Temor de novos protestos fecha museus e encurta Art Basel Paris em fim de semana decisivo na França
A possibilidade de novas manifestações neste sábado (24) em Paris já provoca impactos significativos no calendário cultural francês. Após a onda de violência registrada em 17 de outubro, instituições de prestígio internacional decidiram cancelar atividades ou fechar as portas por precaução. Entre elas estão os museus do Louvre, d'Orsay e Picasso, além da Art Basel Paris, uma das principais feiras de arte contemporânea do mundo, que anunciou o encerramento antecipado de sua edição de 2026.
O receio de violência em novas manifestações na França levou ao fechamento preventivo de grandes museus parisienses, como o Louvre e o Orsay, além de abreviar a edição 2026 da prestigiada feira Art Basel Paris por razões de segurança. Apesar da perda de dois dias de visitação pública e do descontentamento de turistas, o evento no Grand Palais registrou vendas expressivas e milionárias nos dias reservados a profissionais, reafirmando a força do mercado de arte francês em meio à crise.
O caso mais emblemático envolve a Art Basel Paris. A feira, instalada no Grand Palais, havia recebido profissionais do setor a partir de quarta-feira e previa abrir integralmente ao público entre sexta-feira e domingo. Na quinta-feira, porém, os organizadores anunciaram uma mudança de planos.
"Diante das potenciais manifestações em Paris neste fim de semana e para proteger visitantes, expositores, parceiros, funcionários e as obras, a Art Basel Paris encerrará sua edição de 2026 na sexta-feira às 19h", informaram os responsáveis pelo evento.
O fechamento antecipado elimina dois dias de visitação pública. Milhares de pessoas eram esperadas sob a nave monumental do Grand Palais durante o fim de semana. Os ingressos custavam 47 euros. Segundo os organizadores, a decisão foi tomada por razões de segurança. "A decisão não foi tomada de forma leviana e a segurança de todos os envolvidos com a feira continua sendo nossa principal prioridade", afirmaram em mensagem enviada à AFP.
Até então, a feira havia permanecido praticamente isolada das tensões que marcaram Paris desde a mobilização de 17 de outubro pelo poder de compra. Enquanto confrontos, depredações e saques dominavam parte do noticiário francês, o mercado internacional de arte continuava funcionando normalmente nos corredores do Grand Palais.
Mercado de arte manteve ritmo apesar da crise
Durante os primeiros dias da feira foram registradas vendas de grande valor.
Uma pintura do artista alemão Georg Baselitz foi negociada por cerca de US$ 10 milhões. "La Chaise", de Jean Dubuffet, superou US$ 5 milhões. Já duas obras da artista norte-americana Julie Mehretu alcançaram, juntas, cerca de US$ 10 milhões.
"Estamos extremamente satisfeitos com esses primeiros números", afirmou Vincenzo de Bellis, diretor artístico e diretor global das feiras Art Basel.
Segundo ele, o evento só foi possível graças ao comprometimento de organizadores e galerias em um contexto internacional marcado por incertezas.
Apesar da ausência de alguns compradores importantes, muitos negócios já haviam sido concluídos antes mesmo da abertura ao grande público, como constatou a AFP ao percorrer os corredores da feira na quarta-feira.
"Nossas compras acontecem em alguns segundos. É como uma paixão amorosa ou uma amizade: sabemos imediatamente se a obra combina com a nossa coleção", afirmou um colecionador catalão de cerca de 70 anos que atua no mercado há quatro décadas.
A galerista Vanessa Clairet Stern, porta-voz da Perrotin, destacou a importância da feira para o chamado mercado primário, formado por obras que nunca haviam sido comercializadas, mas também para o mercado secundário, voltado à revenda de peças e espólios artísticos.
"Art Basel é um acelerador para o mercado primário. As obras saem do ateliê e são apresentadas ao público pela primeira vez", declarou. De acordo com o relatório anual elaborado pela Art Basel em parceria com o banco UBS, as vendas de arte na França alcançaram US$ 4,5 bilhões em 2025, crescimento de 9% após dois anos consecutivos de retração.
O país permanece como o quarto maior mercado de arte do mundo e o maior da União Europeia.
Louvre, Orsay e Picasso também fecham: turistas estão perplexos
A preocupação das autoridades não se limita às grandes feiras de arte. O Ministério da Cultura francês anunciou que os museus do Louvre, d'Orsay e Picasso permanecerão fechados neste sábado por causa dos riscos associados às manifestações previstas na capital.
A decisão ocorre poucos dias após outra paralisação que já havia afetado o Louvre. Na segunda-feira, estudantes ligados à Escola do Louvre bloquearam temporariamente o acesso ao museu em protesto contra o que classificam como desmonte do setor cultural e em apoio ao movimento dos estudantes secundaristas.
O bloqueio obrigou centenas de visitantes a permanecer do lado de fora, sem conseguir entrar no museu no horário habitual de abertura. "Não entendemos nada", lamentou Mary, turista holandesa que visitava Paris com a família para comemorar seu aniversário de 50 anos.
Ela afirmou já ter sido impactada pelas manifestações de sábado e pelos episódios de violência e saques registrados posteriormente na capital francesa. "Precisamos entender melhor as reivindicações antes de saber se temos simpatia por esse movimento", acrescentou seu marido, David.
Os estudantes distribuíram panfletos em francês e inglês explicando as razões do protesto.
"Temos orgulho de anunciar que estamos bloqueando o maior museu do mundo", dizia o texto, que mencionava repressão policial, apoio ao movimento estudantil e críticas à situação dos serviços públicos.
"Estamos bloqueando o acesso a um lugar de cultura para que possamos continuar tendo acesso à cultura no futuro", afirmou o estudante Jonas.
"Bloqueamos porque é o único meio de sermos ouvidos", acrescentou outra manifestante, identificada apenas como Baya. A ação, porém, dividiu opiniões entre os visitantes. "Achamos isso lamentável", declarou Sébastien, turista suíço que havia planejado a visita ao Louvre havia mais de um mês. "Existe uma parte de nós que compreende as reivindicações, mas pensamos que há outros lugares para bloquear além de um espaço cultural", disse.
Sua esposa, Marie, foi ainda mais crítica. "É completamente contraproducente. Existem ações que fazem sentido quando se fala de poder de compra, mas aqui isso chega a ser quase ridículo", afirmou.
Até o momento, as autoridades e os organizadores dos principais equipamentos culturais adotam uma mesma estratégia: reduzir riscos diante da possibilidade de novos episódios de violência neste fim de semana.
Com AFP
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