ucrânia também confirmou que a infraestrutura de produção e transmissão de gás na região de Poltava e de Sunny foi significativamente danificada no ataque russo. Mais de 100.000 pessoas ficaram sem fornecimento de energia.
A região de Kharkiv, assim como Zaporizhzhia e Donetsk, foram atingidas, de acordo com informações do Ministério da Energia do país.
"Vemos os ataques russos como uma continuação da política deliberada da Rússia de destruir a infraestrutura civil da Ucrânia antes do próximo inverno", afirmou o Ministério da Energia.
De março de 2025 até hoje, o Ministério da Energia da Ucrânia registrou 2.900 ataques russos a instalações de energia na Ucrânia. Desde o início do ano, os ataques russos causaram uma queda de 40% na produção de gás.
Requisitos para paz
A Ucrânia condiciona qualquer acordo à obtenção de sólidas garantias de segurança de seus aliados para se proteger no futuro de um novo ataque russo.
Uma possibilidade é o envio de tropas europeias à Ucrânia, já que Donald Trump descarta ajuda com forças americanas terrestres.
"Não existe um Exército europeu. Existem, sim, Exércitos de países, a maioria dos quais é membro da Otan", afirmou porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.
A Rússia considera a expansão da Otan ao longo de suas fronteiras uma das "causas profundas" que levaram a sua ofensiva contra a Ucrânia há mais de três anos.
Como parte de um possível acordo de paz, a Rússia exige que a Ucrânia ceda quatro regiões parcialmente ocupadas, além da Crimeia, anexada pelos russos em 2014. Além disso, quer que a Ucrânia renuncie à sua adesão à Aliança Atlântica.
No momento, essas condições são inaceitáveis para Kiev.
Dmitry Peskov considerou que garantia de segurança é "um dos tópicos mais importantes" nas possíveis negociações de paz.
Em busca da paz
Os esforços diplomáticos para encontrar uma solução para a ofensiva russa lançada contra a Ucrânia em 2022 se intensificaram nas últimas semanas sob a liderança do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Nos últimos meses, negociadores russos e ucranianos mantiveram conversas diretas na Turquia, mas não houve avanços.
Os Estados Unidos querem que Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky se encontrem para negociações. O presidente ucraniano já sinalizou estar pronto para um encontro. Putin não reconhece a legitimidade de Zelensky e, até o momento, se recusou a encontrá-lo.
Apesar de todos os esforços da Europa e dos Estados Unidos, a perspectiva de paz permanece distante.
Mais cauteloso, o porta-voz Dmitry Peskov enfatizou que qualquer contato com Zelensky "deve ser bem preparado para ser frutífero".