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Banqueiro francês ligado à esquerda assume negociação da dívida venezuelana com apoio de Washington

A Venezuela deu um passo decisivo para tentar reorganizar sua economia ao contratar a Centerview Partners para conduzir a reestruturação de sua dívida, revelada nesta terça-feira (19). O processo será liderado pelo banqueiro francês Matthieu Pigasse, conhecido por atuar em renegociações complexas envolvendo Estados em crise. Com passivo estimado em até US$ 180 bilhões e fora dos mercados desde o calote de 2017, o país enfrenta o desafio de negociar com credores diversos sem apoio do FMI.

27 mai 2026 - 12h36
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A decisão do governo venezuelano de avançar na reestruturação de sua dívida externa marca um novo capítulo na tentativa de reconstruir uma economia devastada por uma década de colapso produtivo, hiperinflação e isolamento financeiro. Segundo revelou o Wall Street Journal, Caracas contratou a consultoria norte‑americana Centerview Partners para conduzir o processo, sob a liderança do banqueiro francês Matthieu Pigasse.

O empresário e banqueiro francês Matthieu Pigasse.
O empresário e banqueiro francês Matthieu Pigasse.
Foto: AFP - LOU BENOIST / RFI

A escolha ocorre num momento em que o país tenta recuperar acesso a mercados internacionais e reduzir a pressão de credores espalhados por várias jurisdições, após anos de inadimplência e disputas judiciais.

Pigasse, que já assessorou governos como os do Iraque, da Grécia e do Equador em momentos de forte turbulência fiscal, chega ao caso venezuelano com a reputação de lidar com credores agressivos e estruturas de dívida fragmentadas.

Sua presença também é vista como um sinal político: o banqueiro mantém interlocução tanto com integrantes do governo venezuelano quanto com figuras próximas à administração norte‑americana, um elemento relevante num país que passou anos sob sanções impostas por Washington.

A Centerview, por sua vez, é conhecida por atuar em operações de grande porte e por manter relações estreitas com investidores institucionais que detêm parte dos títulos emitidos por Caracas.

Desafio incomum

O desafio, porém, é de escala incomum. A economia venezuelana encolheu de forma contínua desde 2013, com perda de capacidade produtiva, queda drástica na receita petrolífera e deterioração de serviços básicos.

O economista Ricardo Hausmann, professor da Harvard Kennedy School e ex‑ministro do Planejamento da Venezuela, estima que o passivo total do país possa alcançar US$ 180 bilhões, valor equivalente a cerca de duas vezes o PIB venezuelano atual. Para ele, não há cenário de recuperação possível sem uma redução substancial desse montante, o que exigiria coordenação entre diversos grupos de credores e um plano econômico capaz de restaurar a confiança internacional.

A fragmentação da dívida é um dos principais obstáculos. Desde o calote declarado em novembro de 2017, o país acumulou obrigações em diferentes moedas, prazos e jurisdições, incluindo títulos soberanos, dívidas da estatal petrolífera PDVSA, compromissos com fornecedores estratégicos e decisões judiciais desfavoráveis em cortes estrangeiras.

Em situações semelhantes, países recorreram ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para estruturar programas de estabilização e negociar simultaneamente com credores. No caso venezuelano, porém, o governo tem sinalizado que pretende conduzir o processo sem a participação do FMI, o que gera preocupação entre especialistas.

Hausmann afirma que uma negociação ampla, sob coordenação do FMI, seria a forma mais eficiente de tratar o conjunto das dívidas e criar condições para o retorno do país ao sistema financeiro global. Sem essa mediação, diz ele, há risco de que apenas parte dos credores seja contemplada, deixando pendências que podem travar investimentos e prolongar a insegurança jurídica.

Segundo o economista, grupos de investidores próximos ao presidente norte‑americano Donald Trump defendem um acordo restrito aos detentores de títulos, sem envolvimento do Fundo, o que limitaria o alcance da reestruturação e manteria o país vulnerável a litígios futuros.

