Sarkozy diz não ter 'traído franceses' ao encerrar julgamento do caso líbio em 2ª instância
Nicolas Sarkozy encerrou nesta quarta‑feira (27) sua fala final no julgamento do caso líbio em segunda instância afirmando que "não traiu a confiança dos franceses". O processo analisa suspeitas de financiamento ilegal da campanha presidencial de 2007 por parte do regime líbio de Muammar Kadhafi, acusações que o ex‑chefe de Estado francês nega desde o início. O caso divide a opinião pública e reacende debates sobre transparência política e a relação entre poder e Justiça na França.
"Peço apenas uma coisa: ser tratado como qualquer pessoa, ser julgado pelo que fiz, não pelo que sou", disse ele após seus advogados pedirem sua absolvição. A decisão será anunciada em 30 de novembro.
"É um momento emocionante para mim, porque agora vou esperar (...), não como um ex‑chefe de Estado, mas como um homem que vai se perguntar apenas uma coisa ao acordar e ao dormir: será que vou voltar para lá?", afirmou, numa referência aos cerca de vinte dias que passou detido após a condenação em primeira instância. A voz oscilou em alguns momentos, e a irritação com a promotoria era perceptível.
A acusação pediu sete anos de prisão para o ex‑chefe de Estado, descrito como "instigador" de um pacto de corrupção com a Líbia de Muammar Kadhafi: um financiamento político clandestino em troca de contrapartidas, entre elas o perdão judicial ao dirigente líbio Abdallah Senoussi, condenado à prisão perpétua na França pelo atentado contra o voo DC‑10 da UTA sobre o Níger, em 1989, que deixou 170 mortos.
"Esse caso de suposto financiamento líbio da minha campanha começou na mentira e na conspiração. Deve terminar na verdade e na transparência", declarou o ex‑chefe de Estado, recusando‑se a citar "os mentirosos e conspiradores que saberão quem são".
"Isto não é um julgamento histórico, não é um romance, é a minha vida", disse Sarkozy.
Três semanas de debates intensos
A sessão de conclusão encerrou três semanas de debates intensos. A defesa insistiu que o caso se apoia em depoimentos contraditórios e em documentos cuja autenticidade é contestada. Para os advogados, o processo é construído sobre "suposições sem provas materiais" e expõe o ex‑chefe de Estado a uma perseguição judicial prolongada. A acusação, por outro lado, sustenta que há indícios suficientes para manter as suspeitas e que o julgamento é essencial para esclarecer responsabilidades políticas e financeiras.
Sarkozy compareceu a todas as audiências e adotou um tom combativo. Ele afirmou que sua integridade está em jogo e que o processo representa "uma injustiça histórica". A defesa argumenta que o caso foi conduzido com viés político e que o ex‑chefe de Estado é alvo de investigações desproporcionais. A promotoria rejeita essa leitura e afirma que o processo envolve fatos graves, que exigem escrutínio rigoroso.
O julgamento ocorre num momento em que a França revisita debates sobre transparência política e financiamento eleitoral. O caso tornou‑se símbolo das fragilidades do sistema de controle de campanhas e alimentou discussões sobre reformas institucionais. Para analistas, o processo também expõe tensões entre o poder político e o sistema judiciário, num país onde ex‑chefes de Estado raramente enfrentam tribunais.
A corte ouviu dezenas de testemunhas, incluindo ex‑ministros, assessores e intermediários que atuaram na relação entre Paris e Trípoli nos anos 2000. Alguns depoimentos reforçaram suspeitas de que emissários líbios teriam transportado dinheiro vivo para financiar a campanha presidencial francesa de 2007. Outros negaram qualquer irregularidade e afirmaram que as acusações são fruto de disputas internas no antigo regime de Kadhafi.
A defesa insiste que não há rastro financeiro que comprove a tese da acusação. Segundo os advogados, a ausência de transferências bancárias, registros contábeis ou documentos oficiais deveria ser suficiente para encerrar o caso. A promotoria argumenta que operações clandestinas raramente deixam vestígios formais e que o conjunto de indícios deve ser analisado de forma global.
Impacto político e reação pública
O caso continua a dividir a opinião pública francesa. Parte dos eleitores considera que Sarkozy é alvo de perseguição, enquanto outra parte vê o processo como demonstração de independência do sistema judicial. A defesa afirma que a exposição prolongada prejudica sua reputação e afeta sua vida privada.
Com AFP
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