Reunião entre governo e partidos termina sem avanços em meio à crise na França
A reunião convocada pelo primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, com representantes dos partidos políticos terminou sem avanços nesta quinta-feira (22), em meio à crise social que atinge a França. Líderes da esquerda deixaram o encontro decepcionados e criticaram o governo por priorizar o restabelecimento da ordem pública antes de discutir as reivindicações de estudantes e outros manifestantes.
A reunião entre o governo francês e partidos terminou sem avanços antes dos novos protestos de sábado. A esquerda criticou o premiê Lecornu por ignorar pautas como o alto custo de vida para focar apenas na ordem pública, acusando-o de ganhar tempo. Diante da violência anterior, Emmanuel Macron autorizou apenas atos sindicais e proibiu outros. Com esquema de segurança reforçado em 20% e blindados nas ruas, o governo prioriza conter os distúrbios, enquanto a oposição denuncia repressão excessiva.
Lecornu recebeu representantes das forças políticas acompanhado do ministro do Interior, Laurent Nuñez, do ministro da Justiça, Gérald Darmanin, além de autoridades dos serviços de inteligência e das forças de segurança. O encontro ocorreu às vésperas de uma nova jornada de manifestações marcada para sábado (24), sob forte temor de repetição das cenas de violência e saques do último fim de semana.
Segundo a porta-voz do governo, Maud Bregeon, o primeiro-ministro defendeu que não se deve confundir os manifestantes que protestam "de forma pacífica, apresentando reivindicações legítimas" com "vândalos, saqueadores, delinquentes e certos pequenos grupos de ultraesquerda ou de extrema esquerda radicalizados".
Bregeon afirmou que a prioridade é "o retorno à calma" e o "restabelecimento da ordem pública". "Sem ordem pública, não é possível haver uma discussão serena, tranquila e de debate de ideias sobre as reivindicações", declarou.
Esquerda sai "irritada" da reunião
A posição provocou fortes críticas entre os partidos de esquerda. Manuel Bompard, coordenador da França Insubmissa (LFI), acusou Lecornu de ter feito "o país perder tempo".
Segundo Bompard, o primeiro-ministro se recusou a entrar no mérito das reivindicações. "Em nenhum momento ele entrou no debate específico sobre as reivindicações dos jovens, sobre as reivindicações do país, sobre a revolta, sobre o sofrimento social", afirmou, denunciando uma "estratégia que consiste em ganhar tempo".
A França Insubmissa, acusada pelo governo de ter alimentado a revolta, afirma que continuará defendendo as reivindicações do movimento. Entre as demandas estão a revogação do Parcoursup, plataforma nacional que organiza o acesso ao ensino superior francês, investimentos de € 10 bilhões no ensino médio e medidas contra o alto custo de vida.
Jean-Luc Mélenchon, candidato do partido à presidência, criticou, na rede social X, um primeiro-ministro que, segundo ele, "convoca reuniões de conversa fiada, sem qualquer objetivo".
"Saímos daqui com muita raiva", afirmou, por sua vez, Marine Tondelier, líder do partido Os Ecologistas. Para ela, "apostar no desgaste e na desintegração do movimento é um erro imperdoável".
Raphaël Glucksmann, candidato da coalizão Praça Pública/Partido Socialista, considerou "preocupante" a ausência de respostas tanto sobre o que chamou de "fiasco na segurança" de 17 de outubro quanto sobre as reivindicações do movimento social. "Se o governo acredita que, ao não responder às reivindicações da juventude francesa, o movimento perderá força, ele está enganado", declarou.
O líder do Partido Comunista, Fabien Roussel, também se disse "extremamente decepcionado" e pediu que o governo trate "as causas destas manifestações, e não os sintomas". Ele criticou ainda o que classificou como "desvios perigosos" nas proibições de protestos previstos para sábado.
Governo defende retorno à ordem
Do bloco governista, Christophe Béchu, presidente interino do partido Horizons, afirmou que "a condição prévia é a condenação irrestrita da violência" para que, em seguida, seja possível ouvir e responder aos manifestantes.
Do lado da extrema direita, Edwige Diaz, senadora e vice-presidente do Reunião Nacional (RN), afirmou ao deixar o encontro que o congresso de seu partido em Orléans, que deve reunir entre 10 mil e 20 mil pessoas, poderá ser realizado em condições de segurança.
O prefeito de Perpignan, Louis Aliot, também do RN, responsabilizou antecipadamente dirigentes da esquerda caso ocorram atos de vandalismo à margem do congresso.
Na segunda-feira (26), Lecornu deverá receber representantes de estudantes do ensino médio e universitários, professores, sindicatos, organizações patronais, autoridades locais e parlamentares. O governo promete anunciar suas "primeiras decisões" voltadas aos estudantes.
Governo tenta evitar repetição da violência
A tensão aumentou depois dos episódios de violência, depredações e saques registrados no último fim de semana em cidades como Paris, Lyon e Marselha. Paralelamente aos distúrbios, as manifestações contra o alto custo de vida reuniram 550 mil pessoas em todo o país, segundo dados oficiais.
Em toda a França, entre 2 mil e 3 mil estabelecimentos comerciais foram saqueados ou depredados.
Nesta quinta-feira, o presidente Emmanuel Macron afirmou que apenas manifestações organizadas por sindicatos serão autorizadas no sábado, em trajetos definidos pelas autoridades para tentar proteger o comércio.
Macron também acusou grupos de "ultraesquerda" de terem tentado "derrubar a República" durante os protestos de 17 de outubro e afirmou que pedidos para realizar manifestações apresentados por "pessoas que não têm legitimidade para tal" serão recusados. "Não é o momento, pois queremos o retorno à calma", declarou.
Paris autoriza manifestação sindical
Na capital, uma manifestação convocada para sábado por sindicatos, entre eles a CGT, foi autorizada a seguir da Praça da Bastilha até a Praça da Nação.
A decisão foi anunciada pela Polícia de Paris, autoridade responsável pela segurança e pela ordem pública na capital francesa.
Um segundo protesto, que pretendia seguir da Bastilha até a Praça da Ópera, será proibido. O trajeto havia sido proposto pelo coletivo estudantil Interfac e por integrantes do movimento dos "coletes amarelos".
A coordenação dos "coletes amarelos" afirmou, no entanto, que não endossará o percurso Bastilha-Nação. Benjamin Ball, que participa da divulgação das ações previstas para o chamado "Ato II" do movimento, afirmou que o grupo estará na Praça da Bastilha a partir do meio-dia para realizar uma coletiva de imprensa.
Já a prefeitura de Paris pediu "máxima vigilância" à população diante do risco de novos episódios de violência cometidos por vândalos sem ligação com o movimento social.
Segurança será reforçada no sábado
O governo prepara um amplo esquema de segurança para as manifestações. Segundo o Ministério do Interior, a mobilização das forças de segurança será 20% superior à do fim de semana passado.
O dispositivo incluirá veículos blindados, militares da operação Sentinelle, que reforça a segurança em território francês, além de unidades de elite da polícia e da gendarmaria.
Em Lyon, as autoridades proibiram qualquer manifestação no sábado. Restrições também foram anunciadas em Rouen, Toulon e Marselha.
As medidas de segurança dividem a classe política. Enquanto setores da esquerda denunciam restrições às liberdades públicas e uma resposta excessivamente repressiva, a direita cobra mais firmeza do governo.
Para o Executivo, porém, a prioridade permanece a mesma: restabelecer a ordem antes de discutir as reivindicações. Para a esquerda, essa estratégia corre o risco de alimentar ainda mais uma crise que o governo tenta conter.
Com agências
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