Calor inédito fora de época expõe despreparo da França e da Europa diante das mudanças climáticas
Na França, a terça-feira foi o dia mais quente já registrado para um mês de maio. As temperaturas devem atingir entre 38°C e 39°C nesta quarta-feira (27), e a onda de calor excepcional, precoce para a estação, deve persistir até o fim da semana. O episódio evidencia as dificuldades dos países europeus para lidar com esse tipo de evento extremo. Diante do cenário, o governo francês convocou uma reunião interministerial para quinta-feira (28).
Climatologistas descrevem o fenômeno como uma anomalia rara, com probabilidade praticamente inexistente em condições climáticas normais. Segundo especialistas, uma onda de calor tão intensa, precoce e prolongada na Europa Ocidental não ocorreria sem o aquecimento global provocado pelas atividades humanas e pelo uso de combustíveis fósseis.
Em uma região de clima tradicionalmente temperado, pouco preparada para extremos, o episódio rompe a chamada "zona de conforto térmico". A vegetação não está adaptada, e ecossistemas inteiros enfrentam um estresse térmico fora de época.
Há também impactos na saúde. Em maio, mais pessoas trabalham ao ar livre do que nos meses mais quentes do verão, além do funcionamento das escolas. O episódio reforça que as sociedades europeias não se prepararam adequadamente, apesar dos alertas recorrentes da comunidade científica ao longo dos anos.
Uma reunião interministerial sobre o tema, liderada pelo primeiro-ministro francês Sébastien Lecornu, deve ocorrer nesta quinta-feira (28). Segundo a ministra francesa da Transição Ecológica, Monique Barbut, a situação está, por enquanto, "sob controle". Ainda assim, ela alerta que o fenômeno pode ser "o primeiro de uma série".
"Conhecemos as causas: nossas emissões de gases de efeito estufa", afirmou. "A principal resposta é agir na origem, reduzindo essas emissões. De toda forma, o desregulamento climático já está em curso, e precisamos nos adaptar. A França precisa se tornar resiliente", disse Monique Barbut na terça-feira na Assembleia Nacional.
De acordo com a Météo-France, as temperaturas estão entre 10°C e 15°C acima da média para o período. O episódio está associado à morte, direta ou indireta, de pelo menos sete pessoas. Há ainda previsão de poluição por ozônio em diversas regiões.
A onda de calor também quebra recordes no Reino Unido e atinge todo o oeste da Europa desde o início da semana.
Falta de adaptação nas escolas
Diante das altas temperaturas, professores recorrem a soluções improvisadas para tornar as aulas mais suportáveis, como uso de borrifadores, ventiladores e atividades ao ar livre.
Em Pau, no sudoeste da França, o professor Antoine Maldonado relatou em reportagem da Franceinfo que levou alunos para estudar sob as árvores de um parque municipal. Ao retornar à sala, o termômetro já marcava 28,4°C. "Vamos chegar perto dos 30°C à tarde. Acho que vou voltar para a sombra", afirmou.
As temperaturas podem alcançar até 39°C nos próximos dias. Maldonado, cofundador da rede Profs en transition (Professores em transição), critica a ausência de diretrizes claras. "Não existe um limite legal obrigatório para fechar escolas. Em cidades pequenas, os prefeitos decidem sozinhos", disse.
Em Billère, nos arredores de Pau, 13 alunos passaram mal devido ao calor.
Uso de ar-condicionado é polêmico
Professores denunciam falta de recursos para enfrentar as altas temperaturas. "A prefeitura não faz muito. Não temos ventiladores e provavelmente vamos comprar borrifadores por conta própria, como no ano passado", afirmou uma professora em Bondy, na região de Paris.
Entre as medidas adotadas estão o fechamento de persianas, redução do tempo de recreio, permanência à sombra e incentivo à hidratação. Especialistas defendem soluções simples, como proteção solar nas janelas. "Uma janela exposta ao sol equivale a um radiador ligado dentro da sala", explicou um pesquisador.
Ele também sugere ventilação noturna e sistemas de resfriamento passivo, apesar dos desafios de segurança. "A solução técnica é simples: instalar grades, mas isso não faz parte da cultura local", afirmou o engenheiro Amaury Fievez à Franceinfo.
O uso de ar-condicionado, defendido por parte dos professores, divide especialistas: "Há impacto ambiental e custos que nem todos os municípios conseguem assumir", alertou Fievez.
Ele recomenda priorizar soluções de baixo impacto ("low-tech") e afirma que sistemas de climatização podem não dar conta da demanda futura. "As infraestruturas atuais não estão dimensionadas para as ondas de calor que virão", concluiu.
RFI com agências
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