Lojistas franceses compram armas para se proteger de saques em novos protestos no sábado
Comerciantes franceses temem uma nova onda de violência durante os protestos previstos para sábado (24), após os ataques e saques a milhares de estabelecimentos no último fim de semana. Muitos lojistas já decidiram manter as portas fechadas, enquanto outros estão se armando para enfrentar possíveis invasões. Em meio à tensão, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu reúne nesta quinta-feira (22) representantes dos principais partidos franceses para discutir a onda de violência que atinge o país.
Após milhares de lojas serem atacadas em protestos, comerciantes franceses estão se armando com tasers e sprays contra saques, duvidando da segurança estatal. O governo reforçou a atuação policial e convocou militares e toques de recolher para os novos atos de sábado, enquanto enfrenta forte oposição política e instabilidade no mercado. Reuniões de emergência foram convocadas por Macron e seu premiê para conter a crise, que já resultou em prisões aceleradas e alertas de viagens internacionais.
"A preocupação é máxima", afirmou Pierre Bosche, presidente da Confederação dos Comerciantes da França. Apesar de o governo ter anunciado o reforço da segurança para as próximas manifestações e adotado novos toques de recolher em várias cidades francesas, muitos lojistas duvidam da capacidade das autoridades de controlar os manifestantes e estão adquirindo armas para se proteger de eventuais ataques. Entre 2 mil e 3 mil lojas foram atingidas na França nos protestos de sábado (17).
Em entrevista à rádio FranceInfo, Claudie, dona de um restaurante vietnamita, afirmou ter adquirido um taser e um cassetete para proteger seu estabelecimento durante a mobilização de sábado. "Já não podemos depender da polícia para nos proteger", disse.
Associações de comerciantes também lançaram iniciativas nas redes sociais. Uma delas, chamada "Braçadeira Preta", convoca uma "mobilização nacional" para proteger lojas contra depredações e saques.
Profissionais do setor de armamentos também relatam um aumento na procura por meios de defesa. "Houve uma verdadeira explosão da demanda desde sábado por armas de defesa de venda livre", afirmou ao jornal 20 Minutes o proprietário da armaria Élysées, em Paris. Os produtos mais procurados são sprays de defesa e dispositivos que liberam gás incapacitante.
Em Paris, a loja de armas Vouzelaud também vendeu um grande número de pistolas que disparam munições carregadas com um "gel sufocante que provoca uma crise de asma". Comerciantes do setor também registraram aumento na procura por cassetetes retráteis de defesa, equipamento utilizado pelas forças de segurança.
Pressão sobre o governo
Horas antes da reunião convocada pelo primeiro-ministro com partidos políticos, dirigentes da sigla França Insubmissa (LFI) enviaram uma carta exigindo explicações e respostas para as reivindicações que motivaram os protestos.
No documento, os deputados Manuel Bompard, Mathilde Panot e Manon Aubry acusam o governo de adotar uma estratégia irresponsável e de tentar responsabilizar a esquerda radical pelos episódios de violência. Eles também criticam os toques de recolher, as restrições ao direito de manifestação e o emprego de militares nas operações de segurança.
O premiê Sébastien Lecornu receberá, no início da tarde, além dos representantes de partidos, autoridades de segurança e dos serviços de inteligência para discutir as falhas registradas durante os protestos. Diversos partidos de oposição classificaram o encontro como uma "convocação", e alguns de seus principais líderes optaram por não comparecer.
A líder do partido de extrema direita Reunião Nacional, Marine Le Pen, apontada como favorita nas pesquisas para a próxima eleição presidencial, e o presidente da legenda, Jordan Bardella, não participarão da reunião. Já o candidato social-democrata à Presidência, Raphaël Glucksmann, confirmou presença para apresentar suas "divergências" e "soluções" para a crise.
"O objetivo não é deixá-lo falar sozinho. Não vamos lá para receber uma lição ou assistir a uma aula", afirmou Cyrielle Chatelain, presidente do grupo ecologista na Assembleia Nacional, que participará do encontro ao lado da candidata Marine Tondelier, entre outros representantes de seu partido.
O presidente Emmanuel Macron, que acaba de voltar de uma viagem ao Golfo, também convocou uma reunião com os serviços de inteligência, criticados por não terem antecipado a dimensão da mobilização. Macron voltou a defender uma resposta firme do Estado. "A cúpula do governo não pode hesitar", declarou.
Militares integram novo esquema de segurança
Para os protestos deste sábado, o governo anunciou um amplo esquema de segurança, incluindo veículos blindados da polícia, semelhantes aos usados para dispersar tumultos e proteger agentes em áreas de confronto, helicópteros e tropas de elite especializadas. O nível de mobilização das forças de segurança para a jornada de protestos sociais prevista para sábado será 20%superior ao da semana passada, anunciou nesta quinta-feira (22) o ministro delegado do Ministério do Interior,Jean-Didier Berger.
"Cancelamos férias. Convocamos pessoas que deveriam estar de férias e que não poderão mais tirar esse período de descanso", explicou. Os militares vão "aliviar a carga das forças policiais convencionais" e ficarão responsáveis principalmente pela proteção de prédios públicos, como a Assembleia Nacional, o Senado e a residência oficial do primeiro-ministro, além de locais turísticos, como a avenida Champs-Élysées.
Novas manifestações serão proibidas em áreas consideradas "sensíveis". Novos toques de recolher também entrarão em vigor em determinadas localidades.
O ministro da Justiça, Gérald Darmanin, informou que 174 pessoas já foram encarceradas após julgamento em procedimento acelerado pelos saques e atos de vandalismo registrados no último fim de semana.
As cenas de prédios públicos incendiados e comércios destruídos levaram países como Estados Unidos, China e Alemanha a recomendar cautela a seus cidadãos que estão na França.
A crise também continua pressionando os mercados financeiros. Nesta quarta-feira (21), os juros dos títulos da dívida francesa com vencimento em dez anos encerraram o dia acima de 5% pela primeira vez desde 2002, reflexo da crescente desconfiança dos investidores em relação à situação política e fiscal do país. O patamar eleva o custo de financiamento do Estado e dificulta os esforços do governo francês para reduzir o déficit público.
Com agências
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