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'Uma refeição nas férias me deixou com 38 parasitas no cérebro'

Médicos descobriram que as dores de cabeça, convulsões e psicose de Lowri Denman eram causadas por uma infecção por larvas de tênia do porco.

11 jul 2026 - 07h49
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Lowri Denman diz que está feliz por estar viva e saudável
Lowri Denman diz que está feliz por estar viva e saudável
Foto: BBC News Brasil

Lowri Denman percebeu que algo estava errado quando encontrou, horrorizada, uma solitária com um metro de comprimento quando foi ao banheiro.

O parasita "tinha aparência totalmente nojenta, como uma fita crepe com pequenas cristas", descreve ela, que tem 42 anos de idade e mora no País de Gales.

Aquele foi o primeiro sintoma de neurocisticercose. A doença deixou a mulher com 38 parasitas no cérebro, causando dores de cabeça intensas, convulsões e psicose.

No Reino Unido, pouquíssimas pessoas recebem o diagnóstico da infecção cerebral, causada pelas larvas da tênia do porco.

Denman entrou para este grupo e passou anos lutando até recuperar sua saúde. Agora, ela quer transformar sua provação em algo positivo, ampliando o conhecimento sobre esta condição.

Lowri Denman diz que sua viagem à Índia em 2007 foi incrível
Lowri Denman diz que sua viagem à Índia em 2007 foi incrível
Foto: Acervo pessoal / BBC News Brasil

Viagem à Índia

Em 2007, Denman saiu em uma viagem de três meses pela Índia. Foi lá que ela provavelmente contraiu a infecção, segundo seu médico, Brendan Healy, especialista em doenças infecciosas e microbiologia.

Denman havia decidido evitar comer carne durante a viagem, para se precaver contra possíveis intoxicações alimentares. Mas Healy acredita que ela tenha inadvertidamente comido carne de porco contendo ovos microscópicos de tênia.

Foi apenas três anos depois, em 2010, que a mulher descobriu a tênia. Ela foi ao médico, mas os exames de fezes mostraram resultados satisfatórios. Ela também se sentia bem, de forma que seguiu com a vida normalmente.

Um ano depois, começou a sentir dores de cabeça terríveis, e em 2011 sofreu sua primeira convulsão. "Eu realmente comecei a ter dificuldades para encontrar certas palavras", relembra. "De repente, eu estava em uma ambulância e me perguntava: 'Como isso aconteceu? Por quê?'."

Lowri Denman no hospital com sua irmã, aguardando resultados de exames, em setembro de 2015
Lowri Denman no hospital com sua irmã, aguardando resultados de exames, em setembro de 2015
Foto: Acervo pessoal / BBC News Brasil

Denman passou por uma internação hospitalar, um exame de ressonância magnética e uma tomografia computadorizada, até que foi chamada para ouvir os resultados.

"O médico fez com que eu me sentasse e disse que havia encontrado 38 parasitas no meu cérebro'", relembra ela. "Minha mãe e eu ficamos com o queixo caído. 'O que diabos significa isso?'."

Inicialmente, elas pensaram que fosse toxoplasmose, uma infecção transmitida pelo contato com fezes de gato infectadas. Mas a mãe de Denman perguntou se a convulsão poderia estar relacionada à tênia que ela havia descoberto um ano antes.

Novas investigações a levaram a finalmente receber o diagnóstico de neurocisticercose. "Naquele momento, tínhamos muitas perguntas porque simplesmente não sabíamos o que aconteceria com a minha saúde", ela conta.

Lowri Denman em um festival no País de Gales no verão de 2015, um ano antes de passar seis semanas em um hospital neuropsiquiátrico
Lowri Denman em um festival no País de Gales no verão de 2015, um ano antes de passar seis semanas em um hospital neuropsiquiátrico
Foto: Acervo pessoal / BBC News Brasil

Como a doença é contraída

A tênia do porco tem o nome científico Taenia solium. Ela é encontrada em todo o mundo, mas as infecções são mais comuns em partes da América Latina, sul e sudeste da Ásia e na África subsaariana.

A falta de saneamento básico ajuda o parasita a se reproduzir. Ele é mais comum em regiões onde as pessoas vivem em contato com porcos, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês).

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que até 8,3 milhões de pessoas em todo o mundo sofram de neurocisticercose, com ou sem sintomas. Ela pode ser evitada, mas é uma das principais causas de epilepsia em regiões onde a doença é comum.

É possível contrair a tênia comendo carne de porco crua ou mal cozida, mas isso não causa diretamente a neurocisticercose.

Uma pessoa portadora do parasita pode eliminar os ovos microscópicos nas fezes. Mas, se ela não lavar bem as mãos depois de usar o banheiro, poderá contaminar água ou alimentos com os ovos, que serão engolidos por outra pessoa.

Dentro do corpo, os ovos se transformam em larvas, que podem formar cistos em diversos órgãos, incluindo os músculos, o coração e os olhos. Este processo é conhecido como cisticercose.

Quando os cistos se desenvolvem no cérebro ou na medula espinhal, surge a neurocisticercose, que é a forma mais grave da doença.

Denman ficou internada por duas semanas no hospital. Ela recebeu medicamentos antiparasitários e esteroides, e o tratamento pareceu funcionar por algum tempo.

Ela teve boa saúde por vários anos, até um dia em que desmaiou no trabalho. Foram então feitos novos exames de imagens que mostraram enormes inchaços em seu cérebro, em volta dos parasitas.

Após o desmaio, ela passou a sofrer de confusão, dormência e formigamento no corpo. Ela acabou deixando seu emprego e mudando-se para a casa de seu pai.

Denman recebeu esteroides que alteraram sua aparência e, com a vida mais limitada, começou a sentir desânimo, até que sua saúde mental entrou em colapso. "Começou a surgir essa paranoia e psicose", relembra ela. "Veio uma forte ansiedade, com ataques de pânico."

Denman passou seis semanas em um hospital neuropsiquiátrico. "Fiquei fora de controle. Minha família estava enlouquecendo com a escalada da situação."

Para recuperar a saúde, ela precisou percorrer um longo caminho, até conseguir voltar a trabalhar em 2022.

O médico Brenan Healy conta que o caso de Lowri Denman foi objeto de discussão dos principais especialistas do Reino Unido e dos Estados Unidos
O médico Brenan Healy conta que o caso de Lowri Denman foi objeto de discussão dos principais especialistas do Reino Unido e dos Estados Unidos
Foto: BBC News Brasil

Brenan Healy conta que Denman foi uma paciente única em sua carreira. O caso foi discutido por muitos especialistas importantes do Reino Unido e dos Estados Unidos.

"Haverá muitos especialistas em doenças infecciosas pelo país que nunca irão observar um caso como este, de tão raro que é", afirma ele.

Após anos de cuidados médicos, os parasitas finalmente calcificaram no cérebro de Denman. "Não precisei de cirurgia para retirá-los fisicamente", ela conta.

Healy explica que Denman recebeu tratamento para "matar todos os ovos e, felizmente, eles agora parecem ter saído pelo outro lado".

Sua última convulsão ocorreu em 2017, mas ela continuará sendo medicada contra a epilepsia pelo resto da vida.

Denman conta que ficou determinada a criar algo positivo com a sua provação. "O que quero, agora, é progredir na vida e difundir o conhecimento sobre esta doença", afirma ela.

"Estou feliz por estar viva, saudável e novamente em boa forma. E nunca me esqueço de valorizar isso."

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