A ausência do FMI também tem implicações políticas. A instituição costuma exigir reformas fiscais, maior transparência nas contas públicas e compromissos de governança, condições que governos em crise muitas vezes relutam em aceitar.

No caso venezuelano, a relação com o Fundo é historicamente tensa, marcada por disputas sobre legitimidade institucional e pela falta de dados econômicos confiáveis. Ainda assim, especialistas apontam que, sem um programa formal, será difícil convencer credores de que o país terá capacidade de honrar compromissos reestruturados ou de implementar políticas que sustentem a recuperação.

Produtor do filme sobre Melania Trump intermediou

Outro elemento que chama atenção é a presença de Fernando Sulichin, um produtor de cinema argentino, como figura-chave na articulação do acordo. Segundo o jornal norte‑americano, ele teria atuado como intermediário entre Caracas, Pigasse e setores da Casa Branca, e é conhecido por ter produzido um documentário sobre a ex‑primeira‑dama dos Estados Unidos, Melania Trump.

A participação de agentes com trânsito político em Washington é vista como uma tentativa de reduzir resistências dentro do governo norte‑americano, que ainda mantém sanções sobre setores estratégicos da economia venezuelana, especialmente o petróleo.

A reestruturação ocorre num momento em que o país tenta reconstruir relações diplomáticas e comerciais após anos de isolamento. Nos últimos anos, a Venezuela buscou aproximação com países europeus, retomou diálogo com vizinhos sul‑americanos e tentou flexibilizar sanções por meio de negociações mediadas por governos estrangeiros.

Apesar de alguns avanços pontuais, a economia venezuelana continua fragilizada, com baixa produção de petróleo, infraestrutura deteriorada e dificuldades para atrair investimentos. A renegociação da dívida é vista como passo necessário, mas insuficiente, para reverter esse quadro.

Para investidores internacionais, a presença de Pigasse e da Centerview pode sinalizar maior profissionalização do processo. No entanto, analistas lembram que o sucesso de uma reestruturação depende não apenas da habilidade técnica dos negociadores, mas também da estabilidade política interna e da capacidade do governo de implementar reformas.

A Venezuela enfrenta desafios significativos nesse campo, incluindo disputas entre grupos de poder, desconfiança de parte da população e a necessidade de reconstruir instituições enfraquecidas por anos de crise.

A complexidade do caso venezuelano também se explica pelo peso da PDVSA, a empresa estatal de petróleo e gás, responsável por grande parte da receita do país. A PDVSA acumula dívidas próprias, enfrenta queda de produção e tem ativos no exterior que se tornaram alvo de disputas judiciais. 

Qualquer acordo de reestruturação precisará considerar esses elementos, além de definir como serão tratados credores que já obtiveram decisões favoráveis em cortes estrangeiras. A falta de clareza sobre esses pontos aumenta a incerteza e pode prolongar as negociações.

Cenários extremos

Apesar das dificuldades, a escolha de Pigasse indica que Caracas busca uma solução que envolva interlocutores com experiência em cenários extremos. O banqueiro francês ganhou notoriedade por negociar com credores considerados intransigentes e por estruturar acordos que equilibram interesses políticos e financeiros.

Sua atuação, porém, dependerá da disposição do governo venezuelano em adotar medidas que sinalizem compromisso com a estabilização econômica e com a transparência fiscal, fatores essenciais para recuperar a confiança de investidores.

A reestruturação da dívida venezuelana se apresenta como um processo de longo prazo, que exigirá coordenação entre múltiplos atores, concessões políticas e capacidade técnica.

Para especialistas, o país só conseguirá retomar o crescimento se combinar renegociação ampla, reformas internas e reinserção gradual no sistema financeiro internacional. A presença de Pigasse e da Centerview é um passo relevante, mas o desfecho dependerá de fatores que vão além da mesa de negociação.

 

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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